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Reportagem

Como ricos podem doar voos em jatinhos para ajudar com transplantes

Uma iniciativa do IBA (Instituto Brasileiro de Aviação) promete melhorar o transporte de órgãos para transplante. Batizada de TransplantAR, proprietários de aviões e helicópteros privados poderão doar horas de voo em suas aeronaves para transportar equipes e órgãos para transplante.

A iniciativa

Segundo o comandante Francisco Lyra, presidente do IBA, a iniciativa funcionará da seguinte forma:

  • Ao surgir um possível doador de órgãos, a equipe do SNT (Sistema Nacional de Transplantes, ligado ao Ministério da Saúde) acionará a equipe do TransplantAR.
  • Uma lista de possíveis jatos ou helicópteros é analisada para saber qual se encaixa melhor na demanda. Para isso, são analisadas localidade do avião, performance, disponibilidade, alcance, capacidade, entre outras questões.
  • Definido qual o melhor tipo de aeronave, integrantes do TransplantAR entram em contato com o dono da aeronave para saber se ele autoriza a operação. Caso não haja disponibilidade, entram em contato com outro doador de voos até conseguirem uma oportunidade.
  • A partir daí, a logística de médicos e equipamentos de transplante é acertada entre as equipes que realizarão o voo e do local onde será feito o transplante.
  • O avião, então, decola com os médicos até o destino onde será retirada dos órgãos, aguarda o procedimento, e volta para o local onde será realizado o transplante.

"Atualmente, 160 pessoas por dia morrem por falta de transplante. É um acidente aéreo por dia, mas que não ganha as manchetes dos jornais", exemplifica Francisco Lyra. Com a iniciativa, o objetivo é reduzir pela metade a quantidade de órgãos viáveis que não conseguem ser utilizados por não chegar a tempo até os receptores.

Como funcionará a doação?

Empresas e proprietários particulares podem doar os voos. No geral, um jato particular não voa tantas horas quanto um comercial.

Na maior parte do tempo, esses aviões ficam parados, com a manutenção em dia e pilotos à disposição. É justamente nessa ociosidade que estão as novas oportunidades para o transporte de órgãos.

Aeroportos também apoiam a iniciativa. A CCR Aeroportos participou da reunião com a (Agência Nacional de Aviação Civil) em dezembro, momento em que foi divulgado que foi a primeira a aderir formalmente à iniciativa.

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Com isso, não serão cobradas taxas de pouso e de estadia das aeronaves que estiverem realizando essas missões nos aeroportos administrados pela concessionária. O IBA ainda conversa com outros operadores aeroportuários e fornecedores de combustível para viabilizar a gratuidade nessas operações.

Voos serão auditados. De acordo com Lyra, uma consultoria internacional irá auditar os voos realizados e certificar as empresas e pessoas doadoras que aquela ação específica foi responsável por salvar uma determinada quantidade de vidas.

Mesmo sem ainda ter iniciado a operação, iniciativa já é bem vista. Proprietários de aeronaves e empresas ouvidas pelo UOL disseram acreditar que a iniciativa terá um forte impacto e manifestaram interesse em aderir à prática.

Anac apoia a iniciativa

Em dezembro, após reunião com a equipe responsável pelo TransplantAR, a Anac declarou seu apoio a iniciativa. Como reguladora do setor, a agência garantiu que, quando estiver fazendo essa modalidade de transporte, o operador da aeronave não será enquadrado como táxi aéreo clandestino, mesmo havendo o ressarcimento dos custos, mas desde que não haja remuneração pela atividade.

Na segunda-feira (29/01), o IBA se reuniu com a ministra da Saúde, Nisia Trindade, para apresentar o projeto. A iniciativa está, agora, passando pelos ajustes finais para ter início.

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Fila de espera é crítica

Em muitas oportunidades, os órgãos doados acabam não sendo aproveitados por problemas logísticos. A iniciativa do TransplantAR quer reduzir esse problema.

Hoje, órgãos já são transportados por aviões. É o caso dos aviões da FAB (Força Aérea Brasileira), aeronaves de polícias e bombeiros e do Asas do Bem, iniciativa da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) para transporte de órgãos e tecidos em aviões que realizam voos comerciais regulares.

Para que haja a doação após a morte, é preciso seguir uma série de regras. São elas: ter havido morte cerebral, e não falência múltipla dos órgãos; a família tem de entender que não é um coma, que aquele estado não tem retorno; familiares tem de autorizar a doação; não pode haver proibição religiosa; não pode haver alguma comorbidade, entre outros.

Essas restrições tornam o leque de doadores muito pequeno, tornando mais importante reduzir o gargalo do transporte para evitar que, caso um doador surja, seja possível aproveitar os órgãos.

Malha atendida é maior

A aviação comercial regula voar para apenas cerca de 160 cidades, segundo o Instituto Brasileiro de Aviação. A aviação geral, que representa as aeronaves que podem fazer parte do TransplantAR, podem voar para 2.947 municípios, cerca de 53% das cidades brasileiras.

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A frota da aviação geral também é maior que a da comercial. Empresas aéreas possuem pouco mais de 600 aeronaves no Brasil, enquanto aviões de pessoas físicas e de empresas privadas somam mais de 13,5 mil unidades.

Por que o tempo importa?

Um órgão só resiste poucas horas fora do corpo do doador. É o chamado tempo de isquemia, ou seja, é o tempo que o órgão pode ficar sem o suprimento sanguíneo e, consequentemente, a oxigenação adequada para manter suas funções logo após o transplante, explica Ronaldo Honorato, cirurgião cardiovascular do Núcleo de Transplantes do InCor e membro do departamento de transplante cardíaco da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos).

  • Fígado: Até 12 horas
  • Rim: Até 24 horas
  • Pâncreas: Até 8 horas
  • Coração: Até 4 horas

Após esse período, os órgãos sofrem alterações, mudam sua funcionalidade, podendo atrapalhar o resultado do transplante.

Órgãos e tecidos transportados em voos comerciais tendem a ficar mais tempo em isquemia. Isso se deve ao fato de que é preciso passar pelos procedimentos de embarque mais demorados que em aviões particulares e se respeitar os horários pré-estabelecidos dos voos, o que não ocorre em um jato privado.

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Em vez de o governo alocar recursos com o fretamento de aviões, podemos ter a sociedade ajudando diretamente por meio deste projeto. Poderemos captar diretamente esses órgãos que se perdem por problemas logísticos e aumentando a quantidade de transplantes e, consequentemente, reduzindo a fila de espera
Ronaldo Honorato, do InCor e da ABTO

Subaproveitamento é grande

A fila de espera para um transplante de órgão no Brasil chega hoje a quase 42 mil pessoas. Considerando quem aguarda por uma córnea, esse número sobe para quase 70 mil pessoas.

Em 2023, foram feitos aproximadamente 25,2 mil transplantes no Brasil. Esses números incluem fígado, rim, coração, pulmão, pâncreas, córneas entre outros.

Entre 2017 e 2019, 1.529 órgãos que poderiam ter sido transplantados foram recusados devido a problemas de logística. Apenas em São Paulo, foram 487 recusas por problemas de transporte, representando 12% do total ao lado de outros motivos como condições do doador, do receptor ou do órgão.

"Meu sonho é tirar a palavra 'espera' da frase 'fila de espera para transplante', para que ninguém mais precise aguardar", diz Honorato.

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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