Juros em queda: veja onde investir seu dinheiro

Téo Takar

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Getty Images/iStockphoto

O Banco Central baixou a taxa básica de juros (Selic) de 13% ao ano para 12,25% ao ano. Analistas projetam taxa abaixo de 10% ao ano no fim de 2017. A medida deverá afetar a rentabilidade da maioria dos investimentos de renda fixa.

Logo após a decisão do BC, alguns dos principais bancos do país também anunciaram redução dos juros em suas linhas de crédito.

Será que está na hora de você repensar suas aplicações e correr mais risco para ganhar mais? Não necessariamente. Especialistas afirmam que ainda há boas opções na renda fixa. Mas é bom se preparar porque esse cenário tende a mudar nos próximos anos e será preciso correr um risco maior para ter melhores rendimentos.

Confira algumas dicas.

1. Preste atenção na relação entre juros e inflação

Os juros estão caindo, mas a inflação também. Ao escolher um investimento, não olhe só os juros pagos. Veja também a expectativa de juros e inflação para os próximos anos e calcule a taxa real de juros (descontando o efeito da inflação).

Existe uma fórmula específica (* veja no fim deste texto) para calcular a taxa real. Porém, com taxas menores, é possível fazer uma conta simples de subtração (juros - inflação), pois o resultado se aproxima bastante daquele obtido com a fórmula. 

Os analistas consultados pelo BC preveem que a inflação encerrará o ano em 4,43%, enquanto a projeção para a Selic é de 9,5%. Logo, o juro real esperado pelo mercado financeiro no fim de 2017 vai cair para cerca de 5,07% (9,5 - 4,43 = 5,07). Busque aplicações que paguem uma taxa real acima disso.

2. Acostume-se com rendimentos menores

Não espere mais taxas de 14% ou 15% ao ano em aplicações prefixadas. Pode ser interessante um investimento que prometa 11% ao ano (ou 6,6%, descontando a inflação) nos próximos dois anos.

A reunião do Copom em janeiro (que cortou a Selic em 0,75 ponto percentual) motivou um forte ajuste para baixo nas taxas de juros, segundo Illan Besen, sócio da consultoria de investimentos BR Advisors. "Os rendimentos agora estão mais magros", diz.

3. Separe uma parte para investir por mais tempo

As instituições financeiras oferecem um retorno maior se você investir por mais tempo, sem sacar nada no meio do caminho.

O Tesouro Selic (título do governo que acompanha a taxa Selic), por exemplo, oferece boa rentabilidade, com risco muito baixo e excelente liquidez, pois permite sacar o dinheiro de um dia para o outro. 

"Quem puder abrir mão da liquidez e investir parte do patrimônio por quatro ou cinco anos vai encontrar papéis com rentabilidade superior ao Tesouro Selic, e com risco muito baixo também", afirma Ricardo Zeno, sócio-diretor da AZ Investimentos. (saiba mais no item 4)

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  • http://economia.uol.com.br/enquetes/2017/02/09/no-que-voce-investe.js

4. Busque CDBs de bancos menores

Ricardo Zeno afirma que CDBs de bancos médios, menos conhecidos, ainda pagam cerca de 118% do CDI (equivalente hoje a 15,2% ao ano), desde que o investimento não seja resgatado antes de quatro anos. O valor mínimo para aplicação normalmente é de R$ 5.000.

A sugestão é buscar um CDB que pague, no mínimo, 100% do CDI para superar o rendimento do Tesouro Selic. Nos bancos grandes, os CDBs estão em torno de 84% do CDI, e a maioria não oferece liquidez diária.

O único alerta do especialista é que o investimento em determinado banco não ultrapasse o teto de R$ 250 mil, coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito. "Se a instituição quebrar, você está protegido até esse valor. Isso permite investir em bancos menores, sem correr riscos."

5. Vai precisar do dinheiro logo? CDB é uma boa

Para quem vai precisar sacar o investimento em questão de meses, ou até dias, os CDBs de bancos médios também são interessantes, diz Ricardo Zeno.

"Para quem precisa de liquidez diária, há CDBs específicos, que pagam entre 100% e 102% do CDI. Essa taxa é ligeiramente superior ao Tesouro Selic. Além disso, o Tesouro Direto apresenta custos, como custódia (0,3% ao ano) e corretagem (que varia de zero a 0,5% ao ano), que tiram rendimento de aplicações mais curtas. Já os CDBs não têm custos extras para aplicar."

6. Não se assuste com o imposto

Tanto no Tesouro Direto como no caso dos CDBs, o investidor está sujeito a uma alíquota de Imposto de Renda de 22,5% para saques feitos menos de seis meses após a aplicação. Se comparadas à poupança, essas aplicações ainda rendem mais, mesmo depois de descontado o IR pela alíquota mais alta, afirma Zeno.

O rendimento tem que ser de, no mínimo, 8% para uma aplicação com IR de 22,5% superar o rendimento da poupança, que é isenta de IR. Em um cenário em que a taxa de juros caia para 10% ao ano, os CDBs ainda teriam um retorno líquido de 7,75%, contra pouco mais de 6% da poupança.

7. Para ganhar mais, corra mais riscos

Para especialistas, se a inflação cair, em um ou dois anos os investidores terão que buscar aplicações de maior risco para obter retornos como os de agora.

"Hoje, ainda é possível encontrar aplicações de renda fixa, com risco muito baixo, que pagam um juro real [descontada a inflação] de 5,5%. Mas a tendência é que haja uma mudança estrutural na economia, com as taxas caindo para a casa dos 4% ao ano", prevê Illan Besen, da BR Advisors.

Ele lembra que, em países desenvolvidos, os juros são inferiores a 2% ao ano, o que estimula as pessoas a investirem em aplicações de maior risco, como a Bolsa de Valores.

8. Avalie deixar seu dinheiro na mão de profissionais

Em um cenário de mais riscos, as pessoas terão que se informar melhor e conhecer a fundo os diversos tipos de aplicação, como ações, debêntures, contratos de juros futuros e ativos cambiais.

Se você não faz nem ideia do que sejam essas coisas, ou não tem tempo para acompanhar o rendimento de suas aplicações, os especialistas recomendam buscar fundos de investimento ou consultorias especializadas, dependendo do seu patrimônio.

"Uma coisa é tomar uma aspirina para aliviar uma dor de cabeça simples. Outra é tratar de uma infecção. Você vai precisar da ajuda de um médico para receitar o antibiótico certo", compara Besen. "A renda variável exige um acompanhamento constante. Você precisa ficar em cima, monitorando os papéis e as notícias. Se você não tem tempo para isso, pode correr um risco ainda maior."

9. Pesquise sobre fundos multimercados e de ações

Fundos multimercados investem em vários tipos de ativo ao mesmo tempo --por exemplo, títulos públicos, ações, derivativos, debêntures, moedas, contratos de juros futuros. Eles podem apresentar maior ou menor risco e rentabilidade superior ou inferior.

"É importante ler o prospecto e saber em que determinado fundo investe. Analise o histórico de rentabilidade. Pesquise quais são as expectativas para os ativos investidos pelo fundo. Veja se aquele gestor possui boas qualificações. E fique atento também à taxa de administração", afirma Besen.

Segundo Besen, fundos multimercados e de ações cobram, em média, taxa de administração de 2% ao ano e exigem investimento mínimo de R$ 10 mil. A avaliação dele é que, se o fundo tem uma gestão mais ativa e corre mais risco (ações ou multimercado), essa taxa é aceitável. Se for um fundo conservador, tipo DI, a taxa não deve passar de 1%.

A mesma recomendação vale para os fundos de ações, que podem acompanhar um determinado índice, como o Ibovespa, serem concentrados em ações de um setor, como energia, ou buscarem papéis de companhias que distribuem dividendos elevados e com regularidade.

10. Defina quando vai precisar do dinheiro

Mais do que prestar atenção em quanto determinado investimento vai render, você precisa definir quando vai precisar do dinheiro. "Quem puder abrir mão da liquidez por mais tempo, sempre vai conseguir rendimentos melhores", afirma Ricardo Zeno, da AZ Investimentos. Em um cenário em que será preciso correr mais riscos, também não adianta apenas buscar ganhos.

Há um risco de perder metade do patrimônio destinado às ações, diz Illan Besen, da BR Advisors. Se você está disposto a correr o risco de reduzir seu patrimônio em até 5%, a parcela do patrimônio em ações não pode ser maior que 10%. Se perder metade, perderá 5%. "Você terá que definir quanto está disposto a perder se tudo der errado."

* Para se calcular a taxa real de juros, primeiro é preciso transformar todos valores de porcentual para decimal. Basta dividir o valor porcentual por 100. No caso, 9,5% equivale a 0,095 e 4,43% equivale a 0,0443. A taxa real pode ser calculada pela fórmula:  Taxa real =  [(1 + Taxa nominal) / (1 + inflação) ] - 1.

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