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Criptomoedas podem ajudar a Rússia a driblar as sanções que vem sofrendo?

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Fernando Barbosa

Colaboração para o UOL, de São Paulo

14/03/2022 04h00Atualizada em 14/03/2022 14h17

Como resultado da guerra na Ucrânia iniciada em fevereiro, a Rússia vem sofrendo diversas sanções por parte dos EUA e dos países da União Europeia. Esse movimento tem gerado dificuldades no fluxo de dinheiro aos russos e aos ucranianos, que têm adotado as criptomoedas como alternativa. Até mesmo outras nações têm aderido a moedas digitais, como bitcoin e ethereum, para doações a cidadãos da Ucrânia —especialmente aos refugiados.

Em meio a esse cenário, a tendência é de maior adesão às criptomoedas? É possível que investidores deixem outras aplicações de lado e passem a apostar no segmento? Para responder a essas perguntas, o UOL conversou com especialistas no tema. Confira logo abaixo.

Efeitos das sanções

Os bloqueios feitos à Rússia afetam as exportações de matérias-primas, como petróleo e energia, além de alimentos —casos de milho e trigo, por exemplo. Mas não é só isso. Outro impacto decorrente da disputa entre o país e a Ucrânia é que a moeda russa, o rublo, perdeu mais de 50% do seu valor em real em um mês —entre 11 de fevereiro e 11 de março deste ano.

Com isso, o preço das criptomoedas sofreram grandes oscilações nos últimos dias. O preço do bitcoin passou de US$ 34.750 mil, em 24 de fevereiro, para US$ 44.554, em 1 de março, alta de 28,2% em menos de uma semana. Nesta quinta-feira (10) foi negociado a US$ 39.435, com valor de mercado de US$ 748,3 bilhões.

No mesmo período, o ethereum, segundo criptoativo mais popular do mercado, passou de US$ 2.345 para os atuais US$ 2.606 —avanço superior a 11% em pouco mais de 15 dias. Seu valor de mercado é de US$ 312,5 bilhões.

Com a guerra entre Rússia e Ucrânia, o mercado de criptomoedas chegou a US$ 2 trilhões em 2 de março, maior valor desde 16 de fevereiro —segundo dados da CoinGecko. Na véspera do conflito, em 23 de fevereiro, o valor total era de US$ 1,7 trilhão.

Guerra - Radovan Stoklasa/Reuters - Radovan Stoklasa/Reuters
Refugiados da guerra na Ucrânia, incluindo crianças, também chegam a Eslováquia, no leste europeu
Imagem: Radovan Stoklasa/Reuters

Alternativa na guerra

Os especialistas entendem que as criptomoedas podem funcionar como espécie de alternativa às moedas emitidas por bancos e governos, como o dólar ou o euro. Os russos, no caso, têm trocado o rublo por bitcoin como uma forma de proteção contra a inflação em território local, que subiu acima de 20%, conforme informações da Reuters.

De acordo com Caio Villa, CIO da corretora de criptomoedas Uniera, uma vantagem de criptomoedas como bitcoin e ethereum é que elas são descentralizadas (também conhecidas por DeFi). Logo, não dependem de nenhum órgão regulador para funcionar —diferente, por exemplo, daquelas que dependem do Banco Central de seus países.

Assim, as criptomoedas não podem ter as movimentações de usuários rastreadas. E bloquear a conta de um usuário se torna uma tarefa mais árdua em comparação ao sistema financeiro tradicional.

Para se proteger de um eventual vazamento de dados para o governo russo, o ideal é que as operações ocorram de forma descentralizada, o que é possível transacionando os ativos de uma exchange [corretora ou plataforma de criptoativos] descentralizada.
Caio Villa, CIO da corretora de criptomoedas Uniera

Bernardo Schucman, vice-presidente sênior da divisão de moedas digitais da mineradora americana CleanSpark, declara que a iniciativa dos russos não é nova. A estratégia foi adotada na Grécia e na Argentina em meio às crises econômicas em anos recentes.

Doações via criptomoedas chegam a US$ 100 mi

De acordo com informação divulgada na quarta-feira (9) pelo vice-ministro da Ucrânia no Ministério da Transformação Digital, Alex Bornyakov, as doações ao país por meio de criptomoedas chegaram a US$ 100 milhões. Isso equivale a mais de R$ 507,4 milhões.

Para os analistas entrevistados pelo UOL, isso deve continuar crescendo. Para Lucas Schoch, CEO da carteira de criptoativos Bitfy, "o fato de não existirem barreiras geográficas no mundo DeFi torna mais simples as operações e o recebimento de ativos, podendo em instantes, ajudar os ucranianos apenas com um dispositivo móvel conectado à internet".

"O bitcoin é um ótimo meio de doação global, principalmente por não existir domicílio bancário. Pois o bitcoin está na internet e qualquer pessoa do mundo pode enviar livremente esses ativos. Essa flexibilidade é muito importante", diz Canhada, da Foxbit.

Maior adesão aos criptoativos?

As criptomoedas podem descolar da queda dos mercados globais diante da guerra? Para João Canhada, CEO da plataforma Foxbit, isso é improvável.

"No geral, as criptomoedas são consideradas moedas de risco e, em momentos conturbados da economia, naturalmente os ativos de risco tendem a cair. Em momentos de incerteza, o mercado é avesso a risco, sendo normal essas quedas. Eu adoraria que se descolasse [dos mercados tradicionais], mas essa ainda não é a realidade", afirma Canhada.

O CIO da Uniera declara que o conflito e os criptoativos estão conectados com os impactos da economia.

"Então, não tem como [uma criptomoeda] ficar de fora [dos impactos]. Dependendo dos próximos passos, [a guerra] pode até impactar [de forma mais acentuada] outros nichos de mercado, como as ações", diz o CIO.

Schucman, da CleanSpark, afirma que o movimento de migração dos mercados financeiros globais em direção à criptoeconomia ainda é tímido.

"O mercado das criptomoedas ainda mantém uma grande expectativa de uma migração muito maior de recursos financeiros com a intenção de maior diversificação do capital neste momento de incerteza", afirma.

Mas ele acredita que isso pode se intensificar caso a guerra dure muito mais tempo, justamente pela proteção contra a interferência de governos oferecida por esses ativos.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava incorretamente que a cotação do ethereum passou de R$ 2.345 para R$ 2.606. Na verdade, os valores são em dólar: US$ 2.345 e US$ 2.606. As informações foram corrigidas.