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As chaves da crise venezuelana: bonança que acabou com cofres vazios

  • Palacio Miraflores/Reteurs

Caracas, 18 Fev 2016 (AFP) - Uma década de bonança que acentuou a dependência histórica do petróleo, sem poupança e com um modelo de forte controle. São os fatores que abriram a via para uma das piores crises da Venezuela.

Os fatores são reconhecidos parcialmente pelo governo, que, no entanto, destaca seu milionário investimento social.

Quanto dinheiro trouxe o boom?

Entre 2004 e 2015, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo recebeu US$ 750 bilhões, segundo cifras oficiais, um montante que corresponde ao dobro do PIB (Produto Interno Bruto) da vizinha Colômbia em 2014.

O preço do petróleo venezuelano teve um pico de US$ 103,42 o barril em 2012, ano em que as importações totalizaram US$ 66 bilhões, dos quais US$ 52,6 bilhões corresponderam a compras não petroleiras.

Mas a cotação caiu em julho de 2014 de US$ 98,98 a US$ 47,05 ao final do ano.

Isto causou um corte de importações de 33% com relação a 2012. A escassez de alimentos, remédios e insumos --até então cíclica e direcionada-- começou a se estender.

O governo sustenta que entre 1999 e 2014 o chavismo destinou US$ 717,9 bilhões ao investimento social, quase nove vezes mais do que no período 1983-1996.

Cofres vazios

Apesar da bonança --a mais prolongada em um século de exploração petroleira--, as reservas internacionais da Venezuela diminuíram quase pela metade desde 2012. Atualmente estão em US$ 15,05 bilhões.

Ao mesmo tempo, o país aumentou o crédito e o déficit fiscal.

A dívida externa chegava a US$ 250 bilhões em abril de 2015, segundo a empresa Ecoanalítica. Só no ano passado, o governo socialista desembolsou US$ 27 bilhões para o pagamento do serviço, segundo o presidente Nicolás Maduro.

As dívidas comerciais acumuladas diante dos menores ganhos petroleiros --que geram 96% das divisas-- beiram os US$ 12,5 bilhões, o que fechou as portas de fornecedores em vários setores, agravando o desabastecimento.

Maduro afirma que a inflação, a escassez e demais distorções são fruto de uma guerra econômica para tirá-lo do poder.

O déficit público está entre 18% e 20% do PIB. Ajuda no deficit a recusa do governo em reduzir seus gastos, segundo consultorias privadas.

Parte do déficit foi financiado com a emissão de dinheiro para custear, entre outras coisas, altos subsídios e programas sociais em que o governo baseou sua popularidade, avaliam analistas.

Forte controle

A política do falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013), continuada por Maduro, se alavanca em um modelo que privilegia o papel do Estado na economia, limitando a iniciativa privada.

Em 2003, o chavismo impôs um controle férreo de preços e câmbios, mediante o qual fixa a margem de lucro e monopoliza as divisas. Esse controle, aliado a importações maciças, se tornou um obstáculo para o desenvolvimento da indústria, com acesso muito restrito a divisas.

Segundo a oposição, o governo expropriou 1.200 empresas, incluindo 300 de alimentos que não estão operando.

Em um contexto de seca de dólares, esta situação levou a economia a encadear dois anos de contração (-3,9% em 2014 e -5,7% em 2015) e uma inflação de 180,9% em 2015.

Os empresários se queixam de que o controle de preços não lhes permite cobrir os custos de produção, o que alimenta a escassez. Floresce um mercado negro de bens com preços que costumam ser fixados com base em uma taxa de dólar paralelo cem vezes maior que a cotação oficial.

Embora seja penalizado negociar moedas fora do mercado oficial, diante da falta de dólares, alguns empresários recorrem a esta opção, o que encarece os produtos.

Apesar do risco de prisão, estes controles geram corrupção em empresas públicas de distribuição de alimentos.

A oposição diz que a má gestão de recursos durante o chavismo chega a US$ 250 bilhões.

Apagão nos centros comerciais da Venezuela

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