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Cuba precisará lidar com crises em países aliados

Havana, 19 Mai 2016 (AFP) - A Venezuela está em colapso, o Brasil vive um governo provisório de direita, e a esquerda perde espaço nas eleições. Nesse contextos de crise, Cuba precisará enfrentar as turbulências políticas e econômicas na América Latina.

"A mudança de cenário político da região é menos acolhedor do que anos atrás. A retórica de apoio ao governo cubano se reduzirá", antecipou à AFP Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, um centro de pesquisa e análise com sede em Washington.

O governo de Raúl Castro, que até pouco tempo atrás contava com um horizonte favorável, denunciou em abril "uma forte e articulada contraofensiva imperialista" que coincide com a "desaceleração da economia" latino-americana.

Termina assim uma era favorável para Cuba, que começou com a chegada de Hugo Chávez ao poder na Venezuela, em 1999, e que coroou a aproximação com os Estados Unidos no final de 2014.

Com a ajuda do falecido líder venezuelano, Havana deixou para trás o isolamento e a crise econômica em que estava mergulhada desde a queda do regime soviético em 1990.

Governos amigos chegaram ao poder na Argentina, no Brasil, na Bolívia, no Equador, na Nicarágua, no Uruguai, em El Salvador, no Peru e no Chile.

Após a morte de Chávez, em 2013, a realidade política latino-americana começou a mudar, mas apenas agora tem mostrado sua nova cara.

Neste ano, a Venezuela mergulhou em uma profunda crise, o Brasil trocou de governo, a Argentina deixou para trás os tempos dos Kirchner, Evo Morales perdeu um referendo fundamental em sua aspiração de ampliar seu mandato, e o Equador se prepara para a substituição de Rafael Correa.

E o pior: a esquerda no poder, que tanto flertou com a Revolução Cubana, deu adeus aos bons tempos de preços altos das matérias-primas.

"Para Cuba, muito mais grave do que as mudanças políticas é a crise econômica no Brasil e, particularmente, na Venezuela", apontou Shifter à AFP.

- Salva-vidas americano -Além de ser seu principal parceiro comercial, com um intercâmbio que atingiu os 7,258 bilhões de dólares em 2014, a Venezuela fornece a Cuba 95.000 barris de petróleo diários em condições de pagamento muito favoráveis.

"Não há país com o qual Cuba tenha boas relações políticas e que possa fornecer petróleo sob essas condições de pagamento", disse à AFP Jorge Piñón, diretor do Programa de Energia da Jackson School da Universidade de Austin, Texas.

A perda dessas condições "representaria um impacto negativo para Cuba de aproximadamente 1,3 bilhão de dólares anuais", comentou.

Já o Brasil é um de seus principais fornecedores de alimentos, fonte de créditos flexíveis e sócio de empresas de cigarros e açúcar.

Cuba obtém dos dois países boa parte dos 12 bilhões de dólares que recebe anualmente por serviços médicos, sua principal fonte de divisas.

Enquanto apoia o ameaçado Nicolás Maduro na Venezuela, o governo Castro se soma às duras críticas ao processo parlamentar, pelo qual Dilma Rousseff foi afastada da presidência.

O governo interino de Michel Temer respondeu às críticas cubanas com uma advertência velada. "A relação é histórica. Temos interesses nesses países, e eles, aqui", disse à AFP um funcionário do Itamaraty.

"Cuba terá de reorientar suas relações diplomáticas e comerciais na América Latina e no Caribe para além de seus principais aliados regionais da última década", avalia Jorge Duany, diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade da Flórida.

Os observadores acreditam em que Cuba já se antecipou a um cenário mais adverso.

"É possível interpretar a aproximação diplomática do governo de Raúl Castro com os Estados Unidos, em parte, como uma resposta preventiva à contínua deterioração econômica e política de Venezuela", acrescentou Duany.

Em meio ao degelo histórico com seu rival da Guerra Fria, Cuba restabeleceu relações diplomáticas com os Estados Unidos em julho de 2015.

Apesar do embargo ainda vigente, os Estados Unidos podem recuperar seu papel de fornecedor de alimentos e emissor de turistas a Cuba, dois importantes balões de oxigênio.

"É razoável esperar que as importações cubanas dos Estados Unidos continuem crescendo, especialmente se as restrições diminuírem e, eventualmente, o embargo for suspenso", acrescentou Shifter.

Cuba acertou seus assuntos pendentes com os credores do Clube de Paris e assinou um acordo de cooperação com a União Europeia, o que deve se traduzir em um maior acesso a mercados e a financiamentos.

Essa estratégia diversificada deve permitir ao país enfrentar as instabilidades do continente.

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