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Venezuela: governo impõe descontos em roupas e brinquedos para Natal

Caracas, 9 dez 2016 (AFP) - "Oferta: 30% de desconto!" Desde que o governo venezuelano grudou o cartaz na vitrine, a sapataria de Juan Vieira tem filas de mais de 20 pessoas que acabam com o estoque. Mas Pero Juan não está feliz: "do que me serve vender, se dou meu produto de presente?".

Mergulhada em uma grave crise econômica, com uma inflação fora de controle e escassez de alimentos, as festas de fim de ano devem ser austeras na Venezuela. Mas o governo de Nicolás Maduro decidiu agradar os venezuelanos, esquecendo momentaneamente suas palavras de ordem contra o consumismo.

No começo do mês, mandou um exército e fiscais e militares para impor descontos em mais de 200 lojas se roupas e acessórios em Caracas, onde assegura que seus donos teriam elevado os preços dos produtos entre 300% e 500%.

Nesta sexta-feira, foram apreendidos 3,8 milhões de brinquedos de uma empresa acusada de reter e praticar sobrepreços de até 34.000%, para sua distribuição a preços subsidiados.

"Nosso presidente operário nos ordenou garantir os preços justos ao povo e estamos cumprindo [essa determinação]. Estes pistoleiros econômicos não poderão tirar de nós um Natal feliz", afirmou William Contreras, chefe da Superintendência Nacional para Defesa dos Direitos Socioeconômicos (Sundde), durante uma operação.

No sábado passado foi a vez da sapataria de Juan, no centro histórico da capital, onde a maioria das lojas oferece descontos forçados de 30% com o selo do governo, às vezes escrito à mão: "Oferta Sundde" ou "Desconto de 30% Sundde".

Enquanto militares vigiam a porta da sapataria e só deixam entrar os clientes de dois em dois, a caixa aplica o desconto, que equivale à margem de lucro determinada por lei em 2014.

"É arbitrário, é populismo puro. Onde está a remarcação?", diz, irritado, Juan, nos fundos da loja, que abriu em 1995.

O comerciante de 54 anos explica que quando os fiscais revisaram seus documentos, ele mostrou a eles que os preços vêm marcados de fábrica.

Angustiado, confessou a eles que está perdendo dinheiro porque a reposição da mercadoria sempre é multiplicada pela inflação elevada e pelo difícil acesso a dólares para importações, sob o controle estrito do câmbio.

"Se continuarmos nesse ritmo, este mês os sapatos acabam. É para quebrar e fechar", lamenta Juan, que em 2010 perdeu outra sapataria porque o governo de Hugo Chávez expropriou o prédio onde funcionava.

Fazendo fila com prazerMas a dor de alguns faz a alegria de muitos consumidores.

Em um país que vive em uma fila constante em busca de comida subsidiada, as pessoas fazem fila com prazer para comprar roupas com desconto.

"É o melhor que o governo podia fazer este ano porque para comprar uma camisa é preciso deixar de comer", diz Yaroski Mendoza, cozinheira de 19 anos que espera para pagar uma camiseta com o bebê nos braços.

"É preciso aproveitar a oportunidade, porque o venezuelano gosta de usar roupa nova em 24 ou 31 de dezembro. É para se dar um agrado", comenta Isaac Quintero, de 28 anos, que trabalha em um escritório.

Mas, em uma loja onde as camisetas custam menos da metade do cobrado na maioria dos estabelecimentos, alguns clientes criticam a medida.

"Esta loja está muito barata, é um presente o que a gente leva. Estão provocando a falência sem necessidade", afirma Anis Rodríguez, dona de casa de 50 anos.

"Cortina de fumaça"?A loja, situada em uma das principais ruas comerciais do centro, ficou "destruída" quando os fiscais chegaram na segunda-feira para aplicar os descontos, conta Mary, encarregada do local, pedindo para não dar seu sobrenome.

Ela conta que os funcionários foram "muito grosseiros" e que, sem nem mesmo revisar a documentação da roupa trazida do Panamá, colaram os cartazes, dizendo simplesmente que "as ordens vieram de cima".

"É uma cortina de fumaça porque, como não há nada no país, é preciso distrair [a população] com alguma coisa", lamenta Mary, temerosa de que seu chefe cumpra a advertência de fechar o estabelecimento se os descontos forçados continuarem.

Não é a primeira vez que Maduro - com baixa popularidade - determina descontos a produtos na temporada pré-natalina.

Em 2013, ele obrigou uma rede de eletrodomésticos a aplicar descontos de até 70%, desatando avalanches de compradores compulsivos.

"É o que estamos vivendo agora é porque estão obrigando os comerciantes a vender abaixo dos custos. A loja irremediavelmente vai falir", adverte a presidente do sindicato Consecomercio, Cipriana Ramos.

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