Painéis solares iluminam a Amazônia, última fronteira do Brasil sem energia

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11 Out 2017 (AFP) - Os rios Purus e Ituxi cortam o sul da Amazônia brasileira, onde a energia elétrica é um bem tão escasso quão precioso para as comunidades ribeirinhas.

Seguindo a lógica do rio, cujas margens servem de local de moradia para cerca de 600 habitantes da reserva Ituxi, a gasolina e o diesel literalmente movimentam a vida, e só podem ser comprados na cidade, a um preço superior a grandes centros urbanos como São Paulo.

"A última fronteira sem energia é a Amazônia. Ali você tem 2 milhões de brasileiros sem acesso à energia moderna, porque os geradores não são energia moderna, são apenas um paliativo", diz Aurélio Souza, um engenheiro que trabalha em um projeto de fornecimento de energia para essa região de floresta, que tem como foco os painéis solares.

Em Ituxi, a maioria das construções são palafitas com latrinas externas. As mulheres lavam roupa e louça, ao mesmo tempo em que tomam banho em pequenas plataformas às margens do rio.

As casas mais estruturadas têm banheiros e instalações de água potável, extraída de poços artesianos. Nelas, o ruído dos geradores marca o cair prematuro da noite, que possibilita mais quatro horas de iluminação com lâmpadas e, em alguns casos, de televisão, para os ribeirinhos.

O preço do combustível inviabiliza o uso do refrigerador, reservado para ocasiões especiais. Deixá-lo ligado várias horas por dia custaria em torno de 1.200 reais mensais de gasolina.

Mas para Souza, consultor do projeto "Resex Produtoras de Energia Limpa", do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), essa realidade pode ser modificada por meio do uso de energia limpa, que permitiria abandonar de vez o uso dos poluidores e barulhentos geradores.

A disponibilidade de energia solar, o processo de instalação e a durabilidade das peças são fatores determinantes no êxito desse modelo na região amazônica, se comparado a outras alternativas, declarou o assessor da iniciativa, que conta com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Silêncio

O projeto teve início em julho na reserva extrativista Médio Purus, de aproximadamente 6.000 habitantes. Nesse local, na comunidade Cassiana, a escola oferece aulas noturnas via satélite, método que depende da energia elétrica para o uso dos equipamentos como receptor, televisão e caixa de som, além da iluminação, que juntos permitem que a qualidade do conteúdo transmitido seja adequado.

Entretanto, com a instalação dos painéis solares, ocorrida há três meses, algumas coisas já estão diferentes.

"O barulho do motor [do gerador] fazia com que fosse muito difícil se concentrar, mas também quando faltava o combustível não dava para ligar os aparelhos, e terminavam cancelando muitas aulas por isso", conta Francisca de Almeida, 30 anos, aluna do segundo ano do ensino médio.

O novo sistema permite que as baterias possam ser recarregadas durante o dia, e mantém o sistema funcionando por até quatro horas.

Rio acima, mais precisamente em Jurucuá, os habitantes decidiram usar a energia solar para alimentar uma fábrica de farinha de mandioca e uma bomba hidráulica para filtrar e levar a água do rio até a casa de Maria Francisca de Souza, uma senhora que, aos 54 anos, nunca teve acesso à água potável e agora planeja construir o seu primeiro banheiro.

Com 6.042 km², o Médio Purus tem área equivalente a cerca de quatro vezes a cidade de São Paulo, o que somado à logística fluvial, torna complicada a implementação de uma rede elétrica convencional.

"O Brasil contempla em suas políticas públicas a universalização da energia, mas a instalação das redes não chegará a todas as comunidades (...) O custo é muito elevado", ressalta Aurélio, sócio da empresa Usinazul.

"Há um mercado enorme na região e é preciso criar modelos de negócios que contem com apoio público para o investimento básico, caso contrário as comunidades não têm como", acrescenta o engenheiro.

Inovação

A reserva de Ituxi recebeu o sistema como parte do projeto. A pedido da comunidade, os painéis foram instalados na sede da Associação de Vizinhos da Reserva Ituxi (Amari), que pretende comercializar açaí, fruto do norte que caiu no gosto dos moradores de todas as regiões do país.

Para a produção em escala, é necessário o uso de máquinas despolpadeiras e refrigeradores, que representam alto custo em combustível. A coleta, no momento, remete apenas ao consumo interno e imediato.

Aurélio Souza participou também de outro programa pioneiro em energia solar no estado do Amazonas e defende que, por se tratar de um sistema modular, o seu potencial de ampliação é ilimitado.

"O mundo inteiro persegue a inovação, as populações estão se adaptando às mudanças e é o que a gente está tentando fazer aqui", afirma Irismar Duarte, vice-presidente da Amari.

Por se tratar de uma construção mais nova e mais ampla, a Amari possui uma sala de aula e um posto improvisado para o controle da malária na reserva, cujas comunidades mais povoadas estão a 200 quilômetros, ou a seis horas de viagem de lancha rápida, de Lábrea, cidade amazonense onde se situa a reserva.

Após três dias de trabalho, as lâmpadas de Amari acenderam sem o barulho dos geradores. Para Irismar, de 33 anos, "é um sonho, algo que nem parece que poderia acontecer".

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