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'Pejenomics' ou a economia segundo López Obrador

México, 26 Jun 2018 (AFP) - Andrés Manuel López Obrador desperta multidões em campanha, prometendo que se for presidente do México acabará com os saques e a corrupção "infame" do modelo neoliberal, mas em seguida garante aos empresários que respeitará os investimentos: para quem ele diz a verdade?

"No México domina uma máfia no poder. É um grupo que se beneficiou do amparo do poder público, que se tornou imensamente rico às custas do sofrimento dos mexicanos", denunciou na semana passada o candidato de esquerda à emissora local Televisa.

López Obrador, favorito para as eleições de 1 de julho, atribui à "descomunal desonestidade do período neoliberal" o baixo crescimento do México, a queda do poder aquisitivo e o estabelecimento de uma "economia das elites".

Sua proposta de um plano inspirado no "desenvolvimento estabilizador" do período entre 1950 e 1970 - de grande crescimento, mas enorme controle econômico no México -, fizeram seus detratores temerem uma rota de populismo e crise como da Venezuela.

Atualmente, a segunda maior economia da América Latina e a 15ª do mundo está longe do ideal.

Seu crescimento médio no século foi de apenas 2% ao ano - muito baixo comparado aos 9% da China, um paradigma da abertura comercial na qual o México também apostou quando assinou o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês).

Desde então, o país consolidou um vibrante setor industrial orientado para exportar principalmente para os Estados Unidos. Mas estes avanços foram insuficientes para os 53,4 milhões de mexicanos que vivem na pobreza, 44% da população. Por isso, muitos consideram pertinente questionar este modelo e seus resultados.

"Defender essa mudança de rumo, ou seja, não fazer as mesmas coisas que estamos fazendo nos últimos 30 anos, é o principal acerto", diz César Salazar, pesquisador econômico da Universidade Nacional Autônoma do México.

Para López Obrador, conhecido pelo apelido "El Peje", a corrupção é o que bloqueia o acesso de milhões de mexicanos à prosperidade.

Seu diagnóstico é simples: erradicando este mal, ele poupará mais de 500 bilhões de pesos (26,6 bilhões de dólares) ao ano, com os quais, garante, realizará grandes investimentos públicos.

- 'Pejenomics' -Para Marco Oviedo, economista do banco britânico Barclays, financiar-se com fundos resgatados da corrupção é irreal, mesmo juntando tudo o que foi desviado em todos os casos durante o atual governo de Enrique Peña Nieto.

"Se somar tudo o que está registrado como desfalque, não chegará aos 500" bilhões, aponta Oviedo, cujo cálculo equivale a 0,5% do PIB (90 bilhões de pesos).

Outra proposta, a de reduzir a burocracia, também não seria suficiente. Oviedo estima que mesmo eliminando todos os ministérios economizaria "no máximo" 20 bilhões de pesos anualmente.

Mas o maior obstáculo para seus planos, resumidos recentemente em um documento intitulado "Pejenomics", é a desconfiança da elite empresarial.

Seu anúncio de que irá revisar, por suspeita de corrupção, mais de 100 contratos bilionários assinados com a iniciativa privada no setor petrolífero, depois de uma abertura histórica do setor energético em 2014, e de cancelar a construção de um novo aeroporto para a capital, avaliado em 13 bilhões de dólares, irritou os investidores locais e estrangeiros.

Carlos Urzúa, renomado economista proposto como seu ministro da Fazenda, respondeu que os contratos "serão respeitados e serão cumpridos".

O especialista, que se reuniu com investidores no México, Nova York e Londres, promete uma estabilidade macroeconômica exemplar, com livre flutuação cambial, autonomia do banco central, inflação controlada e finanças espartanas.

- "As contas não fecham" -A prioridade é aumentar o investimento público, que com Peña Nieto caiu a mínimos históricos, 3% do PIB, para financiar projetos como um programa de trabalho para milhões de jovens e grandes projetos de infraestrutura. Mas, para isso, é fundamental parcerias privadas, que podem ser difíceis.

Recentemente, o poderoso Conselho Empresarial Mexicano rejeitou o candidato, que chamou alguns de seus membros de "traficantes de influência" que "se beneficiam da corrupção".

"As contas não fecham", resume Oviedo sobre o equilíbrio entre as suas propostas e como financiá-las.

Salazar compartilha dessa mesma preocupação, mas descarta ver o país se tornar a Venezuela, porque, diferentemente do sul-americano, dependente do petróleo, o México é uma economia diversificada e aberta.

Raymundo Tenório, acadêmico do Tecnológico de Monterrey, teme que seus planos gerem "uma desordem financeira" que prejudicaria o crédito do país.

Embora procure emular um modelo democrático social europeu, os resultados seriam semelhantes às da Argentina de Nestor e Cristina Kirchner (2003-2015), promotores de um Estado de bem-estar à custa de inflação alta e debilidade de crédito, considera Tenorio. "Se este homem se tornar presidente, rezo para que não cumpra o que prometeu", conclui.

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