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Crise de 2008 ainda atormenta jovens americanos

06/09/2018 12h15

Nova York, 6 Set 2018 (AFP) - Alguns tinham pouco mais de 20 anos e estavam se preparando para entrar no mercado de trabalho em 2008, mas a crise financeira e a onda de falências corporativas dificultaram suas ambições e acabaram com a fé no futuro e no sistema.

Esta crise, a pior desde a Grande Depressão, desencorajou grande parte desta geração, mas também despertou consciência política, o que levou muitos a se unirem ao movimento "Occupy Wall Street" ("Ocupar Wall Street").

Esta resposta popular contra a corrupção, os lobbies e a impunidade nas finanças nasceu em setembro de 2011 no distrito financeiro de Manhattan, base das grandes instituições financeiras americanas e globais.

Laura Banks, de 31 anos, lembra-se de percorrer sem sucesso feiras de emprego em tempos de crise. Seus amigos de repente perderam seus empregos. Seu pai, um advogado, estava lutando para encontrar clientes.

"Sentimos que estamos atrasados", diz Banks, que agora é gerente de projetos da Express Scripts em St. Louis. Casou-se no ano passado, mas ainda não teve filhos, em parte por medo de outra crise financeira.

Seus temores cresceram quando o banco ofereceu a ela e ao marido um empréstimo hipotecário quatro vezes maior ao valor solicitado. Então, voltaram à mente imagens de famílias expulsas de suas casas porque não puderam pagar o empréstimo.

Laura faz parte da geração nascida entre 1980 e 1996, chamada "Millennial", um dos principais alvos dos anunciantes.

Sobrecarregados por empréstimos estudantis, esses jovens tiveram de prolongar sua permanência na casa dos pais depois da faculdade, devido à falta de trabalho em razão da crise.

- Geração perdida? -Este grupo também está em risco de se tornar uma "geração perdida", advertiu o Federal Reserve de St. Louis em um relatório divulgado em maio que revelou que a acumulação de riqueza pelos Millennials está atrasada em relação aos padrões históricos de pessoas entre 20 e 30 anos.

"Infelizmente, esta geração ainda era muito jovem em 2008 para ter tomado um empréstimo imobiliário, ou ter uma carteira de ações negociadas, ativos cujo valor se valorizou consideravelmente nos últimos anos", lamenta o Fed.

Por isso, sua riqueza não foi aproveitada, diz o relatório.

A crise financeira de 2008 impactou mais os jovens adultos, porque não havia nenhuma maneira de se recuperar da dívida adquirida para educação, carros e cartões de crédito.

A dívida antes da crise se pagava em dez anos, agora se estende a entre 20, ou 30 anos para alguns. O montante da dívida estudantil, de acordo com as agências responsáveis pelo controle, agora chega a mais de 1 bilhão de dólares.

A esmagadora dívida estudantil foi um dos gritos de protesto do Occupy Wall Street, que denunciou um sistema que beneficiou "1%" da população à custa de todos os outros.

O grupo teve grande visibilidade durante a ocupação por quase dois meses do Zuccotti Park, em Manhattan, antes de a polícia expulsar os ativistas em novembro de 2011.

Apesar da discrição atual, Occupy Wall Street mantém presença no Twitter, onde promove políticas ambientais, critica a gentrificação (processo de urbanização que desloca os habitantes originais de um bairro por outros geralmente com poder aquisitivo maior) e o presidente Donald Trump por questões de imigração, entre outras.

Seu grande legado é, porém, o impacto que permanece na memória dos Millennials. Um estudo de abril 2016 da Universidade de Harvard mostra que apenas 41% dos jovens entre 18 e 29 anos apoiam o capitalismo, um número considerado baixo em um país com tradição capitalista. Além disso, na mesma pesquisa, um terço dos jovens se manifestou a favor do socialismo.

- "Capitalismo compassivo" -John Della Volpe, diretor de pesquisas da Kennedy School, analisa como os Millennials lembram como a crise prejudicou seus pais e outros que respeitaram as regras.

Por esta razão, segundo Della Volpe, os jovens adultos apoiam um "capitalismo compassivo" para abordar questões como a grande desigualdade e um sistema de financiamento de campanha comprometido.

"Acredito que eles tenham uma definição diferente do sonho americano, menos relacionado à economia e mais à flexibilidade e à felicidade", ressalta.

Este grupo mantém distância dos principais partidos políticos nos Estados Unidos, com exceção das campanhas eleitorais dos democratas Barack Obama em 2008 e de Bernie Sanders, o socialista de cabelos brancos que travou contra Hillary Clinton uma batalha inesperadamente difícil pela candidatura democrata em 2016.

"Nós, os Millenials, estávamos na escola em 11 de setembro. A crise financeira veio quando estávamos na faculdade. Não crescemos em um período de prosperidade econômica", apontou recentemente em uma entrevista Alexandria Ocasio-Cortez, uma jovem de 28 anos que se tornou uma estrela em ascensão do Partido Democrata e musa da esquerda progressista.

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