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Os 'favores' vitais da natureza ao homem

2019-04-26T18:31:00

2019-05-17T13:29:41

26/04/2019 18h31

Paris, 26 Abr 2019 (AFP) - O declínio acelerado da biodiversidade ameaça os múltiplos benefícios vitais que a natureza fornece ao homem, como os medicamentos, a polinização de cultivos e a regulação do clima, segundo os especialistas.

"Normalmente as pessoas não vinculam a natureza com a segurança alimentar, a água potável, a coesão social...", lamenta Bob Watson, presidente da plataforma científica para a biodiversidade IPBES.

"Mas a perda de biodiversidade tem implicações econômicas e sociais". "E não são só os grandes animais carismáticos os que contam, mas também o besouro, os vermes, o morcego, são a pedra angular dos ecossistemas".

Alimentos

O primeiro "favor" que os insetos nos fazem é polinizar os cultivos. Cerca de 1,4 bilhão de empregos e 3/4 dos cultivos dependem disso, segundo um estudo.

"Hoje em dia, nos Estados Unidos, as pessoas transportam milhões de abelhas de um pomar a outro para polinizar", segundo Watson. "Mas sabemos que a diversidade importa tanto quanto o número: uma mistura de abelhas selvagens e domésticas será mais eficaz que só domésticas".

A redução de insetos provoca ao mesmo tempo a dos predadores: pássaros, ouriços, lagartos, anfíbios... que protegem os cultivos eliminando as lagartas. Em menos de 30 anos, a queda do número de insetos na Europa (-80%) contribuiu para o desaparecimento de mais de 400 milhões de pássaros.

As rãs e outros anfíbios são os que estão mais ameaçados, segundo o biólogo Gilles Boeuf, que lembra que na história da Terra eles "foram os primeiros a sair da água e respirar, e vamos perder isto!".

Outro entorno em perigo são os recifes de coral que protegem as costas da erosão, alimentam os peixes e abrigam 30% das espécies marinhas. Mais de 500 milhões de pessoas dependem diretamente deles.

Saúde

Metade dos nossos medicamentos procedem de espécies vivas, sobretudo vegetais, e de animais, especialmente marinhos.

Como exemplo, a estrela-do-mar e o ouriço-do-mar contribuíram com o desenvolvimento de quimioterapias contra o câncer.

Perante a poluição, a vegetação filtra os agentes poluentes. Em Xangai, os parques permitem capturar 10% das partículas finas, segundo um estudo. Uma árvore pode absorver até 20 kg/ano destas partículas, segundo outro informe de 2008.

Muitas investigações mostraram os vínculos entre a natureza e a saúde (alergias, doenças crônicas, psicológicas...)

Nos Estados Unidos, um estudo que acompanhou 100.000 mulheres que viviam em ambientes urbanos durante oito anos revelou que as que viviam a menos de 250 metros de um espaço verde tinham uma taxa de mortalidade 12% inferior ao resto, especialmente em relação a casos de câncer.

A Escola Médica de Harvard detalhou os benefícios da natureza na cidade: menos poluição, ruído, estresse...

Água

Plantas e micro-organismos contribuem para sanear as camadas da terra.

Nas cidades, o Conselho Econômico e Social francês destacou recentemente um regresso às "soluções verdes alternativas à gestão das águas pluviais só com tubulações". Esta opção serve igualmente para limitar as inundações.

"Nenhuma estação de tratamento vale o mesmo que um pântano bem vivo", confirma Gilles Boeuf.

"Os elementos vivos são indispensáveis para o homem: um corpo humano tem tantas bactérias quanto células humanas e um recém-nascido é 3/4 composto de água", afirma.

Em cifras?

Alguns especialistas defendem quantificar estes "favores" gratuitos da biodiversidade, para dar mais visibilidade a eles. Os economistas os calcularam em US$ 125 trilhões por ano, ou seja, 1,5 vez o PIB mundial.

Por exemplo, o valor da polinização se aproxima de 200 bilhões de euros anuais.

Segundo o estudo sobre a Economia dos Ecossistemas (TEEB), publicado em 2010, a erosão da biodiversidade custa entre 1,3 trilhão e 3,1 trilhões de euros por ano.

Este conceito de "capital natural" continua sem ser compreendido, reconheceu recentemente o economista Pavan Sukhdev, que dirigiu este estudo e preside atualmente a área internacional da WWF.

"Trata-se de encontrar uma razão racional para garantir que esta riqueza pública se conserve. Líderes empresariais e dirigentes econômicos têm o devem mundial de reconhecer estas externalidades".

Errata: o texto foi atualizado
O texto informava incorretamente que o impacto desses "favores" seria de US$ 125 bilhões por ano. O correto é US$ 125 trilhões. A informação foi corrigida.

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