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Agronegócio

Criadores de porcos no Brasil se beneficiam de peste suína na Ásia

05/07/2019 13h41

Rio de Janeiro, 5 Jul 2019 (AFP) - Uma epidemia de peste suína africana está dizimando rebanhos na Ásia, mas isso pode representar uma oportunidade para os criadores brasileiros de porcos, que já sentiram um aumento nas exportações - algo que pode transformar este setor no país.

A epidemia deste vírus, que já levou ao sacrifício de milhões de animais, atinge há meses uma das principais regiões produtoras e consumidoras de suínos, e agora agita os mercados.

"A doença tem um impacto significativo nos mercados globais: os preços da carne de porco aumentaram rapidamente entre fevereiro e maio de 2019" com a forte demanda na Ásia para "compensar a escassez de produção" local, informou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) nesta quinta-feira (5).

A região deve aumentar suas importações de carne suína em 5,2 milhões de toneladas (+10%) neste ano, de acordo com a FAO.

Uma das consequências diretas é o forte aumento das exportações brasileiras de porco: em montante (+30,5%, a 647,54 milhões de dólares) e em volume (+27,3%, a 647,54 milhões de toneladas) no primeiro semestre de 2019 em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com o Ministério da Economia.

A empresa brasileira JBS, um dos maiores grupos agroalimentares do mundo, disse que "monitora de perto" a situação da Ásia. A peste suína africana "está trazendo uma mudança significativa para o atual ambiente de comércio global de todas as proteínas", afirmou um porta-voz do grupo à AFP.

"No segmento de suínos, especificamente, como a cadeia é mais longa, a companhia está se preparando para ter a capacidade de suprir um eventual aumento relevante de demanda da China, otimizando a capacidade instalada nas plantas habilitadas para este mercado", explica.

Maior consumidor mundial dessa carne, a China comemora em 2019 justamente o Ano do Porco. Até então, o país produzia 55 milhões de toneladas de carne suína ao ano - 45% do total mundial.

Pedro Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, relativiza este potencial, entretanto: "O setor de suínos certamente cresce, mas é pequeno para atender a demanda asiática".

- 'Boa oportunidade' - Ele acredita, porém, que "essa grande demanda também chegará às alternativas de proteína animal e aos bovinos".

Essa é uma "boa oportunidade" para a indústria, que pode aproveitar a ocasião para vender mais frangos e bovinos para a Ásia, avalia a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Mas o gigante sul-americano terá de investir para poder exportar mais, afirmou nesta quarta à AFP.

"Após dois anos de retração, espera-se que a produção brasileira (de carne) aumente 5,5%, devido à grande disponibilidade de alimentos para animais permitida pelas colheitas recordes de milho e soja e pela forte demanda estrangeira", disse a FAO em seu relatório Food Outlook, publicado em maio.

"Trata-se de uma rara combinação de eventos que coloca os criadores de suínos diante de preços mais altos, volumes de exportação mais significativos e preços de alimentos para animais mais baixos", descreve a organização.

A situação favorável pode se prolongar por bastante tempo. Especialistas acreditam que serão necessários entre dois e dez anos para controlar totalmente o vírus da peste suína africana na Ásia, porque as normas sanitárias e de biossegurança não são sempre aplicadas na região, sobretudo, nas milhares de granjas de pequenos produtores.

Esta crise sanitária coincide com uma guerra comercial e tensões diplomáticas entre China, de um lado, e Estados Unidos e Canadá, do outro.

No fim de junho, Pequim suspendeu as importações de carne canadense, após encontrar falsos certificados de exportação de porcos do Canadá, de acordo com autoridades chinesas.

Os dois países enfrentam uma crise severa desde dezembro, quando a polícia prendeu, em Vancouver, uma diretora da gigante chinesa de telecomunicações Huawei, Meng Wanzhou, a pedido dos Estados Unidos.

"A guerra comercial com os EUA representa um risco, já que pode ser benéfica no curto prazo (para o Brasil), mas um eventual e provável acordo (entre China e EUA) poderia causar uma crise" para os pecuaristas que tiverem apostado demais no conflito Washington-Pequim, alerta Camargo Neto.

"O melhor é a demanda estável", garante o ex-diretor de Produção e Comércio no Ministério da Agricultura, que atuou entre os anos 2000 e 2002.

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