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Candidato sul-coreano utiliza tecnologia 'deepfake' em busca de votos

14/02/2022 08h47

Seul, 14 Fev 2022 (AFP) - Em um escritório em Seul, dezenas de jovens trabalhadores descolados usam a tecnologia "deepfake" para tentar alcançar o quase impossível: fazer um político tradicional de meia-idade parecer um candidato presidencial "moderno".

Armada com horas de imagens especialmente gravadas do candidato Yoon Suk-yeol, do Partido Poder Popular, a equipe criou um avatar digital e deixou "IA Yoon" correr solto na campanha eleitoral de 9 de março.

A tecnologia de inteligência artificial (IA) já foi usada antes em campanhas eleitorais, desde um vídeo deepfake de Barack Obama insultando Donald Trump até a campanha fracassada do empresário Andrew Yang para prefeito de Nova York.

Mas os criadores do AI Yoon o consideram o primeiro candidato oficialmente "deepfake" do mundo, um conceito que está ganhando força na Coreia do Sul, que tem uma das redes de internet mais rápidas do mundo.

O avatar parece quase idêntico ao verdadeiro candidato sul-coreano, mas usa linguagem e expressões populares para atrair jovens eleitores que estão online.

IA Yoon fez muito sucesso, atraindo milhões de visualizações desde 1º de janeiro. Dezenas de milhares de pessoas fizeram perguntas, mas não sobre questões tipicamente políticas.

"O presidente Moon Jae-in e (o candidato presidencial rival) Lee Jae-myung estão se afogando, quem você salvaria?", perguntou um internauta a IA Yoon. "Desejo boa sorte aos dois", respondeu o avatar.

- Meta-sarcasmo -À primeira vista, o AI Yoon pode parecer um verdadeiro candidato, uma prova de quão longe os vídeos gerados por IA, conhecidos como deepfakes, chegaram.

O verdadeiro Yoon gravou mais de 3.000 frases, em 20 horas de áudio e vídeo, fornecendo dados suficientes para a empresa local de deepfake criar o avatar.

"As palavras que geralmente são faladas por Yoon são melhor refletidas em AI Yoon", disse Baik Kyeong-hoon, diretor da equipe AI Yoon. O que o avatar fala é escrito por sua equipe de campanha, não pelo candidato.

"Tentamos criar respostas humorísticas e satíricas", disse Baik à AFP. O esforço compensou. Os pronunciamentos de IA Yoon fizeram manchetes na imprensa coreana, com sete milhões de pessoas visitando o site "Wiki Yoon" para consultar o avatar.

"Se tivéssemos produzido apenas respostas politicamente corretas, não teríamos essa reação", explicou Baik. Respondendo a perguntas, IA Yoon, brincando, se refere ao presidente Moon e a seu rival Lee como "Moon Ding Dong" e "Lee Ding Dong", e critica veladamente a política conciliatória do governante em relação a Pyongyang.

As Coreias do Norte e do Sul permanecem tecnicamente em guerra, e Moon se encontrou com o líder norte-coreano Kim Jong Un quatro vezes, algo que Yoon considera muito suave.

O avatar também usa o humor para tentar desviar a atenção dos escândalos passados de Yoon, dizendo que uma construtora lhe presenteou com frutas quando ele era o procurador-geral.

"Não estou comprometido com caquis e melões. Estou comprometido apenas com as pessoas", disse IA Yoon, embora sua campanha tenha admitido mais tarde que ele aceitou alguns presentes.

Ko Sam-seog, da equipe de campanha do candidato da oposição Lee, acusa o cibercandidato de "degradar o decoro político".

Mas o sarcasmo funciona: embora as pesquisas para a eleição de 9 de março mostrem os candidatos lado a lado, Yoon assumiu a liderança sobre Lee Jae-myung entre os eleitores na faixa dos 20 anos.

Baik e seus dois companheiros de equipe, que estão na casa dos 20 e 30 anos, estão entre os membros mais jovens da equipe de campanha de Yoon.

Eles formulam as respostas de IA Yoon em sessões rápidas que podem terminar em 30 minutos, em contraste com a retórica cuidadosamente elaborada dos debates políticos.

A comissão eleitoral da Coreia do Sul permite que candidatos de IA façam campanha com a condição de que se identifiquem claramente como tecnologia deepfake e não espalhem informações falsas. Mas a tecnologia foi apontada como perigosa.

O vídeo deepfake de Obama insultando Trump foi produzido pelo premiado cineasta Jordan Peele para alertar os espectadores sobre a necessidade de serem cautelosos com o que encontram na internet.

Mas Baik acha que a IA é o futuro das campanhas eleitorais. "É muito fácil criar muito conteúdo com a tecnologia deepfake", disse ele à AFP. "É inevitável que isso seja usado cada vez mais".

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