Empresas japonesas usam filmes tristes e choro para 'aproximar' funcionários

Emily Webb

  • BBC

Somos dez pessoas sentadas em uma sala de conferências de um conjunto de escritórios em Tóquio e um homem acaba de colocar em uma seleção de clipes de filmes.

Enquanto a música ecoa de caixinhas de som, uma história de cortar o coração sobre um homem surdo e sua filha começa na tela. A filha sofre com doença terrível e é levada para o hospital. O homem, incapaz de se fazer entender que ele é o pai da moça seu pai, é impedido de passar da recepção do hospital. O filme termina com ele chorando inconsolável, enquanto ela morre sozinha.

O segundo filme - sobre um cachorro à beira da morte - começa e eu ouvi um soluço abafado do outro lado da sala. Minutos depois, à minha direita, começa um "funga-funga" alto. Em 15 minutos, metade dos que estão na sala está olhando para a tela com lágrimas escorrendo pelo rosto.

O homem que exibe os filmes caminha pela sala com um grande lenço de algodão e suavemente limpa as lágrimas do rosto das pessoas. Ele diligentemente redobra o lenço para oferecer um lado seco à próxima pessoa que chora.

"Quando comecei a participar desses workshops, houve alguns momentos bastante constrangedores", diz o homem com o lenço, Ryusei. Ele tem aparência de modelo e leva muito a sério seu trabalho de enxugador de lágrimas.

"Eu tinha pouca prática e, por isso, não podia chorar facilmente. Isso fazia com que o público não chorasse também. Mas estou muito melhor agora, eu consigo chorar e, assim, os outros me seguem", conta.

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Ryusei em ação: ele enxuga as lágrimas de uma das participantes do workshop no Japão

O trabalho de Ryusei é, de fato, incomum. O nome da profissão em japonês é ikemeso danshi, algo como "meninos bonitos chorando". Ele conduz oficinas com o único propósito de fazer as pessoas chorarem.

"Os japoneses não estão acostumados a chorar na frente das pessoas. Mas, uma vez que você chora na frente dos outros, o ambiente muda, especialmente no mundo dos negócios"

A ideia da estratégia é mostrar vulnerabilidade das pessoas - quando os outros veem esse lado emotivo dos colegas, supõe-se que as pessoas são capazes de estreitar as relações e funcionar melhor como equipe.

A maioria dos filmes que o bonitão exibe na sessão em que participo tem animais doentes ou explora a relação pai-filha e parece ser dirigida às mulheres. Disseram-me que qualquer um pode participar, mas na sessão de hoje só um dos participantes não é do sexo feminino. O único homem é o chefe da empresa que organizou a oficina.

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Filmes projetados por Ryusei para fazer as pessoas chorarem, em sua maioria, mostram animais doentes e exploram a relação pai-filha

As empresas podem escolher entre uma seleção de diferentes rapazes que choram e secam lágrimas. Um deles é um dentista que atua nessa área nas horas vagas. Há os que secam lágrimas como atividade principal e, para isso, interpretam papeis de ginasta, agente funerário ou engraxate.

O responsável pela oficina do dia é Ryusei, conhecida por ser bonitão mas ligeiramente mais velho que os demais rapazes boa pinta que choram (e secam lágrimas) - os outros têm 20 anos enquanto ele se aproxima dos 40.

Em Tóquio, outras empresas lançaram projetos similares. Sessões de afago não-sexual e de serviços "alugue um amigo" já estão disponíveis na cidade.

As oficinas de choro foram a ideia de Hiroki Terai - ele é um homem de negócios determinado a fazer com que os japoneses expressem suas emoções: "Eu sempre tive interesse nas sagas ocultas dos seres humanos", diz ele.

Tudo começou quando Terai tinha 16 anos de idade. Sem amigos na escola, ele fazia o lanche sozinho, trancado no banheiro. Foi um momento difícil: "Foi ai que eu comecei a querer saber mais sobre as emoções reais das pessoas - na superfície elas estão sorrindo, mas nem sempre é como estão se sentindo".

O primeiro projeto de Terai foi promover cerimônias de divórcio para casais cujos casamentos chegaram ao fim. "O clímax da cerimônia era esmagar o anel de casamento com um martelo", explica.

Os casais lhe relatavam que o choro era o momento mais catártico. Assim, em 2013, Terai decidiu criar um negócio para fazer pessoas chorarem. Passou a oferecer oficinas abertas a todos em Tóquio.

"As pessoas vinham para chorar juntas. Depois que gritavam, diziam se sentir muito bem depois", diz ele. "O único problema era a percepção de homens que choravam. As pessoas pensavam que eles eram chorões ou fracos."

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Na oficina conduzida por Ryusei o choro contagia: começa num canto da sala e, em seguida, a maioria dos participantes não consegue conter as lágrimas

A solução de Terai

Para tentar afastar essa imagem de fracos e chorões, Terai passou a organizar oficinas do choro lideradas por homens bonitos. A ideia era mostrar que os "boa pinta" também choram e usá-los para fazer outras pessoas irem às lágrimas.

Eu pergunto por que os homens precisam ter boa aparência. Ele dá de ombros e diz: "Eu acho que é porque é muito diferente da vida diária", diz ele. "É emocionante."

As pessoas podem se surpreender com a própria reação aos filmes exibidos nas sessões do choro. "Eu pensei que não iria chorar, mas chorei muito", admite Terumi, uma comediante que está fazendo um documentário sobre esse tipo de oficinas.

Foram os clipes do pai e da filha que a comoveram: "Meu pai ainda está vivo, mas eu tenho mais de 30 anos ... e, ainda hoje, eu, às vezes, não me comporto bem diante do meu pai", diz com um riso nervoso. "Bateu um arrependimento", admite.

Nem todo mundo fica tão comovido quanto a comediante e documentarista. Com um olhar bastante desconfiado, Uria, uma funcionária do escritório, pergunta: " É para dizer a verdade?" Ao ouvir que sim, ela diz: "Honestamente, não estou interessada neste tipo de filme. Foram cinco ou seis filmes, muitas pessoas morreram. Eu não gosto disso! Eu não acho que comove. Não me emocionou".

Toda a premissa do negócio de Hiroki Terai gira em torno da ideia de que os japoneses não choram o suficiente. Pergunto se é um estereótipo, mas a maioria dos participantes da oficina parecem concordar.

"Os japoneses não são realmente bons em expressar suas emoções", diz Terumi, que está fazendo o documentário. "As pessoas que trabalham em empresas não costumam revelar muito suas opiniões ou sentimentos", completa ela.

E é isso que motiva Hiroki Terai, o fundador da empresa. "Quero que fazer os japoneses chorarem mais", diz ele com uma empolgação genuína. "Quero isso não só em casa, mas no escritório. Se chora no trabalho, acha que os colegas não vão querer oferecer conforto - há uma imagem muito negativa do choro".

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A premissa das oficinas é mostrar que chorar é normal e saudável para tentar quebrar a resistência dos japoneses em expressar seus sentimentos

Terai acredita que compartilhar emoções melhora o ambiente de trabalho. "Depois de chorar e deixar as pessoas verem sua vulnerabilidade, você pode se relacionar melhor com as pessoas e isso também é bom para a empresa", argumenta o criador das oficinas do choro.

Depois que deixei aquela sala, pensei sobre o a noite surreal. Não chorei como fizeram os japoneses que participaram da sessão. No entanto, se estivesse focada nos filmes (e não nas reações das pessoas ao meu lado), acho que eu poderia ter ido às lágrimas.

Mas fiquei no fundo da sala, tentando captar ruídos de choro para meu programa na rádio. De fato, não é um comportamento muito propício para chorar.

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