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Por que a China não quer que suas grandes empresas invistam no exterior

Stefania Gozzer

Da BBC Mundo

A China anunciou neste ano que destinará US$ 124 bilhões (cerca de R$ 400 milhões) para investir globalmente em uma iniciativa chamada de Nova Rota da Seda. Mas por que o país está limitando os investimentos de suas grandes empresas no exterior?

Parte da resposta se encontra no centro de Madri, na Espanha, num arranha-céu que simboliza uma das maiores preocupações do gigante asiático.

O edifício Espanha foi adquirido em 2014 pelo grupo empresarial chinês Wanda, um conglomerado com investimentos em imóveis, turismo e lazer que pertence ao segundo homem mais rico do país, Wang Jianlin.

Na época, Wang provavelmente pensou que tinha feito um bom negócio: ele pagara 265 milhões de euros (cerca de R$ 990 milhões, em valores atuais) no imóvel - um terço menos do que o valor pago pelo proprietário anterior. Mas às vezes o barato sai caro. Quando Wanda comprou o prédio, ele estava abandonado há quase uma década e precisava de uma reforma integral.

Os técnicos então avaliaram que o melhor a ser feito era demolir o edifício e reconstruí-lo. A prefeitura de Madri, por sua vez, reagiu firmemente: se tratava de um dos edifícios mais emblemáticos da cidade e estava protegido pela legislação como patrimônio histórico.

A Wanda prometeu que a reconstrução respeitaria o projeto original. Mesmo assim, o governo local insistiu que a fachada do prédio fosse preservada, embora isso nunca tenha sido feito antes, e especialistas não pudessem garantir que a obra fosse ser bem sucedida, diante do tamanho do edifício.

Três anos depois, Wanda entregou os pontos e pôs o imóvel à venda. Segundo a imprensa chinesa, a aventura espanhola custou ao empresário cerca de US$ 30 milhões (cerca de R$ 100 milhões).

Compras compulsivas

Nos últimos anos, empresas chinesas protagonizaram uma onda de compras ao redor do mundo.

A China - que tenta ser uma economia de mercado, mas sem renunciar aos rígidos controles governamentais- reduziu restrições para investimentos de empresas chinesas no exterior na última década.

O objetivo era evitar que as reservas de divisas estrangeiras no país chegassem a um volume incontrolável e também facilitar a aquisição de recursos e tecnologia que permitissem às empresas crescer.

Mas essa etapa parece estar chegando ao fim, já que o governo de Xi Jinping começou, no ano passado, a impor limites que foram ainda mais reforçados na última semana.

"Ele pediu ao setor bancário para ficar alerta para o bem de todos os chineses", disse à BBC Kent Deng, professor de História da Economia da London School of Economics.

O organismo responsável pelo setor bancário determinou que os bancos avaliassem como estão expostos às grandes empresas, ou seja, que consequências sofreriam, caso essas companhias entrassem em crise.

As autoridades não informaram exatamente de que empresas se tratavam, mas as ações da Wanda e dos grupos Fosun e HNA começaram a cair dias depois.

"O dinheiro deve permanecer na economia nacional. Qualquer quantia grande que saia das fronteiras está sujeita ao controle do regulador financeiro desde o último dia 1º de julho", disse Deng.

Investimentos irracionais

Somente em 2016, os investimentos chineses no exterior cresceram para mais de US$ 169 bilhões (cerca de R$ 550 bilhões) no ano, segundo dados do centro de estudos American Enterprise Insitute (AEI).

Neste ano, a quantidade de investimentos anunciados foi ainda maior. Mas quantidade e qualidade são coisas diferentes, e o padrão qualitativo desses aportes não convenceu as autoridades asiáticas.

Segundo o jornal "Washington Post", o ministro chinês do Comércio, Zhong Shan, qualificou os investimentos feitos no ano passado como "cegos e irracionais".

Embora tenha admitido que poucas empresas tivessem cometido esses "erros", ele foi contundente: "Algumas já pagaram o preço."

O ministro ainda lamentou que diversas empresas "tiveram impacto negativo na nossa imagem nacional".

O presidente do Banco Popular Chinês foi mais explícito, e afirmou que essas empresas não cumpriam exigências e políticas para investimentos no exterior, já que visavam a setores "que não trazem muito benefício à China", como esportes e entretenimento.

"Projetos de investimento como estes são vistos como um vazio legal para lavagem de dinheiro e saída de capitais", disse Deng.

Uma moeda internacional

A China quer evitar em seu território situações como as que viveu o Japão ou os Estados Unidos.

Por exemplo, empresas americanas acumulam cerca de US$ 2,6 trilhões no exterior (cerca de R$ 8,5 trilhões), segundo a consultoria Capital Economics. Trata-se de dinheiro obtido pelos lucros de suas operações no exterior e que não foi repatriado para evitar a cobrança de impostos por autoridades fiscais americanas.

"As reservas de divisas estrangeiras na China caíram muito rapidamente e são necessárias para dar apoio ao yuan na tentativa de torná-lo uma moeda internacional", afirma Deng.

Apesar das advertências e medidas chinesas, algumas empresas continuaram anunciando investimentos. Algo que, segundo Deng, acabaram tendo que cancelar.

"Os investimentos recentes serão cancelados pelo Estado de forma unilateral", disse.

"Empresas chinesas pararam com essa onda de compras descontroladas. Na verdade, aquelas firmas bem informadas e conectadas completaram antes do fim de 2016 todas as compras que interessavam", garantiu.

Para ele, as restrições anunciadas pelo governo são "muito pequenas e chegam tarde demais".

Então por que a China impulsiona uma campanha de investimentos globais para a qual destina milhões de dólares?

Porque o país asiático quer ter operações no exterior, mas em setores que lhe interessam. A Nova Rota da Seda está dedicada a investimentos em infraestrutura.

"A maioria desses projetos ajudam a China a exportar o seu excedente de aço, cimento, locomotivas, navios, barcos e contêineres. Estes são os projetos que se promovem nas mais altas esferas", concluiu Deng.

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