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'Deixava de comer para pagar dívidas': o vício em comprar, que atinge ricos e pobres

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Imagem: Thinkstock

Renata Mendonça

Da BBC Brasil em São Paulo

02/03/2018 17h30

Desde pequena, Larissa* tinha a impressão de que todas as amigas da escola tinham mais dinheiro e eram mais bonitas do que ela. Quando chegou na faculdade, ganhou um cartão de crédito do pai que era para emergências, mas um dia se viu comprando roupas e presentes para a família toda com ele.

Já na vida adulta, após uma rotina estressante no trabalho, se deu ao luxo de gastar US$ 800 em uma bolsa e mais US$ 120 em outra em uma breve passagem por Nova York --dois itens que ela tinha certeza de que precisava e de que "merecia". Resultado? Dívidas e mais dívidas no cartão de crédito.

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Miguel* também se sentia inferior com relação aos amigos quando criança. Hoje, comprando presentes e gastando dinheiro, consegue driblar a rejeição e se sentir melhor. Mas admite que, não fosse pela ajuda de seu pai, teria feito a filha passar dificuldade.

No caso de Antônio*, ele teve uma infância difícil, com poucas condições. Chegou a passar fome quando o pai alcoólatra deixou de comprar comida para gastar o dinheiro em bebida.

Quando cresceu, mesmo ainda na pobreza, queria uma vida diferente, mas, trabalhando como professor particular, acabava cobrando dos alunos menos do que gastava em transporte e alimentação para dar as aulas.

Foi acumulando faturas que não podia pagar, emprestava valores que não tinha, deixava de comer para pagar dívidas e chegou até a fechar um plano de R$ 3.000 em uma academia de muai thai que não frequentou. Ele diz que sua situação só não ficou pior porque "não tinha mais dinheiro".

Já Elis* sempre foi uma mulher bem-sucedida, com duas faculdades, empresária desde os 17 anos. Mas quanto mais dinheiro tinha, maior era sua ganância para adquirir negócios e imóveis --até ver R$ 300 mil de suas reservas acumuladas em quatro anos irem pelo ralo em uma empresa que acabou quebrando em pouco tempo.

Seu fundo do poço chegou quando teve a casa penhorada com oficiais de Justiça batendo à porta, e um desespero que a fez pensar em suicídio. Para amenizar a situação, pegava pães de mel consignados com uma doceira e ia vender na porta da Igreja.

As histórias desses que são chamados "gastadores compulsivos" se repetem e caracterizam uma doença pouco conhecida e geralmente ignorada pelas próprias vítimas dela.

São homens, mulheres, jovens, velhos, mais ricos ou mais pobres, que têm em comum um passado com problemas sociais e/ou psicológicos, e encontraram no cartão de crédito o alívio e o prazer momentâneos de que precisavam.

"É bem parecido com a dependência química. Você começa a fumar primeiro com o cigarro dos amigos, depois vai comprar o próprio maço, até passar a fumar todo dia. Você percebe uma expansão daquele comportamento na vida da pessoa. Não é o objeto em si, mas é o ato de comprar", explica a psicóloga Tatiana Zambrano, psicóloga que atua nesta área há 14 anos e é coordenadora do tratamento para compradores compulsivos no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

A pessoa tem necessidade de adquirir demais e não tem um planejamento adequado. Esse transtorno compulsivo independe da condição socioeconômica. O que vai acontecer é que a pessoa vai acumular dívidas proporcionais ao seu nível econômico.
Tatiana Zambrano, psicóloga

Doença

A chamada oniomania é a doença que se caracteriza por um vício em comprar ou gastar dinheiro. A pessoa não consegue controlar seus impulsos e acaba gastando mesmo quando já está cheia de dívidas.

É como se o ato de comprar trouxesse uma libertação, explica a especialista. Quem tem esse vício sente um misto de poder com prazer na hora de passar o cartão de crédito que faz com que se esqueça de qualquer saldo negativo no banco. É uma sensação que seduz e leva os gastadores compulsivos a caírem na tentação e a fazerem mais e mais dívidas.

As desculpas para os gastos podem ser de todo o tipo. "Vou comprar esse sapato porque PRECISO"; "vou me dar esse terno porque MEREÇO"; "está na promoção, metade do preço, NÃO DÁ PARA NÃO comprar", são alguns exemplos, conforme explica a psicóloga Tatiana Zambrano.

O problema chega com a fatura do cartão --que vem acompanhada de uma taxa de juros bem alta, caso não seja paga no valor integral. "Eu sempre achava que, de alguma forma, alguém iria pagar aquilo para mim. A fatura ia chegar, e alguém ia acabar pagando", contou Larissa.

Quando começou sua recuperação, ela cortou todos os cartões de crédito e gastava só o dinheiro que tinha na carteira. Mas um dia teve seu celular roubado e se permitiu uma nova compra a prazo para substituí-lo.

"Eu queria comprar um iPhone, aí fiz outro cartão de crédito. Quando o recebi, me senti muito poderosa. Fui para o shopping extasiada, meu namorado me ligou, eu nem atendi, estava animadíssima: vou comprar um iPhone, serei a pessoa mais feliz do mundo! Quando peguei o celular, me senti muito bem, uma adrenalina que não cabia em mim", relatou.

Não precisou muito tempo para o sentimento se inverter. "Você começa a se sentir culpada. E fica se martirizando: 'por que eu fui fazer isso? Como eu vou pagar esse celular agora?'".

Tatiana Zambrano explica que, ao contrário de vícios como o da droga ou do álcool, que são muito condenados pela sociedade, o ato de comprar é algo "socialmente aceito" e, por isso, não costuma ser associado com uma doença.

"É tão socialmente aceito que tem até um incentivo ao consumo, então você acaba demorando para perceber que tem o problema. Normalmente você só percebe porque tem muita briga, desconfiança entre a família e os amigos. Tem até casamento que acaba nessas situações", explica.

'Problemas financeiros'

Segundo dados estimativos da Organização Mundial da Saúde, cerca de 8% da população mundial sofre de oniomania. No entanto, é muito comum as pessoas terem a condição e não admitirem o vício.

Susana*, por exemplo, sempre gostou de gastar, mas também sempre achou que, no dia em que quisesse "parar" e controlar melhor o seu dinheiro, conseguiria facilmente. Ela buscou ajuda em janeiro, depois de ter passado um ano inteiro tentando segurar os gastos sem sucesso.

"Sempre achei que era uma questão de querer. Mas depois de um ano tentando e não conseguindo, precisei admitir que havia algo de errado", afirmou.

O processo de aceitação do problema pode levar anos ou uma vida inteira até. Para evitar encarar a realidade --ou ser confrontada com ela por familiares ou amigos--, o gastador compulsivo começa a mentir e, às vezes, até mesmo a esconder suas compras para não ter de dar satisfação sobre elas.

Tem muito comprador compulsivo que não usa as coisas que compra. Ele deixa tudo com etiqueta, guardado no armário, e não quer usar para a família não perguntar se é novo. Ou seja, o prazer começa a virar uma prisão.
Tatiana Zambrano

Larissa se viu mentindo para a mãe, que a ajudava a controlar o dinheiro fazendo uma planilha com todos os seus gastos. "Eu inventava as coisas para justificar meus gastos. E quando ela descobria, me dizia que eu não estava mentindo para ela, mas sim para mim mesma".

O processo de negação do comprador compulsivo muitas vezes persiste até mesmo em grupos de ajuda, como o do "Devedores Anônimos", fundado por antigos participantes dos Alcoólicos Anônimos e que tem o mesmo intuito de ajuda mútua entre os membros para evitar uma eventual recaída.

Foi o caso de Vívian*, que frequenta as reuniões do grupo há dois anos e, até o início do mês, achava que seu caso era diferente da situação dos outros ali. "Eu olhava para aquelas pessoas e pensava: eu não sou assim; para eles, é fácil gastar, porque eles têm dinheiro. Eu não achava que eu era uma devedora, eu achava que ganhava mal e tinha problemas financeiros", disse.

Recuperação

O tratamento para o vício em gastar passa por duas áreas: a psicológica, para tratar o problema emocional que leva a pessoa a comprar, e a financeira, para ela começar a planejar cada centavo que sai de sua carteira e tentar uma renegociação de dívidas, para aliviar o fardo carregado diante do acúmulo de débitos.

Na sala de reunião dos Devedores Anônimos, em São Paulo, todos os encontros semanais começam com o que eles chamam de "Oração da Serenidade" que pede "Serenidade para aceitar o não podemos modificar, coragem para modificar o que podemos e sabedoria para distinguir uma das outras".

Em cada partilha de experiências, eles repetem o mantra "Obrigada, 24 horas", reiterando que o esforço para se manterem sóbrios --no caso, solventes, como eles chamam as pessoas que alcançam o equilíbrio financeiro e conseguem pagar suas dívidas-- por mais um dia.

No D.A., os participantes podem escolher um "padrinho" ou "madrinha" (alguém que já esteja no grupo há alguns anos) para ajudá-los com um planejamento financeiro adequado às suas necessidades. Há também reuniões pessoais chamadas de "alívio de pressão", em que o participante expõe uma situação que o incomoda e pede ajuda dos padrinhos para resolvê-la.

O segredo para começar a resolver as dívidas está principalmente em anotar todos os gastos, conforme eles descrevem.

"Eu não tinha a menor noção do quanto eu gastava ou para onde ia meu salário. Quando comecei a anotar, percebi que estava gastando R$ 800 por mês em comidinhas na rua, aquelas paradas em padarias para um café. Logo no primeiro mês, consegui reduzir isso para 180", explicou Vívian, que hoje não tem cartão de débito, nem de crédito, e só usa o dinheiro que tem na carteira.

Eu não posso ter cartão, percebi isso. Com dinheiro vivo, eu vejo ele saindo e sei quando estou ficando sem, é mais fácil controlar.
Vívian, compradora compulsiva

O cartão de crédito, aliás, é o grande vilão para todos eles --e a primeira coisa a ser, literalmente, cortada quando começa a recuperação.

"A pessoa perde a noção do que está pagando. O cartão de crédito promove isso, eu compro e depois eu vejo como eu pago. Isso contribui muito para você perder o controle. Já vi um paciente que tinha 19 cartões de crédito e se endividou em todos eles", contou Tatiana Zambrano.

A psicóloga aconselha pessoas que eventualmente percebam características de gastadores compulsivos em seus familiares e amigos, que tentem ajudá-los mostrando a eles textos, livros, filmes (como "Os Delírios de Consumo de Becky Bloom") que descrevam a condição, para que se identifiquem com ela e busquem ajuda.

"O sofrimento do paciente é muito marcante. A gente fica sensibilizado não só pela quantidade de problemas, mas pela depressão. Muitos pensam em suicídio, acham que nunca vão se livrar daquilo, é muito sofrimento. Uma vez ouvi de uma mulher que ela se sentia como uma garota de programa, porque se tivesse que se vender pra comprar, ela se venderia. Outros que perderam esposa, perderam até guarda de filho por causa do problema. Então o ideal é não criticar, não julgar, e tentar mostrar para a pessoa como ela pode se libertar", finalizou.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados

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