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A Venezuela que encontrei dez anos após minha primeira visita

Guillermo D. Olmo (@BBCgolmo) - Correspondente de BBC News Mundo na Venezuela

02/11/2018 17h19

"A Venezuela é outro país hoje."

Me vejo repetindo isso várias vezes desde que, há três meses, cheguei a este lugar fascinante, dez anos depois da minha viagem anterior, em 2008.

Eram outros tempos. E percebi assim que saí do avião.

Lembrava dos terminais do aeroporto Simón Bolívar, em Maiquetía, que serve à cidade de Caracas, como um local movimentado onde dezenas de taxistas e cambistas ávidos por moeda estrangeira assediavam o passageiro recém-desembarcado.

A maioria desapareceu.

Seu lugar é ocupado por grupos de crianças em busca de esmolas ou do descuido dos poucos viajantes que ainda chegam.

Os policiais do terminal os espantam de vez em quando, ameaçando prendê-los, mas eles voltam.

Em 2008, eu vim de Madri em um voo da Iberia lotado. Desta vez, viajei a partir de Miami em um da American Airlines, com mais assentos livres do que ocupados, como o novo correspondente da BBC News Mundo.

Quando cheguei à sala de coleta de bagagens, minhas malas já haviam dado várias voltas na esteira.

A outrora movimentada cidade de Caracas parece, como seu aeroporto, definhar.

Há muito menos tráfego e muitas lojas fechadas por toda a parte.

Enquanto desvia com notável habilidade dos buracos no asfalto, meu motorista inicia uma conversa que vai se tornar familiar para mim. E dolorosa: "Essa 'coisa' está quebrada, irmão".

Ele, um pai com mais de 50 anos de idade, decidiu ficar. "O que eu vou fazer em outro lugar?", pergunta.

Eu não sei o que responder a ele.

Muitos venezuelanos mais jovens do que ele já saíram, ou pretendem sair, de um país que, de acordo com relatórios de instituições financeiras internacionais, vive uma das piores crises econômicas da história.

O governo nega um êxodo que pôs países vizinhos como a Colômbia e o Brasil em alerta. Diz que tudo é inventado em uma "campanha midiática" contra ele.

Eu, que não fiz um estudo estatístico em profundidade, só posso atestar que em minhas várias passagens pelos serviços de imigração, sempre fui o único estrangeiro na fila.

Por outro lado, venezuelanos em busca de um passaporte válido para poder deixar o país se aglomeram na rua desde a madrugada.

Eles buscam um futuro lá fora, como os amigos que visitei em 2008. Um vive agora no Panamá, outro na Alemanha. Espalhados pelo mundo, como tantos venezuelanos.

Não é fácil conseguir a documentação.

Na verdade, há poucas coisas fáceis na Venezuela.

Ao percorrer Altamira, um bairro endinheirado e tradicional feudo da oposição, me surpreende ver gente com roupas grandes demais no corpo.

É como se faltassem buracos nos cintos que seguram suas calças.

Me explicam que detalhes como esse refletem a deterioração na alimentação de uma classe média flagelada.

Velhos problemas

Há também coisas que não mudaram. Em algumas, a Venezuela não difere muito de países do entorno. Como é o caso da insegurança.

Considerada durante anos a cidade com a maior taxa de homicídios do mundo, Caracas continua sendo um lugar perigoso.

Quase todas as casas noturnas onde eu bebi e dancei dez anos atrás já fecharam.

A maioria dos caraquenhos que permanece na cidade evita sair depois que o sol de põe e nas conversas cotidianas sempre surgem relatos de roubos, agressões e outros delitos.

"Mataram meu compadre na Quinta Crespo, com um tiro, para roubar o celular dele", conta uma mulher. "Desfiguraram o rosto de uma amiga minha aos socos porque ela resistiu ao tentaram roubar sua câmera no Parque del Este", me diz outra, mais jovem.

Eu, há anos acostumado a voltar de madrugada tranquilamente a pé para o meu apartamento em Madri, mentalizo que, se chegar o dia de também ser assaltado, devo entregar minhas coisas sem questionar para evitar algo pior.

Poder andar sem medo da criminalidade é do que mais sinto falta do meu país.

Só me esqueço disso quando saboreio alguma das maravilhosas frutas tropicais que crescem aqui e que na Espanha nem se imagina.

Propaganda continua

Outra coisa que continua a existir é a propaganda.

Por todos os lados há imagens do presidente Hugo Chávez e de seu sucessor, Nicolás Maduro.

Eles aparecem junto aos slogans típicos do socialismo latino-americano, aos quais os venezuelanos, assim como os cubanos tempos atrás, se acostumaram após o triunfo do chavismo.

Os muros descascados que servem de tela para eles parecem uma metáfora da perda de vigor de uma revolução que seduziu as mesmas massas populares em que hoje a decepção cresce.

Na paisagem urbana também se destacam as longas filas daqueles que esperam horas nas portas dos bancos para conseguir sacar dinheiro, uma missão das mais cansativas.

Eles me fazem pensar em algo que ouvi de Jean Paul, um amigo que voltou para a Venezuela depois de alguns anos no Chile: "Os venezuelanos se acostumaram a serem maltratados".

Aposentados são maioria entre eles. Eu também vejo muitas mulheres e outra frase me vem à cabeça.

Essa ouvi do padre Alfredo Infante, do humilde bairro de La Vega, em Caracas: "As mulheres são o elemento mais consistente e fundamental dos bairros venezuelanos".

Como em outros países latino-americanos, em muitos lares dos quais o pai desapareceu são elas que resistem.

Converso agora com algumas delas e me dou conta de que suas prioridades já não são as mesmas.

Em 2008, Shirley, que morava com a filha pequena em um apartamento compartilhado em Petare, um dos maiores subúrbios do continente, me contou que havia decidido gastar suas economias em uma cirurgia estética para aumentar os seios.

O cuidado da mulher venezuelana com a aparência - característica que tem rendido ao país o domínio em concursos mundiais de beleza - passou a ser uma questão em segundo plano no atual estado de necessidade.

Agora, a preocupação é principalmente com os medicamentos de que seus entes queridos precisam.

Me pedem para, por favor, trazê-los das minhas viagens ao exterior.

Eu faço o que posso espremendo ao máximo a bagagem permitida nas companhias aéreas com as quais voo.

Muitos medicamentos são quase impossíveis de encontrar na Venezuela. E quando são encontrados, o preço é proibitivo para o venezuelano médio.

É uma das consequências da hiperinflação, o aumento exorbitante e constante dos preços.

A tendência dos países latino-americanos de sofrer altas taxas de inflação é conhecida, mas a venezuelana chegou a tal extremo que aparecerá nos manuais de história econômica.

Os preços sobem tão rápido que alguns comerciantes já desistiram de exibi-los nos pontos de venda.

Um colega venezuelano que agora mora na Europa e veio recentemente de passagem ao país se surpreendeu ao descobrir que uma barra de chocolate custa o mesmo que o apartamento que vendeu poucos anos atrás.

Também não me esqueço de que uma das últimas coisas que o correspondente anterior da BBC Mundo fez antes de me passar o bastão foi comprar sapatos para uma criança da periferia que tinha parado de frequentar a escola.

O menino estava cansado de ter de fazer o caminho descalço diariamente porque sua mãe não tinha dinheiro.

Maravilhas de um país em convulsão

A Venezuela era e é uma terra tão maravilhosa quanto em convulsão.

Em 2008, pude conhecer a deliciosa Ilha de Margarita, onde conversei com simpatizantes e opositores do chavismo sobre o sempre agitado processo político do país.

Então, a greve do petróleo, a tentativa de golpe de 2002 contra Chávez e a reforma constitucional que promovia inflamavam os ânimos de ambos.

Hoje, está mais fresca a memória dos protestos contra o governo em 2017 e de outras questões da sempre quente agenda política.

O país segue sem encontrar a paz.

Pouco depois da minha recente chegada, fui conhecer outro tesouro do litoral venezuelano, as praias do Parque Nacional Morrocoy, na costa centro-oeste do país.

Se não fosse pelos mosquitos famintos, esse lugar poderia ser confundido com o paraíso.

Enquanto estava ali, dois drones explodiram durante um desfile militar em Caracas, no que as autoridades consideram uma tentativa de assassinar o presidente.

Pouco depois, Maduro mandou uma mensagem ao país pela televisão.

Confirmei com suas palavras o que já havia percebido em 2008 e suspeitava agora ouvindo dirigentes políticos dos dois lados. A Venezuela chavista e a oposição continuam falando línguas diferentes e, claro, sem se entenderem.

Para o chavismo, a oposição é a "extrema direita terrorista" disposta a fazer qualquer coisa para chegar ao poder. Para a oposição, o chavismo é uma "ditadura" que quer se manter a todo custo.

No dia seguinte, enquanto acelerava pelas estradas mal asfaltadas que me trouxeram de volta a Caracas, comecei a entender o aviso que um jornalista local me deu.

"Fique atento, porque aqui acontece muita coisa"...

A onipresente ausência de Chávez

Mas talvez a principal diferença entre a Venezuela que conheci e a que me acolhe agora tenha nome e sobrenome: Hugo Rafael Chávez Frías.

Sem ele, que morreu em 2013, sua revolução sofre.

Em 2008, favorecido pelo alto preço do petróleo bruto, o chamado "comandante eterno" dirigia um movimento de esquerda jovem e sem limites. Seus ambiciosos programas sociais e um carisma que até mesmo seus críticos admitiam o tornavam imensamente popular.

Era tanto dinheiro entrando com a venda de petróleo que Chávez podia dar milhões de barris aos seus aliados na América Latina em uma tentativa declarada de disputar com os Estados Unidos o papel de potência no continente americano.

Naqueles bons e velhos tempos, muitos venezuelanos pagavam férias caras no exterior graças aos dólares baratos que o governo lhes fornecia em condições muito vantajosas, e que depois eles podiam vender muito mais caro no mercado negro.

Eles o chamavam de "dólar turista", um desperdício que muitos agora lamentam.

Chávez é hoje um ausente que está muito presente. Depois de percorrermos juntos o mercado de Catia, outro bairro populoso de Caracas, Josefina, professora universitária, me conta com brilho nos olhos por que o adorava.

"Era um homem muito especial, com muito boa energia e chegou com a mensagem de que tinha que se preocupar com os pobres, os necessitados".

Ela lembra que a primeira vez que o viu atravessando Caracas no carro presidencial, chorou de emoção.

Josefina declara lealdade eterna a Chávez. "Serei chavista até morrer", promete enquanto bebe o refrigerante para o qual a convidei.

Ela o venera tanto que quando parece ter dito algo inapropriado, se benze e pede: "Que Deus e Chávez me perdoem".

Com Maduro, não acontece o mesmo. "Ele é um bom homem, mas não tem a inteligência nem a visão estratégica que Chávez tinha."

De Caracas sem água para Maracaibo sem luz

Os problemas no fornecimento de energia elétrica estão entre as diferenças que me chamaram a atenção. Eu não os experimentei em 2008.

Já em 1958, um jovem correspondente colombiano chamado Gabriel García Márquez informava com maestria sobre as falhas no abastecimento de água de Caracas, um problema endêmico que também sofri pessoalmente.

No meu apartamento, só chegava água durante certo período, à tarde, então, se eu quisesse me dar ao luxo de tomar um banho, tinha de ficar muito atento para abrir a torneira a tempo.

O problema da eletricidade também vem de muito tempo, mas se agravou nos últimos anos.

No estado de Zulia, na fronteira com a Colômbia, para a qual viajei recentemente, virou uma tortura.

Do terraço de um hotel no centro de Maracaibo, contemplei a imagem noturna de uma das cidades mais importantes do país, completamente às escuras.

Há apagões em massa quase todos os dias e os comerciantes do mercado de Las Pulgas, um dos mais populares, me contam que os danos que isso causa aos refrigeradores os levam a perder quilos e quilos de carne.

As pessoas, como sempre aqui, estão à procura de vida. Um morador me explica que toda vez que a luz se apaga em sua casa, ele se muda com a família para alguma das que amigos que emigraram deixaram vazias.

Profissionais de saúde do principal hospital da cidade descrevem com lágrimas a crise que estoura na unidade quando não há energia.

Quando as máquinas de suporte de vida falham, médicos e enfermeiros correm pelos corredores para fazer massagens cardíacas e manobras de respiração nos pacientes que dependem delas.

Mas o esforço não é suficiente para salvar a todos.

Mas isso exemplifica o que, para além do petróleo, sempre foi a principal riqueza deste país único, em 2008 e também agora: a nobreza e generosidade de seu povo.

Esse aspecto não mudou, e quanto mais eu conheço os venezuelanos, mais me convenço de que nunca vai mudar, por mais adversas que sejam as circunstâncias.

A coragem e o bom humor com que enfrentam as dificuldades atuais tocam minha consciência de europeu acostumado a tomar como certas coisas básicas que para eles exigem esforços titânicos.

Sua resiliência à prova de bombas me deixa atônito e estou aprendendo muito com ela.

Nunca imaginei que pessoas que estão passando por tantas dificuldades pudessem rir tanto.

Isso é coragem.

Em 2008, comecei a amar a Venezuela.

Em 2018, continuo amando, mas me dói.

Tomara que eu também possa contar em minhas crônicas como a vi ressurgir.

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