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O que aconteceria se Brasil e Argentina adotassem o Peso Real como moeda única?

Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Argentina, Mauricio Macri, em Buenos Aires - Agustin Marcarian/Reuters
Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Argentina, Mauricio Macri, em Buenos Aires Imagem: Agustin Marcarian/Reuters

André Shalders

Da BBC News Brasil em São Paulo

10/06/2019 14h51

Em visita à Argentina na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) defendeu a criação de uma moeda única para o Brasil e o país comandado por Mauricio Macri: o Peso Real.

A ideia foi discutida por Bolsonaro e pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em um encontro com empresários argentinos em Buenos Aires, na quinta-feira (6). O tema já teria sido tratado também com o ministro da Economia de Macri, Nicolás Dujovne.

"Houve um primeiro passo para o sonho de uma moeda única. Como aconteceu com o euro lá atrás, pode acontecer o Peso Real aqui", disse Bolsonaro a jornalistas, em Buenos Aires.

Ainda na Argentina, Guedes foi cuidadoso ao tratar do tema. Segundo ele, o Peso Real, por enquanto, é somente uma ideia. É "algo que poderia acontecer em um prazo de 20 anos", disse.

A jornalistas, o ministro brasileiro disse defender a criação da moeda única desde os anos 1980. Em artigo publicado em 2010 na revista "Época", ele escreveu que "o aprofundamento da integração econômica latino-americana em direção ao peso-real, a moeda continental, é o passaporte para a modernização institucional de toda a região".

Além de ser um sonho antigo de Guedes, a proposta já foi discutida por políticos brasileiros e argentinos de várias cores ideológicas: em agosto de 2008, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a ex-presidente argentina Cristina Kirchner trataram do assunto.

Na década de 1990, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) discutiu a proposta com Carlos Menem. As primeiras discussões sobre o tema após o fim das ditaduras militares nos dois países começaram ainda nos governos de José Sarney (1985-1990) e Raúl Alfonsin (1983-1989).

Risco de contágio

Economistas consultados pela BBC News Brasil se mostraram céticos com a proposta: o Peso Real é inviável no médio prazo, principalmente por causa das grandes diferenças entre as economias da Argentina e do Brasil. Basta lembrar que a inflação no país vizinho chegou a 47% em 2018, enquanto no Brasil a taxa ficou em 3,75% no ano passado.

No caso da zona do euro, por exemplo, os países envolvidos passaram por um longo processo de ajuste de suas economias antes de a moeda comum começar a circular. Sem um ajuste prévio deste tipo, a inflação argentina "contaminaria" a economia brasileira, segundo a economista e professora do Insper Juliana Inhasz.

Resumidamente, a moeda comum com a Argentina ou com outros países da América do Sul seria algo "para os nossos bisnetos verem", segundo a economista e professora do Instituto de Pós-Graduação em Administração da UFRJ, Margarida Gutierrez.

Em Brasília, o Banco Central divulgou nota na sexta-feira (7) dizendo que a instituição "não tem projetos ou estudos em andamento para uma união monetária com a Argentina. Há tão somente, como natural na relação entre parceiros, diálogos sobre estabilidade macroeconômica, bem como debates acerca de redução de riscos e vulnerabilidades e fortalecimento institucional".

Auxiliares de Guedes também disseram ao jornal Folha de S. Paulo que não há qualquer estudo ou análise sobre o assunto no Ministério da Economia.

A proposta foi criticada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). "Será? Dólar valendo R$ 6? Inflação voltando? Espero que não", escreveu ele no Twitter.

Mesmo assim, o assunto cativou a imaginação do internauta brasileiro. "Cédulas" imaginárias do Peso Real apareceram nas redes sociais - algumas traziam a efígie do ídolo do futebol argentino Diego Maradona; outras, a do jogador brasileiro Ronaldo "Fenômeno" Nazário. O usuário do Twitter @mechamojhon foi ainda mais longe e criou a nota fictícia de 500 "peledonas" - a cédula mistura os rostos de Pelé e de Maradona.

Mas como seria viver sob o sistema do Peso Real? Uma viagem para esquiar em Bariloche ficaria mais acessível? O Brasil passaria a ter surtos inflacionários como a Argentina? O Banco Central brasileiro mandaria na política econômica da economia vizinha? Quem emitiria as cédulas?

Os economistas ouvidos abaixo falaram em tese e considerando experiências de outros lugares, pois até o momento não são conhecidos mais detalhes sobre como seria realmente o funcionamento do Peso Real.

Abaixo, as respostas para cinco perguntas sobre a hipotética moeda única platino-brasileira.

1. Quem emitiria o Peso Real?

A confecção da moeda pode ser feita em mais de um lugar, mas a decisão sobre quanto e quando emitir passaria a ser centralizada.

"É possível que continuassem existindo dois bancos centrais, mas a autoridade monetária teria de ser única", diz o economista Carlos Góes. Ou seja, cada país poderia manter seu banco central, mas o controle da moeda seria feito, em última análise, por uma instituição com poderes sobre os dois países.

Sob a batuta desse "banco central comum", os dois países precisariam ter a mesma meta de inflação e adotar a mesma política monetária, isto é, as mesmas medidas para alcançar a estabilidade nos preços.

"É assim que acontece na Europa. Existe um conselho diretor do Banco Central Europeu, formado pelas autoridades dos bancos centrais nacionais. E essas autoridades, em conjunto, decidem a política monetária. Então, o Banco Central da Espanha, o Banco Central da Grécia, continuam fisicamente imprimindo o dinheiro. Mas a política monetária, a quantidade de dinheiro na economia, é definida de forma conjunta", diz Góes, que atualmente cursa doutorado em economia na Universidade da Califórnia em San Diego (EUA).

É também o que diz Juliana Inhasz. Embora a moeda comum possa ser confeccionada localmente nos dois países, a decisão sobre quanto imprimir e quando passa a ser centralizada, comenta ela. "É como diz o ditado: cachorro que tem muitos donos morre de fome."

2. Qual seria o grau de autonomia dos dois países?

Formalmente, um país não precisaria se submeter às políticas econômicas do outro, mas, na prática, é possível que sofram pressões para seguir determinado rumo.

A política econômica envolve mais coisas que a política monetária --esta última, sim, passaria a ser única. Fora isso, as autoridades de cada país ainda teriam alguns instrumentos à disposição e questões a serem resolvidas "dentro de casa": o Banco Central comum não determinaria diretamente as decisões sobre o orçamento do governo de cada país, por exemplo.

"Na Europa, os países continuam emitindo títulos da dívida [para conseguir dinheiro] e fazendo a própria política fiscal. Em tese, eles agem autonomamente, embora na verdade eles coordenem entre si esse tipo de política", diz Góes.

No começo de junho, por exemplo, a Comissão Europeia recomendou a abertura de um processo contra o governo da Itália por causa do alto nível de endividamento do governo do país --que ultrapassa o nível permitido pelas regras da União Europeia.

No caso brasileiro, a política econômica se baseia no chamado "tripé macroeconômico": meta de superávit primário (o governo tenta gastar menos do que arrecada), câmbio flutuante e meta de inflação. Os dois últimos itens passariam a ser comuns a brasileiros e argentinos, diz Góes.

Já a política fiscal continuaria, em tese, independente --embora na Europa exista grande pressão para os países se adequarem ao que diz o Banco Central Europeu, com sede na cidade alemã de Frankfurt.

Juliana Inhasz diz que, em todo caso, prestar atenção à política interna brasileira passaria a ser muito mais importante para os argentinos, e vice-versa. Acompanhar o resultado das eleições argentinas seria mais importante do que nunca para nós, brasileiros, numa união deste tipo.

3. Quais seriam os potenciais benefícios para os dois países?

Doutora em macroeconomia pela Universidade de São Paulo (USP), Inhasz é cética sobre a proposta de Bolsonaro e Guedes, mas diz que um possível benefício seria ampliar o mercado disponível para os produtos brasileiros.

"Em 2018, a única coisa que salvou a economia brasileira de um fiasco completo foram as exportações. Então, criar uma moeda comum seria interessante para colocar os nossos produtos lá. Seria uma forma de tentar impulsionar a economia brasileira", diz ela.

Carlos Góes explica que há duas vantagens para brasileiros e argentinos: menos risco com o câmbio e menos custos para comprar ou vender algo no país vizinho.

Um empresário brasileiro que faça negócios com os argentinos, por exemplo, sempre corre o risco de perder dinheiro com mudanças bruscas no câmbio. Com uma moeda única, esse risco cambial tende a diminuir.

"A outra questão são os chamados custos de transação. Quando um argentino vem ao Brasil ou vice-versa, a pessoa tem vários custos: para pagar com cartão de crédito, o brasileiro paga IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e outras taxas. Com uma moeda única não há esses custos. Não significa necessariamente que as coisas vão estar nominalmente mais baratas ao cruzar a fronteira. Mas você tem menos custos para acessar os bens e serviços", diz Góes, que é fundador do think-tank liberal Mercado Popular.

4. Quais seriam os riscos e possíveis malefícios envolvidos numa união deste tipo?

"Se essa união monetária acontecesse amanhã", diz Juliana Inhasz, "o principal risco, sem dúvida, seria de termos uma exportação da inflação argentina para o Brasil. A moeda deles também é muito mais desvalorizada frente ao dólar que a nossa. Então, o poder de compra da nova moeda também iria cair, frente ao real", diz.

"Na verdade, olhando a economia deles e a nossa, não fica muita dúvida de quem se beneficiaria com essa história. Estaríamos arriscando a estabilidade econômica conseguida com o real em troca de uma melhora para a situação argentina. São muito poucos os pontos em que o Brasil poderia sair ganhando com essa história, no curto prazo", diz ela.

Carlos Góes lembra que uma moeda única também pode significar um aumento dos preços relativos das mercadorias, especialmente nas economias mais frágeis do bloco --é o que acontece na Europa.

"O custo relativo de bens e serviços em países como Grécia e Portugal acaba sendo maior do que seria [sem a introdução do euro]. Como numa união monetária o principal objetivo é ter uma homogeneidade de preços comum em todo o continente, você acaba tendo também uma certa tendência a elevar os preços de bens, especialmente esses bens que são comercializáveis além das fronteiras", diz ele.

5. O que seria preciso fazer antes de levar a sério a ideia de uma moeda comum?

Margarida Gutierrez, da UFRJ, diz que seriam necessários anos de "discussão e de operacionalização", antes de pensar seriamente numa moeda comum. Ela cita o exemplo da União Europeia: foram décadas de convergência entre os países antes que a moeda comum fosse adotada.

Os governos desses países trabalharam para que suas taxas de câmbio e níveis de inflação se aproximassem de um nível comum antes da introdução do euro. "O ambiente macroeconômico dos dois países precisa ser preparado, não é algo que se possa fazer de supetão", diz.

A professora da UFRJ lembra que o euro começou a circular fisicamente (com cédulas e moedas) em 2002, mas sua origem remonta a 1957, quando foi assinado o Tratado de Roma.

Gutierrez diz que há ainda um problema adicional: o alto nível de "dolarização informal" da economia argentina. Para se proteger da inflação alta, cidadãos criaram o costume de fazer sua poupança doméstica em dólar --algo que não existe no Brasil.

Por aqui, a escolha foi usar uma série de mecanismos de indexação da moeda, ou seja, formas de tentar corrigir automaticamente as perdas causadas pela inflação. Era o caso do "gatilho" salarial, por exemplo. As poupanças domésticas em dólar, inclusive, não são permitidas no Brasil.

Ou seja, um dos países teria de se adequar ao outro: ou os argentinos abrem mão de suas reservas em dólar, ou os brasileiros adotam a prática. Esta última opção não é livre de riscos --um alto nível de poupança em dólar dificulta a condução da política monetária.

"Se 90% da população tem reservas em dólar, tanto faz o governo baixar a taxa básica de juros da moeda local. O impacto na economia é baixo. Este é um dos motivos de ser tão difícil fazer política monetária na Argentina. A taxa de juros tem que subir na estratosfera para ter qualquer efeito", diz Carlos Góes.

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