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Análise: Antes criticado, plano de desvalorização argentino vira sucesso

Daniel Cancel

  • Juan Mabromata/AFP

(Bloomberg) -- Quando Mauricio Macri, logo depois de vencer as eleições presidenciais, em novembro, reiterou sua promessa de abandonar os vários controles cambiais da Argentina quando assumisse, muitos observadores disseram que havia poucas chances de que ele realmente cumprisse a promessa.

Afinal, a decisão tinha o potencial de dar totalmente errado. Permitir a negociação livre do peso equivaleria a uma enorme desvalorização que ameaçava se somar a um aumento inflacionário e gerar protestos dos argentinos, já cansados da economia em queda e do custo de vida alto.

Contudo, Macri fez valer sua palavra, desmantelando as restrições uma semana após a posse. E apesar de a medida ter causado uma desvalorização de 29% do peso em relação ao dólar, o distúrbio social que muitos temiam não se concretizou.

A manobra de Macri também ajudou a reverter a queda nas reservas internacionais da Argentina, que haviam atingido o menor nível em nove anos porque sua antecessora na presidência, Cristina Kirchner, recorria a esses recursos para respaldar o peso.

A reserva em dinheiro do país deu um salto de 6%, para US$ 25,7 bilhões, desde 17 de dezembro, quando Macri eliminou os controles cambiais como parte de um esforço para agilizar as transações econômicas básicas.

Embora os desafios de Macri estejam longe do fim -- a Argentina continua em calote, a desaceleração econômica global está estrangulando a demanda pelas commodities de exportação do país e o Congresso é controlado por partidos de oposição --, os sucessos iniciais do presidente recém-empossado estão ajudando a reforçar a confiança na sua condução da segunda maior economia da América do Sul.

"Eu tenho me surpreendido com a velocidade com que ele está se mexendo", disse Ray Zucaro, diretor de investimento da RVX Asset Management, por telefone, de Aventura, Flórida, nos EUA. "Ele veio e tirou o curativo de uma vez. Há mais notícias positivas pela frente".

Como parte do esforço de Macri para restaurar a confiança dos investidores na Argentina, o secretário de Finanças, Luis Caputo, viajará a Nova York na semana que vem para retomar as negociações com o grupo de credores insatisfeitos liderado pelo bilionário Paul Singer.

Macri, 56, prometeu resolver a disputa judicial de uma década com a Elliott Management de Singer e com outros fundos hedge que mantém a Argentina bloqueada nos mercados internacionais de dívidas desde seu calote recorde em 2001.

Boa parte da agenda de Macri representa uma flexibilização das políticas implementadas por Cristina Kirchner e seu falecido marido e antecessor, Néstor Kirchner. Em julho de 2014, Cristina se recusou a obedecer uma decisão judicial dos EUA que exigia que a Argentina pagasse Elliott e outros credores antes de pagar sua dívida externa. A medida empurrou o país a dar um segundo calote em 13 anos.

Investidores otimistas

O desmantelamento dos controles cambiais por Macri serviu apenas para reforçar ainda mais o otimismo dos investidores na possibilidade de seu governo chegar a um acordo com Singer. Ambos participarão do Fórum Econômico Mundial, em Davos, que começa em 20 de janeiro.

Os rendimentos dos US$ 6,4 bilhões em títulos denominados em dólares da Argentina para 2024 caíram para 7,82% na semana passada, nível mais baixo desde sua emissão no mercado local em maio de 2014.

Contudo, apesar de até agora a desvalorização ter sido ordenada e as reservas terem subido, o governo precisa trabalhar para frear as expectativas salariais e de inflação, disse Sebastian Rondeau, estrategista de câmbio e renda fixa do Bank of America.

Agência de estatísticas

Macri, que tem pela frente duras negociações salariais com sindicatos dos setores público e privado no primeiro trimestre, está realizando uma reformulação da agência nacional de estatísticas após anos de supostas falsas informações de dados econômicos. Com a medida, os indicadores oficiais de inflação estão temporariamente indisponíveis.

Analistas privados estimaram que a inflação anual estava em 25% antes de Macri eliminar os controles cambiais.

"O governo ainda tem coisas a fazer para garantir uma desvalorização real bem-sucedida. Por exemplo, criar um programa de ajuste fiscal e monetário e limitar o repasse para os salários nas próximas negociações", disse Rondeau em um relatório no dia 5 de janeiro.

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