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Opinião: Juros negativos têm muito pouco de positivo

Noah Smith

(Bloomberg) -- Meu orientador do doutorado, Miles Kimball, recentemente dirigiu palavras muito gentis a mim em seu blog, Confessions of a Supply-Side Liberal. Segundo Miles, minhas visões sobre a maior parte dos assuntos são muito similares às dele. Por isso, no espírito de um debate amigável, pensei em tentar destacar uma das poucas áreas sobre as quais divergimos -- a ideia das taxas de juros muito negativas.

As taxas de juros negativas são um fenômeno novo e estão se propagando. O Japão é o líder, com os yields dos títulos soberanos de 10 anos agora em território negativo. Os bunds alemães de cinco anos estão lá também.

As taxas de juros baixas são pensadas para ajudar a economia ao estimular o consumo e os investimentos. O consumo aumenta, em tese, porque quando as taxas de juros estão baixas as pessoas têm menos incentivos para economizar para o futuro, por isso gastam mais hoje. Os investimentos sobem porque as empresas podem tomar empréstimos mais baratos para financiar a expansão de seus negócios. Segundo uma teoria macroeconômica novo-keynesiana -- que Miles ajudou a desenvolver --, os juros negativos podem aliviar a falta de demanda sem a necessidade de estímulos fiscais.

Miles é um defensor incansável das taxas de juros negativas. Uma das principais barreiras da política é o fato de ser naturalmente muito difícil para os bancos centrais colocar os juros no território negativo -- as pessoas podem preferir guardar dinheiro, que naturalmente tem taxa de juros zero, ou podem economizar a uma taxa de juros zero pagando suas contas antecipadamente. Portanto, Miles defende o dinheiro eletrônico e a aplicação de um imposto sobre o dinheiro para evitar que as pessoas driblem os juros negativos usando papel-moeda. Presume-se que, sem nenhuma forma de guardar dinheiro, as pessoas não teriam escolha e sairiam para gastar, gastar, gastar.

Miles está longe de ser o único a propor essa política. Meu colega de Bloomberg View Narayana Kocherlakota argumenta que os juros negativos convencerão a população de que um banco central está disposto a tomar uma medida imediata e drástica para movimentar a economia. Essa credibilidade, então, se transformará em uma profecia autorrealizável, levando empresas e consumidores a ampliarem a atividade econômica devido à crença no poder do banco central.

A política tem seus críticos. Tony Yates, da Universidade de Birmingham, teme que uma medida sem precedentes como o dinheiro eletrônico poderia prejudicar a credibilidade do banco central e, assim, tornar a política monetária menos efetiva a longo prazo. Uma crítica mais veemente veio do lendário economista Joseph Stiglitz, que aponta uma série de problemas na ideia:

"As taxas de juros negativas prejudicam os balanços dos bancos. O 'efeito riqueza' sobre os bancos esmaga o pequeno aumento nos incentivos para emprestar... Há mais três problemas. Primeiro, as taxas de juros baixas encorajam as empresas a investir em tecnologias com uso intensivo de capital, resultando na queda da demanda por mão de obra a longo prazo, mesmo com o declínio do desemprego a curto prazo. Segundo, as pessoas mais idosas que dependem da renda dos juros são mais prejudicadas e reduzem seu consumo mais profundamente que aquelas que se beneficiam - ricos proprietários de ações -- e aumentam seu consumo, e isso debilita a demanda agregada hoje. Terceiro, a talvez irracional, mas amplamente documentada, busca por rendimentos significa que muitos investidores mudarão seus portfólios para ativos de maior risco, expondo a economia a uma instabilidade financeira maior".

Miles respondeu longamente a estas críticas e você pode analisar o complexo e multifacetado debate por própria conta. Mas eu tenho outra crítica mais geral à política dos juros negativos.

Muitos proponentes acreditam que os juros teriam que estar muito abaixo de zero para provocarem um grande efeito de estímulo. O mergulho raso no território negativo observado atualmente na Europa e no Japão não gerou muitos efeitos sobre a atividade econômica. Mas as taxas de juros profundamente negativas são algo que nunca aconteceu antes. Em particular, os modelos novo-keynesianos que estão sendo usados para guiar a política foram desenvolvidos -- e testados -- em uma era na qual os juros estavam confortavelmente positivos.

Mas fora do reino dos modelos conhecidos, os juros negativos introduzem riscos. Pesquisas já mostraram que os modelos macroeconômicos tendem a falhar fora de circunstâncias normais e os juros super negativos certamente se qualificam como anormais.

Na verdade, os modelos usados como padrão podem já ter falhado. A taxa de juros zero não conseguiu incentivar o nível de expansão do consumo e dos investimentos que poderíamos ter esperado. As empresas estão guardando seu dinheiro. As taxas de economia subiram em vez de caírem. É possível que isso ocorra devido, simplesmente, a um choque negativo muito longo e persistente à demanda, mas é possível também que simplesmente não estejamos em um mundo novo-keynesiano no momento. Talvez alguma outra teoria, como o modelo de troca de regime de Roger Farmer, um modelo novo-fisheriano ou um modelo financeiro macro, esteja em vigor.

Se o mundo não está no confortável e conhecido território novo-keynesiano, então as políticas desenvolvidas para se encaixarem em um modelo novo-keynesiano correm o risco de sair pela culatra. Se o neo-fisherismo estiver certo, as taxas de juros muito negativas causam uma deflação prejudicial. Se os atritos financeiros atualmente são a força motriz do ciclo dos negócios, as taxas de juros negativas poderiam prejudicar os bancos, como Stiglitz e outros têm insinuado.

Isto sugere que os bancos centrais deveriam ser cautelosos em relação aos juros negativos. Outras políticas, como as metas de inflação mais elevadas, poderiam nos manter em um território mais familiar, por isso talvez devêssemos tentá-las primeiro. Não estou dizendo que as taxas de juros muito negativas sejam definitivamente ruins, mas, devido à dúvida em torno delas, deveriam ser aplicadas apenas em emergências financeiras. E as economias mais desenvolvidas do mundo já não estão em uma emergência.

Por isso, embora Miles seja um pensador importante e visionário em termos de política monetária e suas ideias sejam muito úteis para o caso da chegada de outra crise, pessoalmente mantenho um pouco de cautela em relação ao emprego delas em épocas de relativa normalidade.

Essa coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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