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Análise: Quer dica sobre a China? Informação privilegiada funciona

Christopher Langner

(Bloomberg) -- Quando o assunto é a China é difícil entender os negócios de uma empresa em profundidade sem uma conexão pessoal com gestores e proprietários. Esta é uma afirmação que se aplica a quase todo o mercado emergente e que os investidores geralmente aceitam como o preço de operar em ambientes menos transparentes e baseados em regras.

Uma afirmação tão óbvia dificilmente pode ser vista como merecedora de uma prova acadêmica, mas agora um grupo de pesquisadores tentou fazer uma quantificação. O mais surpreendente é que eles concluíram que essa disseminação de informação seletiva e limitada pode, na verdade, ser boa para as empresas e para o mercado.

As palavras "disseminação limitada" imediatamente fazem lembrar as informações privilegiadas e é sobre isso que estaríamos falando nos EUA. Mas no caso da China -- ou da Índia, do Peru e até mesmo da África do Sul, neste caso -- as coisas não são tão definidas.

Pelo menos é isso que Zengquan Li, da Universidade de Finanças e Economia de Xangai, T.J. Wong, da Universidade Chinesa de Hong Kong, e Gwen Yu, da Faculdade de Negócios de Harvard, afirmam em um artigo acadêmico publicado em abril. Nas palavras deles:

As empresas dos mercados emergentes "enfrentam um dilema no qual a transparência maior pode levar a um custo menor de capital, mas à custa de revelar informações exclusivas sobre suas práticas comerciais relacionais".

Tradução: as empresas poderiam conseguir capital mais barato se dissessem a todos como conseguiram o contrato para construir aquele estádio, mas se o fizessem poderiam ser deixadas de lado em futuros negócios.

Em vez disso, elas contam a alguns analistas de confiança, que passam a informação ao seu círculo de investidores, e a informação gradualmente percorre seu caminho no mercado. Sim, aqueles que a ouviram primeiro provavelmente ganharam dinheiro, mas o importante é que todos em algum momento saibam algo que não saberiam de outra forma. Afinal, uma divulgação imperfeita é melhor do que nenhuma.

Por que isto parece errado? Porque é. Um campo de jogo enviesado causa uma incerteza maior, um risco maior e, em última análise, um custo maior de capital. Quem tem informação privilegiada colhe os benefícios, enquanto o mercado e a economia como um todo pagam o preço.

Wong, um dos autores do artigo, admite que o ideal seria que todos recebessem a informação ao mesmo tempo, algo que até mesmo os órgãos reguladores dos EUA têm dificuldades de aplicar.

Uma meta assim pode ser impraticável em ambientes como a China, onde os ambientes jurídico e regulatório são mais obscuros e onde as conexões pessoais, ou "guanxi", consequentemente têm um papel maior na lubrificação das engrenagens do comércio.

Injustiça à parte, se você está investindo em uma dessas empresas, você quer saber se elas têm guanxi para conseguirem aprovação para seus planos e projetos.

A empresa dificilmente poderá incluir uma nota em seu relatório anual afirmando que "no curso dos últimos 12 meses conseguimos uma conexão importante com um órgão regulador sênior que garantirá o avanço dos nossos projetos até a aprovação".

A revelação seletiva para analistas de confiança permite que a informação seja disseminada, de forma codificada, por meio de relatórios publicados sem ameaçar a empresa ou suas conexões.

Examinando dados de 2.460 empresas e 6.099 analistas de 2005 a 2014, os pesquisadores descobriram que quando uma empresa é acompanhada por analistas mais "conectados", a projeção de consenso de todos os analistas se torna mais precisa.

É improvável que um combate mais duro ao uso de informação privilegiada seja efetivo porque o problema não é tanto quem recebe a informação, mas sim o que Wong chama de "contratação baseada em relacionamento", uma tradição cultural muito mais profunda que as normas do mercado de ações.

Enquanto as empresas ainda necessitarem de conexões para fazer negócios nesses países, os investidores continuarão precisando dessas relações para vislumbrar o cenário completo. Aqueles que não gostarem disso simplesmente vão ter que se manter longe.

Essa coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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