Análise: Conciliar contradições de dados do PIB dos EUA

Mohamed El-Erian

(Bloomberg) -- Os dados do produto interno bruto dos EUA relativos ao segundo trimestre, publicados na sexta-feira, tiveram algo para todos. Os otimistas puderam reconfortar-se com o crescimento robusto do consumo familiar. Os pessimistas temeram a lentidão do investimento empresarial e os estoques crescentes. E, se você está preocupado com o que vem pela frente para a potência econômica mundial, você tentaria descobrir como reconciliar essas tendências divergentes.

Os gastos do consumo familiar aumentaram impressionantes 4,2 por cento no segundo trimestre de 2016, estimulados (em ordem de importância) pela sólida geração de empregos nos últimos anos, pela maior facilidade para obter crédito, pelo crescimento salarial um pouco mais forte e pelo aumento do patrimônio financeiro e imobiliário. E, embora o consumo seja equivalente a uma parte significativa da economia, esses números robustos não foram suficientes para compensar uma decepção notável com o número final do PIB. De modo geral, o crescimento econômico registrou uma taxa anual de 1,2 por cento, muito abaixo das expectativas do consenso, de cerca de 2 por cento. Isso foi ainda mais decepcionante porque se esperava que os dados do segundo trimestre mostrariam um salto em relação ao crescimento muito fraco, de 0,8 por cento, do primeiro trimestre.

Os fatores mais importantes que contribuíram para a fraqueza do PIB, e os componentes dos dados que deveriam receber muita atenção, são os sinais de lentidão no comportamento corporativo. No segundo trimestre as empresas não apenas registraram investimentos decepcionantes em novos equipamentos e fábricas, mas houve também um aumento notável dos estoques, o que pode funcionar como um excedente que poderia desestimular a produção no futuro.

É provável que a preocupação com a demanda preliminar no resto do mundo tenha travado os planos de negócios das empresas dos EUA. Os temores relativos à lentidão incomum e persistente da produtividade também podem ter sido um fator, mas esses indicadores estão longe de serem sólidos. E alguns setores, como o de energia, foram particularmente afetados pela queda dos preços internacionais de seus produtos.

Duas divergências notáveis e persistentes na economia dos EUA se manifestaram novamente no segundo trimestre deste ano: entre o comportamento das empresas e o das famílias e entre os riscos econômicos e financeiros assumidos.

Os setores familiar e empresarial estão estreitamente ligados, especialmente em uma economia do tamanho da dos EUA. Afinal, as empresas americanas fornecem a maioria dos empregos para os americanos; e os consumidores americanos são grandes compradores dos bens e serviços que essas empresas produzem. No entanto, o consumo está animado e o investimento está sofrendo, e isso apesar das taxas de juros excepcionalmente baixas.

Parte dessa inconsistência tem a ver com a distribuição dos lucros recorde das empresas produzidos por essa relação simbiótica. Em vez de direcionar uma parte suficiente desses resultados novamente para a atividade econômica e para um potencial maior no futuro, as empresas estão com depósitos bancários paralisados ou usando o dinheiro para engenharia financeira, para recomprar ações e para pagar dividendos maiores.

Este também é um dos motivos de o mercado acionário dos EUA estar se saindo tão bem e ter registrado recordes históricos neste mês. Isso indica um apetite saudável pelo risco financeiro, que contrasta fortemente com a inclinação mais leve das companhias a assumirem riscos empresariais.

Existe um limite para a persistência dessas divergências, especialmente no longo prazo. Também existe o risco de que essas tendências possam acabar se harmonizando de maneira pouco feliz. Entre os possíveis resultados, o comportamento das famílias poderia convergir para baixo para equiparar-se à abordagem corporativa menos animada, em vez do contrário; ou assumir menos riscos financeiros, o que poderia provocar uma queda forte e desordenada nos mercados, o que, por sua vez, travaria ainda mais o investimento corporativo (ao invés de uma recuperação no investimento que promoveria um grande crescimento inclusivo e validaria os preços de ativos artificialmente altos).

Uma maneira de frear esse risco é resolver outra das razões do crescimento decepcionante do PIB no segundo trimestre: o papel contraditório dos gastos do governo.

Em vez de contribuir para uma administração mais eficaz da demanda, a redução das despesas governamentais exerceu uma pressão ainda maior sobre as medidas experimentais de estímulo monetário, que já estavam sobrecarregadas. E em vez de atrair uma grande quantidade de investimento privado, o gasto insuficiente em infraestrutura está ameaçando o potencial de crescimento dos EUA.

Um programa de infraestrutura bem elaborado a favor do crescimento poderia ter os benefícios de compensar a lentidão do crescimento atual e futuro do PIB. Ele pode ser financiado eficientemente com as taxas de juros excepcionalmente baixas atuais. E contribuiria tanto para o bem-estar social quanto para a produtividade do setor privado.

Um programa assim ajudaria a conciliar as inconsistências que foram destacadas pelo relatório do PIB e que deveriam ser preocupações prioritárias dos políticos americanos. E, para que essas questões sejam devidamente resolvidas, o programa de infraestrutura precisaria ser parte de uma iniciativa maior, que inclua uma abordagem abrangente de gestão da demanda com um amplo leque de reformas estruturais em prol do crescimento, para eliminar áreas de endividamento excessivo e melhorar a coordenação das políticas econômicas regionais e mundiais.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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