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BOE evita caminho 'errado' de BCs sobre juros negativos

Jeff Black e Jillian Ward

(Bloomberg) -- Mark Carney viu o caminho seguido pela maioria dos pares mais aventureiros - ou desesperados - e decidiu que não era para ele.

Apesar de ter apresentado um pacote de estímulo que visa evitar uma depressão pós-Brexit no Reino Unido na quinta-feira, o presidente do Banco da Inglaterra (BOE, na sigla em inglês) também traçou uma linha que divide o mundo entre as jurisdições monetárias que querem reduzir as taxas de juros para valores negativos e aquelas que não querem.

"O que nós vimos em outros países é, para sermos honestos, que eles entenderam isso um pouco mal", disse Carney em entrevista na LBC Radio nesta sexta-feira, um dia depois que o BOE diminuiu sua taxa básica para 0,25 por cento e impulsionou a flexibilização quantitativa. "Aliás, em algumas jurisdições, os bancos aumentaram de fato o custo do crédito para hipotecas, por exemplo".

Como Carney também é presidente do Conselho de Estabilidade Financeira global, essa poderia ser a acusação mais forte já feita à prática experimental, mais de dois anos depois de o Banco Central Europeu ter se transformado no primeiro banco central de importância a implementá-la. Os presidentes do BCE, Mario Draghi, e do Banco do Japão (BOJ, na sigla em inglês), Haruhiko Kuroda, insistem que taxas negativas funcionam, ao passo que agora Carney está firmemente do lado da presidente do Federal Reserve (Fed) dos EUA, Janet Yellen, e diz que a política não é para eles.

'Consequências negativas'

Na quinta-feira, Carney disse que taxas abaixo de zero em outros países têm tido "consequências negativas" para o sistema financeiro e os poupadores. O Royal Bank of Scotland Group disse nesta sexta-feira que a nova redução de taxas do BOE ameaçava minar a rentabilidade ao apertar ainda mais sua margem líquida de juros, a diferença entre a renda obtida com empréstimos e os custos do crédito.

Embora seja verdade que o Reino Unido depende menos dos bancos do que a zona do euro, de 19 países, ou o Japão - fato que dá a Carney mais motivos para acreditar que cobrar dos bancos por guardar recursos no banco central não funcionaria tão bem como estimulante -, talvez a tendência global esteja se virando contra as taxas negativas de qualquer maneira.

Em janeiro, quando o BOJ fez a primeira redução para abaixo de zero, Kuroda foi duramente criticado em seu país e no exterior. De qualquer modo, a medida teve resultado contrário porque o iene subiu muito após o anúncio. A reação também destaca a segunda e ainda mais polêmica função das taxas negativas - a ideia de que elas poderiam ser usadas para desvalorizar moedas em uma tentativa disfarçada de aumentar a competitividade à custa de outros países.

'O presidente está errado'

Contudo, apesar de Carney ter sido firme em sua recusa, ele poderia se arrepender dessa postura se as coisas não saírem tão bem quanto suas projeções sugerem, segundo Adam Posen, ex-autoridade do BOE e presidente do Peterson Institute for International Economics.

"Acredito que o presidente está errado em descartá-las", disse Posen em entrevista à Bloomberg TV. "A política monetária sempre tem o aspecto do que irá ser feito depois", disse ele. "Operacionalmente, foi a decisão errada".

"Nós vimos em outras jurisdições, entendemos a dinâmica disso", disse Carney na quinta-feira. "Não pretendemos passar para taxas de juros negativas. Pelo menos eu não pretendo passar para taxas de juros negativas".

 

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