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China controla yuan com rigidez, longe da flutuação livre

Bloomberg News

(Bloomberg) -- Muito chão para correr e promessas a cumprir.

As palavras soam verdadeiras para as reformas cambiais da China, porque todos os economistas, estrategistas e analistas entrevistados pela Bloomberg consideram que o yuan não está nem perto de ser completamente conversível, embora esteja se preparando para entrar na cesta de moedas de reserva do FMI no dia 1º de outubro. Uma flutuação verdadeiramente livre está a uma década de distância, disse o principal analista do yuan, e o JPMorgan produziu uma lista de pendências que inclui a necessidade de aliviar os controles de capital e reduzir a intervenção.

"Se uma flutuação completamente livre é sinônimo de uma moeda completamente conversível, sem restrições de capital nem intervenções cambiais, não vejo que isso acontecerá nos próximos cinco a dez anos", disse Bjarke Roed-Frederiksen, economista em Copenhague do Svenska Handelsbanken, analista mais exato do yuan conforme monitoramentos feitos pela Bloomberg nos últimos quatro trimestres.

Embora o Fundo Monetário Internacional tenha decidido em novembro passado que o yuan tinha uma liberdade de uso suficiente para se tornar uma moeda de reserva mundial, o banco central da China exerce um controle estrito mesmo quando promete aumentar o papel do mercado. A autoridade restringe as movimentações do yuan onshore usando uma taxa de referência diária e há suspeitas de que interfere nesse mecanismo quando as movimentações não combinam com suas metas. Também foi vista controlando a desvalorização frente às moedas de seus parceiros comerciais para tentar ajudar as exportações.

A seguir, um panorama dos obstáculos que, segundo analistas do mercado, precisam ser superados para que o yuan possa ser considerado uma verdadeira moeda de reserva.

Limite de negociação

O PROBLEMA: A fixação diária frente ao dólar definida pelo Banco Popular da China (PBOC, na sigla em inglês) limita as oscilações do yuan a 2 por cento para cima ou para baixo, o que dá ao banco central -- e não ao mercado -- o controle geral. O banco central também define as taxas de referência frente a outras moedas, como o euro, o dólar australiano e a libra.

O CAMINHO A SEGUIR: Yu Yongding, ex-membro acadêmico do comitê de política monetária do PBOC, diz que as autoridades precisam treinar o mercado a tolerar flutuações maiores. O banco central pode adiar uma intervenção e, ao mesmo tempo, permitir um grau não revelado de oscilações frente a uma cesta de moedas, disse ele.

"A China vai levar de três a cinco anos para ampliar a faixa diária do yuan e o horário de negociação antes de reduzir gradualmente o papel da fixação", disse He Xin, chefe de trading para a China do Société Générale. "A China deveria permitir que as forças do mercado tenham um papel cada vez mais importante na decisão da taxa de referência diária".

Medo de intervenção

O PROBLEMA: Apesar das recorrentes promessas de uma taxa de câmbio mais livre, desconfia-se que as autoridades tenham intensificado a intervenção desde que desvalorizaram a moeda em 11 de agosto do ano passado. O PBOC alimentou a especulação de que estaria respaldando o yuan no mês passado, quando estabeleceu uma série de taxas de referência mais fortes depois que a moeda caiu mais de 6,7 por dólar pela primeira vez desde 2010. A queda de 6 por cento do yuan frente a um índice de 13 moedas neste ano também atiçou especulações de que o banco central está conduzindo um enfraquecimento ponderado para ajudar a reanimar as exportações. O yuan onshore caiu 0,1 por cento na sexta-feira, para 6,6457, porque os dados sobre produção industrial, vendas varejistas e investimento ficaram abaixo das estimativas.

O CAMINHO A SEGUIR: Pouca mudança, por enquanto. Talvez as intervenções diminuam em tamanho e frequência, mas vão continuar existindo e não apenas para suavizar a volatilidade, disse Roed-Frederiksen. As autoridades chinesas têm um longo histórico de interferir nos mercados. Quando as ações locais sofreram uma queda de US$ 5 trilhões no ano passado, fundos vinculados ao Estado entraram em ação para respaldar o mercado, mas os preços das ações atingiram pisos ainda mais baixos no começo de 2016.

"Acreditamos que a livre flutuação do yuan está longe de acontecer", disse Brad Gibson, gestor de fundo em Hong Kong da AllianceBernstein, cujo fundo AB RMB Income Plus Portfolio deu retorno de 16 por cento neste ano e superou 97 por cento de seus pares. "Este é um acontecimento mais de médio prazo, e devemos desconfiar de uma mão muito pesada das autoridades chinesas no mercado cambial enquanto atravessamos esta etapa".

Restrições de capital

O PROBLEMA: Como os fluxos de saída aumentaram para estimado US$ 1 trilhão em 2015, a China reagiu com firmeza. O país intensificou a análise de transações transfronteiriças e congelou as quotas de um programa que possibilita que indivíduos façam investimentos no exterior. Mas o país não parece ter problemas quando o dinheiro está entrando, e entidades ligadas ao governo captam recursos no exterior e levam o dinheiro para casa.

O CAMINHO A SEGUIR: Embora o mais recente plano quinquenal do Partido Comunista proponha aumentar a conversibilidade do yuan organizadamente, o avanço tem sido lento. A abordagem de "permitir a entrada e impedir a saída" não contribuiu com os esforços de internacionalizar o yuan, e a fatia de pagamentos globais do yuan em junho foi a menor em dois anos, 1,72 por cento. Na quinta-feira, o PBOC indicou que está programando medidas para abordar este problema ao dizer que pretende aumentar o uso transfronteiriço em conta-corrente e simplificar que entidades estrangeiras emitam dívida em yuan no mercado interbancário onshore.

"Uma verdadeira moeda de reserva precisa ter fluxos transfronteiriços livres, e uma ampla gama de produtos derivativos é essencial para que os investidores estrangeiros façam cobertura", disse Haibin Zhu, economista-chefe para a China do JPMorgan em Hong Kong. "O PBOC precisa oferecer mais produtos cambiais, como swaps, e aumentar a liquidez do mercado expandindo o mercado de títulos".

Ações e títulos

O PROBLEMA: A inclusão de ações e títulos chineses nos indicadores internacionais contribui em muito para aumentar a utilização do yuan. Em junho, o MSCI negou às ações locais a entrada em seus índices de referência, mencionando que o limite mensal de repatriação de 20 por cento é um "obstáculo significativo" para os investidores. Embora as autoridades econômicas tenham concedido aos fundos internacionais um maior acesso ao mercado interbancário onshore de dívida, de US$ 6,4 trilhões, os investidores destacam restrições como a proibição do trading cambial onshore, as leis tributárias pouco claras e os limites à repatriação dos lucros.

O CAMINHO A SEGUIR: O país está tomando medidas para abrir seus mercados, e os resultados são notáveis. O yield do título de referência com vencimento em dez anos despencou para 2,69 por cento, o mais baixo desde 2009, depois que investidores estrangeiros aumentaram seus ativos em títulos onshore em junho em 47,7 bilhões de yuans (US$ 7,2 bilhões) para 764 bilhões de yuans. As autoridades chinesas permitiram desde fevereiro que todos os tipos de investidores de médio a longo prazo tenham acesso ao mercado interbancário de títulos e disseram que os gestores de fundos aprovados pelo programa de Investidores Institucionais Estrangeiros Qualificados já não precisarão se inscrever para quotas de investimento onshore.

"Como os yields dos títulos dos países mais avançados estão muito baixos ou perto de zero, os mercados de títulos chineses oferecem crescimento significativo do yield e, dependendo das reformas, poderiam oferecer uma liquidez muito boa", disse Rajeev De Mello, que administra cerca de US$ 10 bilhões como chefe de renda fixa na Ásia da Schroder Investment em Cingapura. "Algumas poucas medidas ainda precisam ser resolvidas, como a cobertura cambial onshore para os investidores em títulos".

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