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Análise: A bolha de tecnologia financeira não parece uma bolha

Lionel Laurent

(Bloomberg) -- Se você não pode superá-los, compre-os. Os bancos europeus estão adquirindo startups de tecnologia financeira craques em mobilidade, em vez de investir no desenvolvimento dessas capacidades por conta própria.

Diante da longa lista de startups vendidas por valores astronômicos e que depois desmoronaram (um exemplo: a compra do Tumblr pelo Yahoo!, por US$ 1 bilhão), é normal ficar nervoso ao imaginar onde tudo isso pode parar.

Especialmente considerando o histórico dos bancos de aquisições destruidoras de valor. Quem se lembra da aquisição recorde do ABN Amro pelo RBS meses antes da crise financeira de 2008?

Depois de quase dez anos e bilhões em perdas, os acionistas estão pressionando para que qualquer dinheiro excedente volte para eles -- e não seja reinvestido.

Mas o segmento de tecnologia financeira está longe de ter seu próprio momento de glória seguido de dor, como no caso do Tumblr. O poder ainda é maior do lado do comprador -- mesmo que os valores envolvidos acabem se provando otimistas demais.

Eis o motivo: nenhum dos bancos móveis que estão sendo adquiridos conquistou tantos adeptos quanto as startups de outros setores.

Quando o Yahoo! comprou o Tumblr, o site de blogues tinha 300 milhões de visitas por mês. A loja virtual Jet.com -- recentemente comprada pela Wal-Mart por US$ 3 bilhões -- tem 3,6 milhões de clientes. Compare com o banco móvel Fidor, adquirido pelo banco francês BPCE. Ele tem 120.000 titulares de conta. Quando o BBVA comprou o Simple por US$ 117 milhões em 2014, o aplicativo americano tinha cerca de 100.000 clientes.

A tecnologia está lá, mas a pressão de pagar um prêmio por um concorrente que poderia simplesmente acabar com sua base de clientes não existe.

Isso pode mudar se bancos recém-criados, como Mondo, Atom ou Number26, conseguirem descobrir a estratégia ou o produto certo. Na Europa, o Fidor provavelmente é quem está mais perto desse ponto, após ter chegado a um acordo de fornecimento de serviços de pagamento para a Telefónica, que tem 43 milhões de clientes na Alemanha.

Mas absorver depósitos continua sendo caro e a concessão de empréstimos requer capital.

Como rivais estabelecidos se beneficiam de extensas redes de agências, dados de clientes e uma posição de vantagem em termos de regulamentação, é mais difícil um novato conquistar adeptos no ramo de bancos do que de blogues. Frequentemente, os microbancos tiveram que fazer parcerias com bancos consolidados ao invés de competir diretamente contra eles.

Isso não significa que as compras recentes de bancos móveis sejam um desatino -- muito pelo contrário.

O acordo do Fidor possibilitará que o francês BPCE amplie suas operações digitais e conte com especialistas que poderão se dedicar a outros produtos e ideias. A própria tecnologia do Fidor pode ajudar internamente, mas também pode ser licenciada a terceiros. Existe potencial de crescimento aí.

E, para os bancos, os valores desembolsados até agora parecem modestos.

Na melhor das hipóteses, as ações dos bancos europeus são negociadas por cerca de cinco vezes a receita. Este múltiplo aplicado ao Fidor gera uma avaliação de aproximadamente 130 milhões de euros, com base no ganho líquido com intermediação financeira de 26 milhões de euros em 2015.

Diante do ganho líquido com intermediação financeira de 1,7 bilhão de euros do BPCE no primeiro semestre de 2016, trata-se de uma aposta pequena.

Existe também a probabilidade de que as startups fiquem ainda mais baratas.

O mercado de aberturas de capital continua medíocre (fenômeno ressaltado por minha colega Shira Ovide) e se esvaziaram até certo ponto as expectativas infladas para empresas de tecnologia financeira listadas em bolsa.

As ações do LendingClub, queridinho do peer-to-peer, despencaram depois da abertura de capital porque a empresa revelou falhas nos controles internos. O financiamento com capital de risco para o segmento de tecnologia financeira caiu pela metade no segundo trimestre, para US$ 2,5 bilhões, de acordo com a CBInsights.

Se este é o auge da bolha de tecnologia financeira, com certeza esta é uma boa notícia para os bancos que buscam ideias novas e baratas.

(Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.)

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