Análise: Sofrimento do alumínio dos EUA não é culpa da China

David Fickling

(Bloomberg) -- Há uma história simples para explicar porquê o alumínio dos EUA está sofrendo.

Concorrentes chineses vêm valendo-se dos subsídios do governo para prejudicar os rivais. Se o alumínio fosse negociado em um mercado livre, em vez do distorcido pelas políticas econômicas estatizantes de Pequim, as fundições dos EUA estariam bem.

As tarifas sugeridas para os produtos chineses -- um possível resultado de uma investigação realizada pelo governo dos EUA sobre o comércio mundial -- não são protecionismo, apenas um nivelamento do campo de jogo.

Essa ideia é reconfortante em um momento em que a produção norte-americana de alumínio primário está nos níveis mais baixos desde 1983. Mas a realidade é mais cruel: a China não está ganhando graças a um apoio estatal injusto, mas porque tem fábricas melhores e pode produzir o metal com custos mais baixos.

O alumínio, para citar um velho clichê do setor, é basicamente eletricidade em estado sólido. A matéria-prima das fundições é a alumina, a mesma substância quase indestrutível que compõe rubis e safiras.

Para transformá-la em metal dúctil, é necessário fundi-la sob grandes correntes elétricas em linhas de células de eletrodos. A fundição Jebel Ali em Dubai, uma das maiores do mundo, é capaz de gerar cerca de 2,35 milhões de quilowatts de eletricidade, quase a mesma capacidade de todo o Líbano.

Como a eletricidade forma de um quinto à metade do custo do alumínio bruto, o preço e a eficiência de uma fábrica em utilizá-la costumam ser os principais fatores que fazem a diferença entre lucro e prejuízo. A China está muito à frente em ambos.

Apenas 8% da eletricidade utilizada pelas fundições norte-americanas no ano passado foram geradas por centrais elétricas pertencentes à própria fábrica, contra 85 por cento na China.

Essa energia cativa costuma ser mais barata que a da rede de energia, porque os consumidores não pagam uma margem à geradora nem enfrentam custos mais elevados se a demanda de outros usuários aumentar. As produtoras chinesas com energia cativa pagam apenas 0,2 yuan (US$ 0,03) por quilowatt/hora, contra 0,5 yuan por energia da rede, segundo Yi Zhu, analista da Bloomberg Intelligence.

A situação é similar em relação à fonte de energia. Cerca de três quartos das fundições da América do Norte obtêm eletricidade de energia hidrelétrica, que tende a ter preços bastante estáveis e, no mínimo, vem elevando custos nos últimos anos.

Na China, a maioria das fundições utiliza carvão -- e, embora os preços do transporte marítimo dessa commodity venham subindo nos últimos 12 meses, nas províncias continentais onde estão muitas fundições, eles continuam baixos.

As fundições chinesas aproveitaram ao máximo esta situação, extraindo preços com desconto de geradoras em algumas das províncias do norte e do ocidente, onde dependem mais da rede elétrica, de acordo com a consultoria de metais CRU.

Se esses acordos parecem subsídios que prejudicam a concorrência, vale lembrar que as fundições dos EUA conseguiram obter acordos semelhantes, como a instalação Massena West, da Alcoa, no estado de Nova York.

s fundições costumam ser os maiores consumidores das redes elétricas locais, então o subsídio injusto de uma se parece muito com o preço comercial preferencial de outra.

O problema mais contundente para as fundições dos EUA tem a ver com a tecnologia que elas usam. Quanto maior for a corrente que se pode canalizar pelo eletrodo de fundição, é provável que menores serão os custos de energia por quilo de metal produzido.

Todas as fundições dos EUA utilizam tecnologia antiga que opera a menos de 300 quiloamperes, segundo a AME Group, em comparação com 23% na China.

Cerca de dois terços delas nos EUA são ainda mais antiquadas e operam a menos de 200 quiloamperes, contra 4% na China. Pelo menos metade do setor chinês utiliza a mais nova tecnologia, de 400 quiloamperes ou mais, em contraste com 4% no restante do mundo.

Nada disso é para insinuar que o setor de alumínio da China seja completamente inocente. O jornal The Wall Street Journal documentou no mês passado a que ponto a maior produtora chinesa de peças de alumínio extrudado, a China Zhongwang, teria chegado em suas tentativas de escapar dos controles de importação dos EUA. A Chalco, segunda maior produtora do país, pertence ao Estado e, na China, a linha entre a posse estatal e privada pode ser permeável.

Mesmo assim, quem pede novas tarifas para excluir o metal chinês dos EUA é malicioso ao insinuar que está agindo em defesa do livre comércio. Os mesmos fatores que prejudicam as fundições dos EUA afetam também a Chalco e ajudam sua rival privada China Hongqiao, que é mais eficiente, a prosperar.

O que está matando o alumínio dos EUA não é o protecionismo. São os mercados livres.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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