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Ocupação de seus avós pode afetar sua renda

Megan Mcardle

(Bloomberg) -- A mobilidade de renda é um problema para todos. A maioria das pessoas, na maioria dos países, sonha com um mundo em que as condições do nascimento não limitem seu status na sociedade. Nenhum país atingiu esse final feliz, embora alguns se saiam melhor que outros. Estatísticas de mobilidade de renda são criadas, geram preocupação, são analisadas em busca de algum sinal sobre possíveis curas. Um novo estudo da Suécia sugere que talvez devêssemos nos preocupar ainda mais e que a cura pode ser ainda mais difícil de encontrar do que pensamos.

A maior parte das pesquisas sobre mobilidade de renda examina a ligação entre a renda das pessoas e a renda de seus pais. No livro "The Son Also Rises: Surnames and the History of Social Mobility", Gregory Clark sugeriu que essa abordagem era limitada demais. Ao analisar os sobrenomes durante séculos em vez de anos, ele descobriu que o status socioeconômico é algo incrivelmente persistente, porque os tataranetos da elite vivem notavelmente melhor do que aqueles de origem mais humilde. O trabalho dele apontou que eram necessárias entre 10 e 15 gerações para apagar o legado de uma prosperidade passada.

Obviamente essas implicações são problemáticas, especialmente porque esses efeitos persistem mesmo após grandes convulsões socioeconômicas, mesmo após revoluções que visam explicitamente a nivelar as classes.

A tese de Clark foi alvo de diversas críticas, mas não foi refutada. E esse novo estudo aponta na mesma direção, embora com menor força. Analisando diversos membros familiares ao longo de várias gerações, os pesquisadores descobriram que a mobilidade de renda é menor do que o sugerido por uma simples análise da renda de pais e filhos. E isso na Suécia, aquele paraíso igualitário que oferece serviços que nivelam a renda do berço à sepultura.

Qual pode ser o motivo? Bem, toda família rica tem entre seus membros artistas famintos ou assistentes sociais quebrados. Eles podem ter rendas baixas em relação a seus irmãos e primos profissionais. Mas ainda assim estão marinando em um rico caldo de capital social: parentes mais velhos que servem de modelo e os ajudam na tarefa de seguirem os passos deles. O filho de um hippie de São Francisco cujos pais eram médicos provavelmente terá muito mais facilidade para entrar em uma faculdade de Medicina do que o filho de um instalador de papel de parede filho de outro instalador de papel de parede. Por isso, um retrato das rendas de pais e filhos ignora a valiosa herança social que esses filhos recebem, mesmo que as propriedades de seus pais não possuam muito valor financeiro.

Isso pode sugerir também que parte da aparente mobilidade de renda de lugares como Canadá e Escandinávia é ilusória. Lugares com impostos elevados e grandes benefícios sociais de certa forma reduzem o custo para pessoas de classe média alta que decidem trilhar carreiras relativamente pouco lucrativas. Mas essas pessoas não necessariamente abandonam a classe em que nasceram, mesmo estando na extremidade inferior de sua distribuição de renda. Os filhos delas ainda começarão com uma vantagem de classe que dará a eles mais alternativas do que as pessoas posicionadas mais abaixo na escala socioeconômica.

Este não é um argumento contra os benefícios sociais. É simplesmente um alerta sobre os limites das estatísticas. É claro que nos preocupamos por assegurar que as pessoas tenham renda adequada, mas esse não é o único motivo pelo qual nos preocupamos com a mobilidade de renda. A renda é um indicador de oportunidade e escolhas, da capacidade de se tornar o que você quer ser. Se solucionamos a questão da disparidade de renda com recursos do governo, mas deixamos que exista uma hierarquia de classes que limita as opções educacionais e profissionais das crianças de classes inferiores, então continuamos tendo um problema com o qual vale a pena se preocupar.

O que podemos fazer se isso for verdade? Uma possível implicação é que a redistribuição seria mais justificada, porque é difícil dizer que você mereceu o que tem se um componente importante da sua renda é o fato de ter tido os tataravós certos.

Se a história da família é um componente tão importante do sucesso financeiro, isso também enfraquece algumas das evidências de discriminação dos dias atuais. Se o status socioeconômico realmente é tão passível de ser herdado, mesmo em um país homogêneo como a Suécia, então as disparidades de renda entre os grupos dos dias modernos pode ser menos atribuível a uma discriminação injusta contra indivíduos e mais atribuível aos sutis e complexos sistemas pelos quais as sociedades reproduzem sua estrutura de classe ao longo de décadas.

É claro que gostaríamos de impedir que isso aconteça. Mas depois de acabar de definir o tamanho do problema, será preciso muito tempo para propor soluções definitivas.

Essa coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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