Espiões britânicos trocam governo pelo setor privado

Chris Stokel-Walker

(Bloomberg) -- Cameron Colquhoun encantou a plateia com uma grande revelação. O ex-espião do governo de Sua Majestade, de 33 anos, havia descoberto um ativo oculto.

O ativo não era um desertor, mas um iate. O cliente? Uma empresa de telecomunicações que pesquisava um possível alvo de aquisição, e o iate havia sido deixado de fora das declarações financeiras. O dossiê levantou preocupações suficientes para ajudar a cancelar a transação.

"Eu realmente me sinto satisfeito -- quando terminamos uma investigação -- de me reunir com o cliente e dizer 'aqui está o que descobrimos' e ver a cara de surpresa dele", disse Colquhoun. "Nós gostamos de contar às pessoas coisas que elas não sabiam."

Um emprego nos serviços de inteligência britânicos -- lugar de nascimento das agências de espionagem modernas -- pode ser emocionante, estressante e desafiador. Só não é lucrativo. Os salários iniciais são de apenas 30.490 libras (US$ 37.500) por ano. Por isso, após alguns anos de trabalho, muitos agentes partem para o setor privado. Em vez de caçarem terroristas e tiranos, eles vão atrás de maridos traidores ou da propriedade intelectual de um rival.

A vida dos ex-espiões ganhou destaque com a publicação, na semana passada, de um dossiê não verificado com informações a respeito do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, e a revelação da carreira paralela de seu autor como espião particular de aluguel. Christopher Steele, 52, foi funcionário do MI6, o serviço secreto de inteligência britânico, antes de entrar no setor privado.

Os recrutadores afirmam que costumam ver muitos deixarem o ramo em menos de uma década.

O Reino Unido emprega cerca de 12.000 pessoas em suas três agências de inteligência: o MI5, basicamente responsável pela inteligência doméstica; o MI6, inteligência externa; e o GCHQ, responsável pelo monitoramento eletrônico. Assim como acontece com qualquer empregador, há uma rotatividade regular de pessoal.

Ter serviços de espionagem no currículo é algo claramente benéfico. "Existe um nível percebido de inteligência e competência", disse Annie Machon, 48, ex-oficial do MI5 que deixou o serviço secreto em 1996 em litígio após denunciar irregularidades no serviço de espionagem britânico. "Se você chega com a recomendação do MI6 ou do MI5, isso obviamente intriga as pessoas."

O campo crescente da inteligência corporativa normalmente envolve investigações a ex-funcionários ou a futuras aquisições. Mas alguns ex-espiões podem achar frustrante trabalhar dentro dos limites legais aplicados aos cidadãos normais, sem acesso a ferramentas especiais do governo.

Ao contrário dos recém-formados de programas de mestrado em relações internacionais, os espiões têm conhecimento para construir relacionamentos e conexões -- e treinamento no mundo real, dizem recrutadores e ex-espiões. "Eles têm procedimentos para basicamente todos os tipos de problemas", disse Alex Bomberg, CEO da International Intelligence, uma empresa britânica privada fundada em 2002 que contrata ex-espiões com regularidade.

Todos ganham. A empresa contrata indivíduos altamente qualificados que se saíram bem em situações de alta pressão -- juntamente com a possibilidade de se gabar por contratar ex-James Bonds. Além disso, ex-funcionários de inteligência ganham muito mais dinheiro.

No ano passado, Chris Meager, da agência de recrutamento global Barclay Simpson, colocou um ex-oficial de inteligência em um cargo de chefe global de segurança de uma empresa privada. "Ele ganhou de cara um aumento de 20.000 libras", disse ele.

Mas nem tudo se resume ao dinheiro. "Muitas vezes as pessoas só querem ter suas vidas de volta", disse Machon. Essa carreira é como "colocar uma vidraça entre você e o mundo normal".

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