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Não culpe Davos pelos limites da globalização: Bloomberg View

Tyler Cowen

(Bloomberg) -- Talvez o meme intelectual mais comum desta semana seja a noção de que o "homem de Davos" e os globalistas negligenciaram o bem-estar das pessoas e, assim, abriram as portas a um populismo hostil, mas um tanto compreensível. A realidade é que a globalização envolve algumas forças autolimitantes significativas, e que muitos de seus problemas principais se encaminhavam para uma solução, mesmo antes do triunfo do Brexit e da vitória de Donald Trump nos EUA.

Vamos examinar algumas das queixas em questão.

Uma das maiores objeções à recente globalização é que ela ampliou o comércio internacional a um ritmo desestabilizador. Concordando ou não com essa avaliação negativa, de 1950 a 2008 o comércio internacional cresceu aproximadamente três vezes mais rapidamente que o PIB global. Desde então, o comércio internacional cresceu muito mais lentamente, aproximadamente ao ritmo do crescimento do PIB global ou até mais lentamente. Para o bem ou para o mal, isso é uma desaceleração significativa.

As elites não decidiram que o crescimento do comércio tinha que desacelerar. Pelo contrário, o rápido crescimento inicial tinha certas propriedades autorreversíveis incorporadas. Por exemplo, o crescimento e as exportações da China desaceleraram à medida que a economia amadureceu e os salários aumentaram, a Europa, que tem um comércio intenso, passou a representar uma percentagem menor da economia mundial e as pressões protecionistas sem tarifas alfandegárias aumentaram recentemente.

O critério por trás da globalização não consiste na convicção de que ela será dirigida por elites muito sábias. Ao contrário, a maioria dos processos econômicos mostra elementos de convergência, estabilidade e reversão à média, sem que ninguém tenha planejado. Existe uma metáfora comum da teoria do caos que uma borboleta batendo asas pode provocar um furacão do outro lado do mundo, mas no âmbito da economia algo análogo raramente acontece. A estabilidade é a norma, e a maioria dos grandes acontecimentos tem causas bastante significativas.

Pense na imigração ilegal, outra reclamação comum entre os populistas. Houve um grande fluxo de entrada de trabalhadores mexicanos ilegais durante o governo de George W. Bush, em parte pela necessidade de mão de obra para construção no boom imobiliário e na posterior bolha. A partir da Grande Recessão, esse fluxo de mão de obra acabou e houve uma migração negativa líquida, ou seja, mais mexicanos voltaram para o México do que chegaram nos EUA. Esse é mais um exemplo de um processo de autorreversão do que de algo planejado deliberadamente pelas elites.

A crise dos refugiados na Europa também está, de alguma maneira, em uma pausa, por várias razões, entre elas o acordo com a Turquia, o patrulhamento do Mediterrâneo, as barreiras internas europeias à imigração entre países e à dificuldade dos sírios para deixarem o país. Até certo ponto, essa situação foi deliberadamente planejada e arquitetada pelas elites. Não tenho certeza de que possa ser considerada moralmente aceitável, por causa do sofrimento humano associado. No entanto, se nós apenas estivéssemos perguntando se as elites políticas responderam às exigências populares de limitar o número de refugiados que deslocavam em direção à União Europeia, a resposta é sim.

Outra grande preocupação tem sido a estagnação salarial. Pelo menos nos EUA o crescimento dos salários aumentou. O último relatório sobre o mercado de trabalho mostrou que a média dos salários por hora deu um salto de 2,9 por cento nos últimos 12 meses. É uma preocupação totalmente legítima se perguntar se isso persistirá, mas de qualquer modo houve uma resposta do mercado de trabalho. Um possível mecanismo autolimitante é que, após um número suficiente de anos de estagnação salarial, alguns trabalhadores tomarão medidas mais positivas para melhorar a situação. Além disso, o crescimento dos salários na China em relação aos dos EUA pode fazer com que investir nos EUA seja novamente mais rentável. Na minha opinião, o problema da estagnação salarial ainda não acabou, mas pelo menos é possível ver progressos.

Relatórios da zona do euro também indicam que finalmente está acontecendo uma recuperação. Essa boa notícia também pode ser frágil, mas, novamente, é um sinal de um processo que se reverte sozinho. Se uma economia ficar estagnada por muito tempo, mas tiver um número significativo de talentos humanos, os empreendedores saberão como contornar as limitações. Os salários e os preços se ajustarão, ainda que apenas mediante mudanças sutis na qualidade dos empregos e nas condições de trabalho; os trabalhadores voltarão a ter empregos; começará uma recuperação. Neste caso, o caminho lento não é o melhor, mas as recessões não duram para sempre.

Há menos de meio ano, muitos economistas falavam em armadilhas de liquidez e em estagnação secular baseada na demanda. Hoje, eu quase nunca vejo esses conceitos no debate público, porque, para eles, grande parte da evidência desapareceu. E você pode agradecer ao homem de Davos por isso, porque ele defendeu a noção de uma ordem mundial com base em processos que se moderam e revertem sozinhos.

Eu não estou dizendo que está tudo bem, pois vejo grandes possibilidades de instabilidade na configuração política atual. Mas as elites têm feito o trabalho delas, e agora cabe aos eleitores procurar entender o que vem acontecendo.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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