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Bancos centrais e o risco de instabilidade: Bloomberg View

Mohamed A. El-Erian

(Bloomberg) -- Comentários diferentes feitos na semana passada pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, e pela presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, confirmaram a mudança em andamento na configuração das políticas enfrentadas por seus dois bancos centrais, sistemicamente importantes: o reconhecimento de uma transição nas condições e nas perspectivas econômicas e as dúvidas a respeito de sua robustez e durabilidade.

Por enquanto, a resposta deles é manter uma direção estimulativa para suas políticas e usar orientações verbais que evitem balançar o barco. Embora isso seja consistente com as expectativas dos investidores, o caminho das políticas voltado ao futuro pode não ser tão seguro e suave quanto sugeriria a precificação do mercado.

Na Europa e nos EUA, os monitores do produto interno bruto nominal vêm subindo com os indicativos de inflação e crescimento maiores, enquanto os temores relacionados a uma armadilha deflacionária diminuíram. Ao mesmo tempo, o governo do presidente Donald Trump sinalizou repetidas vezes sua intenção de aumentar o gasto com infraestrutura e as perspectivas de que isso aconteça são maiores agora que há maiorias republicanas nas duas casas do Congresso.

Os dois discursos feitos por Yellen no fim da semana passada, juntamente com a entrevista coletiva de Draghi na quinta-feira, reconheceram a melhora das condições econômicas.Contudo, as duas instituições estão resistindo, pelo menos por enquanto, à noção de que essa melhora profetiza uma inflação e uma precificação de ativos que deixam a política monetária "atrás da curva". Além disso, eles foram muito reservados em seus comentários a respeito das perspectivas para a política fiscal dos EUA, preferindo esperar mais evidências concretas de uma mudança real.

O reconhecimento de uma situação econômica de mudança e a possibilidade de uma política fiscal mais relaxada não se mostraram suficientes, pelo menos até o momento, para gerar uma modificação nos sinais das políticas. Em vez disso, os dois líderes de bancos centrais reiteraram na semana passada a orientação oferecida em reuniões de política monetária anteriores, portanto buscando manter uma flexibilidade considerável. Ao fazerem isso, eles reafirmaram suas preferências pelo equilíbrio dos riscos, algo que vem sendo uma constante em suas abordagens para as políticas monetárias desde a crise financeira global de 2008.

Ao formularem políticas -- especialmente em uma economia global incomumente fluida --, os bancos centrais precisam considerar não apenas o que vai bem, mas também os equívocos que poderiam acabar cometendo, mesmo inadvertidamente. Isso envolve um esforço para limitar os possíveis equívocos conhecidos àqueles que as instituições podem se dar ao luxo de cometer e depois desfazer de forma relativamente fácil ao longo do tempo.

Diante de uma reação cíclica incomumente tímida, e desafiada em sua estrutura, os bancos centrais demonstraram novamente que preferem errar para o lado do excesso de estímulos do que para o lado da falta deles, apesar dos riscos inerentes à estabilidade financeira futura e à alocação eficiente de recursos. E é isso o que traders e investidores devem esperar após observarem e internalizarem as preferências dos bancos centrais nos últimos anos. De fato, no caso dos EUA, a precificação do mercado relacionada à taxa de juros ainda sugere menos aperto em 2017 do que as três altas indicadas pelo Fed em sua reunião de política monetária mais recente e reiterada em comunicados subsequentes de autoridades individuais do Fed. Essas expectativas mais moderadas para os juros também se estendem além de 2017, para o caminho dos juros a médio prazo, apesar do que as autoridades do Fed sinalizaram a respeito.

Mas quanto mais os bancos centrais insistem com essa abordagem em meio à mudança das condições econômicas e fiscais, maior a necessidade potencial de uma mudança repentina na política monetária que, embora economicamente garantida, pode ser muito chocante para os mercados. E existe uma possibilidade de que os investidores possam estar subestimando isso, conforme julgado pelas métricas do mercado, incluindo indicadores de volatilidade implícita.

Embora o movimento ascendente dos rendimentos mais para fora da curva dos títulos do governo dos EUA provavelmente seja contido por fluxos de arbitragem da Europa e do Japão, o mercado de câmbio não se beneficia com uma influência tão moderadora. Como tal, o dólar pode estar sendo preparado para uma volatilidade significativa.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

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