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Análise: Risco político está mudando os mercados

Mohamed A. El-Erian

(Bloomberg) -- Durante muito tempo, o risco político tinha significados diferentes caso você estivesse investindo em mercados desenvolvidos ou em economias emergentes --e a solidez das instituições era o principal diferenciador. Nos últimos oito meses, no entanto, essa distinção se tornou muito menos evidente, e um número crescente de investidores passou a pensar sobre qual seria a melhor forma de reagir.

Para quem investia em mercados desenvolvidos, o risco político normalmente se restringia a mudanças dentro de faixas relativamente estreitas em torno do posicionamento político dos governos em relação a déficits e composição de orçamento, desregulamentação e, às vezes, liberalização de capital e comércio. No jargão dos economistas, tratava-se de movimentos junto com curvas, em vez de grandes mudanças de rumo nessas curvas.

Não era assim para quem investia em mercados emergentes, onde o risco político poderia facilmente envolver mudanças radicais na orientação econômica, a especificação do comércio e controles de capitais, a operação do sistema de taxas de câmbio e inclusive políticas de nacionalização e confiscação. Além disso, como ilustrado pelo caso da Yukos, que era uma potência petrolífera russa, o risco político também poderia implicar a interrupção total de uma empresa saudável e rentável, se não fosse por isso.

A credibilidade e a estabilidade das instituições e o respeito ao Estado de Direito foram alguns dos fatores mais importantes a contribuir para essa diferença notória. Essas características ancoravam a organização econômica e financeira, mantendo, de forma geral, estabilidade econômica e relativa previsibilidade.

Até pouco tempo atrás, essa distinção conseguiu suportar diversas mudanças --inclusive na Grécia, onde o governo Syriza, uma coalizão da esquerda radical, foi eleito em 2015 com a promessa de realizar grandes mudanças políticas, mas acabou buscando essencialmente a mesma abordagem de seu antecessor muito mais convencional.

Depois, veio o referendo do Brexit. David Cameron, então primeiro-ministro e líder do Partido Conservador, cometeu o que agora é visto como um enorme erro de cálculo político quando realizou, em junho do ano passado, um referendo para decidir se o Reino Unido deveria sair da União Europeia. A surpreendente vitória da campanha pela saída tirou Cameron do cargo e agora investidores e empresas enfrentam dúvidas significativas a respeito do arcabouço jurídico que vai reger as relações econômicas e financeiras do país com seu principal parceiro comercial.

Agora, é a vez de a França injetar risco político nos mercados.

Nos preparativos para a eleição presidencial que acontecerá no segundo trimestre, acontecimentos incomuns e inesperados nos partidos tradicionais de ambos os lados do espectro abriram uma possibilidade para que Marine Le Pen, líder de extrema direita da Frente Nacional, dispute seriamente o Palácio do Eliseu. Como a plataforma de seu partido pede a saída da zona do euro, o trading de títulos do governo francês disparou na semana passada e os diferenciais de risco aumentaram em relação aos bunds alemães.

Como resultado, parece que para os investidores se tornou mais conflitante tratar o risco político relativo ao preço de papéis, ações e câmbio do mercado desenvolvido. É compreensível que poucos sintam a necessidade --pelo menos por enquanto-- de adotar uma metodologia do mercado emergente. Mas não fazer nada está se tornando cada vez mais incômodo, considerando que os movimentos contrários ao establishment estão conquistando adeptos em diversos países avançados.

A resposta poderia muito bem ser uma evolução lenta e gradual, em vez de uma revolução.

É improvável que os mercados consigam ignorar o aumento generalizado do risco político no mercado desenvolvido. Desse modo, muitos indicadores de volatilidade, com a notável exceção da proteção contra queda extrema, continuam baixos demais. Afinal, os efeitos de vários anos de um crescimento econômico que é fraco demais e insuficientemente inclusivo alimentaram uma mistura entre ira política, receio em relação às instituições e perda da confiança na opinião de especialistas, seja formada no setor público ou no provado.

Mas o Estado de Direito dos mercados desenvolvidos, o interesse próprio --mesmo que não seja do tipo mais esclarecido-- e os sistemas de verificação e equilíbrio há muito em vigor provavelmente vão atuar como forças restritivas que limitarão a probabilidade de cair em um regime de precificação semelhante ao dos mercados emergentes.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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