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Boom de baterias depende de país africano com passado caótico

Tom Wilson

27/10/2017 14h54

(Bloomberg) -- Os carros do futuro dependerão cada vez mais da oferta de um metal obscuro de um país dos trópicos africanos, onde nunca houve transição pacífica de poder e ainda se usa mão de obra infantil no setor de mineração.

A maioria das grandes fabricantes promete produzir milhões de veículos elétricos em meio à repressão dos governos às emissões dos motores tradicionais, movidos a combustível, que são prejudiciais ao clima. Como resultado, cresce a demanda por baterias de íons de lítio e pelos materiais necessários para produzi-las -- incluindo o cobalto, uma substância relativamente rara encontrada principalmente na República Democrática do Congo.

O país anteriormente conhecido como Zaire -- que recebeu os boxeadores Muhammad Ali e George Foreman para a disputa do título dos pesos-pesados de 1974, chamada de "Rumble in the Jungle" ("Luta na Floresta") -- fornece 63 por cento do cobalto do mundo. A participação de mercado do Congo pode subir para 73 por cento em 2025 com a expansão de minas de produtoras como a Glencore, segundo a Wood Mackenzie. Em 2030, a demanda global pode ser 47 vezes superior à do ano passado, estima a Bloomberg New Energy Finance.

"Muitos planos importantes estão sendo colocados em prática pelas fabricantes de automóveis, mas poucas parecem ter avaliado a cadeia de abastecimento do cobalto", disse Gavin Montgomery, diretor de análise entre commodities da Wood Mackenzie em Londres, em entrevista.

Poucos mercados de commodities são tão dominados por um único fornecedor, e isso representa problemas para as fabricantes de veículos internacionais.

O cobalto é um subproduto da produção de cobre e níquel. Até recentemente, o excesso de oferta era comum porque a commodity era usada basicamente para endurecer o aço. Mas a capacidade desse metal cinza azulado de conduzir eletricidade com eficiência o tornou essencial para baterias recarregáveis de alta qualidade. O conjunto de baterias típico de um carro elétrico contém cerca de 15 quilos de cobalto, embora algumas versões usem menos de cinco quilos.

Nas próximas duas décadas, a frota global de veículos elétricos poderá chegar a 282 milhões, ou cerca de 16 por cento de todos os carros em operação, estimam analistas da BNEF.

O Congo oferece uma produção confiável há mais de uma década, mas ainda se recupera da brutal guerra civil que deixou milhões de vítimas e paralisava a indústria da mineração antes da chegada da paz, em 2003.

O presidente Joseph Kabila -- cujo pai assumiu o controle do país após derrubar Mobutu Sese Seko, em 1997, e foi assassinado quatro anos depois -- se recusou a entregar o poder após o fim do mandato, no ano passado. Desde que assumiu a presidência, em 2001, Kabila, de 46 anos, e sua família construíram uma vasta rede de negócios com ramificações em todos os cantos da economia, inclusive na mineração. A maior parte das receitas do país com exportações vem da mineração.

Citando as crescentes tensões políticas no país, a S&P Global Ratings rebaixou as notas da dívida e da moeda do Congo em agosto após cortes similares de outras agências de classificação. O preço do cobalto na Bolsa de Metais de Londres mais que dobrou nos últimos 12 meses, para US$ 60.125 por tonelada.

"A dependência em relação à oferta de cobalto do Congo é uma situação de risco", disse Andries Gerbens, analista da trader de cobalto Darton Commodities, com sede em Guildford, Reino Unido.

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