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Portugal vira exemplo de recuperação e Itália vê pouca melhora

Carolynn Look e Joao Lima

20/06/2018 15h05

(Bloomberg) -- A escolha de Portugal pelo Banco Central Europeu (BCE) para seu fórum anual coloca seus representantes em um país que mostra o que se pode conseguir com financiamento barato e com um programa de reforma econômica -- e os limites disso.

O desemprego despencou em Portugal desde que a zona do euro deixou para trás o golpe duplo da recessão com a crise da dívida, em 2013, e agora o índice é inferior à média do bloco. A recuperação se deve, em parte, às reformas econômicas exigidas como parte do resgate de 2011 financiado pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, e em parte às taxas de juros extremamente baixas e à compra de títulos do BCE.

Isso provavelmente agradará o presidente do BCE, Mario Draghi, que usou o discurso de abertura, no resort de Sintra, no topo de uma colina, para elogiar a recuperação "rica em empregos" da zona do euro. A situação do país também contrasta fortemente com a da Itália, que evitou o resgate financeiro, mas adiou ajustes estruturais que poderiam ter ajudado a impulsionar o emprego.

"Gostaria que a Itália tivesse as mesmas perspectivas que Portugal na atualidade", disse Luigi Zingales, professor de finanças da Faculdade Booth de Negócios da Universidade de Chicago, nascido na Itália, em entrevista à Bloomberg TV, em Sintra. Portugal "passou por um momento muito difícil, por um programa com diretrizes muito rigorosas. Mas está deixando isso para trás".

O país flexibilizou as contratações e os acordos coletivos, mudanças descritas pelo FMI como fundamentais para facilitar a recuperação voltada ao emprego. As reformas ajudaram a reduzir os custos de produção no país, aumentando sua competitividade. Isso é vital porque o fato de pertencer ao euro significa que a desvalorização cambial, que em grande parte daria o mesmo resultado, não era uma opção.

A Itália, por outro lado, não conseguiu alinhar o crescimento salarial com a produtividade, mesmo depois de uma reforma trabalhista controversa promulgada em 2015. Os eleitores agora elegeram um governo antissistema que planeja ampliar o gasto público, apesar de o país ter a maior carga de dívida da região.

Portugal conseguiu evitar o crescimento do sentimento populista, mas o atual governo socialista sinaliza que o sofrimento gerado pelas reformas estruturais já foi muito longo. Quando assumiu, em 2015, o primeiro-ministro António Costa desfez os cortes salariais dos funcionários estatais, elevou o salário mínimo e reduziu a jornada de trabalho semanal dos funcionários públicos.

Essa tendência gerou preocupações no BCE e na Comissão Europeia, que afirmaram em uma avaliação econômica conjunta do país, na semana passada, que "continua sendo essencial que as políticas continuem respaldando a adaptabilidade do mercado de trabalho".

Longo demais

Para o banco central, o país demonstra que muito pode ser feito para ajudar a impulsionar o crescimento, particularmente em um momento em que a aceleração gradual das pressões sobre os preços reduz a necessidade de políticas acomodativas.

Quando Draghi colocou sua instituição, na semana passada, em um caminho gradual rumo à interrupção do estímulo dando fim às compras líquidas de títulos, também reiterou o pedido para que os governos ampliassem "substancialmente" as reformas estruturais para aumentar o potencial de crescimento.

O mesmo vale para a reconstrução de proteções fiscais. Portugal é um dos vários países em risco devido à política monetária mais restritiva gerada por um endividamento de cerca de 126 por cento do produto interno bruto -- inferior apenas ao da Grécia e ao da Itália.

--Com a colaboração de Guy Johnson.

Repórteres da matéria original: Carolynn Look em Frankfurt, clook4@bloomberg.net;Joao Lima em Lisboa, jlima1@bloomberg.net

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