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Luta de policial contra notícias falsas salva vidas na Índia

Iain Marlow

21/06/2018 12h20

(Bloomberg) -- Músicos locais já estavam cantando sobre os malefícios das notícias falsas quando o comboio da superintendente da polícia Rema Rajeshwari, chegou à empoeirada praça de um dos povoados mais pobres da Índia. "Não acreditem nessas coisas", gritou um artista para a multidão.

De gorro azul escuro e uniforme cáqui engomado, Rajeshwari, 39, subiu em um palco improvisado diante de centenas de pessoas. Ela estava lá para tentar impedir a disseminação de mensagens falsas enviadas por WhatsApp alertando para sequestradores de crianças e assassinos errantes em seu distrito.

Em toda a Índia, boatos nas redes sociais fizeram com que moradores de pequenos povoados rurais formassem grupos de patrulha à procura de estranhos. Essas multidões mataram muita gente. Só em maio e junho, pelo menos seis pessoas morreram por ataques de multidões relacionados a notícias pelo WhatsApp em Assam, no leste do país, em Maharashtra, no oeste, e em Tamil Nadu, no sul. Há também tensões latentes relacionadas a grupos de vigilantes hindus que têm atacado e matado muçulmanos.

"Você vê mensagens, fotos e vídeos, mas não verifica se são reais ou falsos, simplesmente repassa", diz Rajeshwari. "Não divulgue essas mensagens. E quando aparecerem estranhos em sua cidade, não faça justiça com as próprias mãos. Não matem eles."

Com uma eleição marcada para 2019, existe o temor de que uma onda de mensagens falsas com teor político possa gerar mais violência, estimulando tensões maiores entre hindus e muçulmanos e desencadeando distúrbios religiosos. Há muito em jogo -- o partido nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi está perdendo apoio e os partidos da oposição planejam unir forças para enfrentá-lo. Rajeshwari afirma ter visto um aumento de mensagens perto das eleições estaduais recentes no estado vizinho de Karnataka e teme que surjam mais mensagens desse tipo quando estiverem perto das eleições nacionais.

Mas está acontecendo algo surpreendente ali. A campanha educativa de Rajeshwari parece estar funcionando. Não houve mortes relacionadas a notícias falsas em mais de 400 cidades sob o controle dela no estado de Telangana, no sul do país. Em um momento em que governos de todo o mundo lidam com notícias falsas, os esforços de Rajeshwari oferecem um antídoto local para um fenômeno global.

No distrito de Rajeshwari, fotos e vídeos macabros espalhados por meio de smartphones baratos criaram uma histeria em massa, levando os moradores a formarem patrulhas com bastões para acossar estranhos.

Frente a isso, Rajeshwari ordenou sessões de treinamento para mais de 500 policiais. "Tivemos que educar os nossos oficiais antes de enviá-los às cidades para educar as pessoas."

Além disso, ela conversou com centenas de líderes de pequenos povoados. Eles enviaram músicos para cantar sobre notícias falsas antes de a equipe dela iniciar o trabalho. "Dissemos aos moradores -- vejam, olhem para as pessoas que estão nesses vídeos, elas nem parecem indianas", disse. "Alguns dos vídeos são da América do Sul, do Sri Lanka, de Bangladesh e de Mianmar."

Os esforços de Rajeshwari geraram pedidos de policiais de outros estados, como Punjab, Maharashtra e Tamil Nadu, que esperam replicar essa campanha.Apesar do esforço, é difícil ignorar completamente as mensagens assustadoras."Depois que a polícia disse que os vídeos não eram reais, percebi que eram falsos", disse Mohammed Mahaboob, um vendedor de sapatos de 24 anos. "Mas mesmo assim, há medo no meu coração."