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Chineses questionam se país pode travar guerra comercial

Bloomberg News

25/06/2018 12h47

(Bloomberg) -- O presidente chinês, Xi Jinping, prometeu revidar à altura cada ataque do americano Donald Trump em uma guerra comercial. Com esse evento ficando mais provável, alguns em Pequim perguntam abertamente se a China está pronta para a briga, em um questionamento direto e atípico da liderança da segunda maior economia do mundo.

Nas últimas semanas, acadêmicos de destaque passaram a expressar dúvidas publicamente sobre a capacidade da economia chinesa ? dependente do comércio internacional e em desaceleração ? de suportar um ataque consistente dos EUA. Esses sentimentos estão se manifestando em palavras cuidadosamente escolhidas em artigos que circulam pela internet, que sofre intensa censura por lá. Segundo entrevistas feitas nos últimos dias com representantes ministeriais e diplomatas, a questão também está em pauta nos corredores do governo.

Os textos indagam se o Partido Comunista subestimou a oposição à China em Washington e se arriscou em um embate prematuro com a única superpotência mundial. Essas opiniões vão além do que é aceitável em um país onde dissenso pode provocar censura ou até prisão ? e são particularmente ousadas dado que Xi acumulou poder incomparável em meio a esforços para tornar a China mais assertiva no cenário internacional.

"Aparentemente, autoridades chinesas não estavam psicologicamente preparadas para a fricção ou guerra comercial que se aproxima", afirmou Gao Shanwen, economista-chefe da Essence Securities, corretora sediada em Pequim que tem estatais entre seus maiores acionistas. "Visões contrárias à China estão se tornando consenso entre o público dos EUA e o partido dominante", ele acrescentou.

Dúvidas particulares

O artigo de Gao - publicado pela primeira vez em 10 de maio na página dele na rede social WeChat após uma viagem a Washington - atingiu milhões de pessoas em diversas plataformas. A reportagem não conseguiu contatá-lo.

Textos como o dele têm chamado a atenção do alto escalão. Em conversas com a Bloomberg News na semana passada, alguns integrantes do governo expressaram ceticismo em relação à estratégia da liderança. Um funcionário do Ministério das Finanças afirmou que o país fez um "grande erro de julgamento" sobre o comprometimento dos EUA com um confronto de longo prazo com a China.

O Ministério das Finanças e o Ministério do Comércio não responderam a perguntas enviadas por fax pela reportagem sobre as opiniões contidas nos textos.

Risco de agravamento

Em comunicados oficiais, a China se mantém hostil desde a decisão de Trump no começo do mês de taxar US$ 50 bilhões em importações chinesas e adotar restrições adicionais ao investimento estrangeiro. A China prometeu retaliar imediatamente e "fortemente", levando Trump a renovar ameaças e colocar as duas maiores economias mundiais à beira de uma guerra comercial.

O risco é que os dois lados calculem erroneamente as intenções do outro e se envolvam em uma série de ataques e contra-ataques. Assim como Trump, Xi é um líder nacionalista que enfatiza sua força e atitude decidida e não pode se mostrar fraco em um confronto com o maior rival.

No ano passado, seu governo apresentou o plano para concluir a ascensão global da China até 2050, que inclui o fortalecimento do aparato militar e financiamento de projetos de infraestrutura em todo o planeta. Xi pode se manter no poder indefinidamente após a retirada dos limites ao mandato presidencial.

Yu Zhi, professor da Universidade de Finanças e Economia de Xangai, questionou a sensatez de uma política externa mais assertiva em artigo publicado no jornal Lianhe Zaobao, de Cingapura. Ele confirmou por telefone o conteúdo do texto.

"A China completou a tarefa de 'enriquecer'? A China completou o primeiro estágio do socialismo conforme descrito por Deng Xiaoping? É possível começar a competir diretamente com os EUA e outros países ocidentais?", escreveu Yu. "A China deve repensar sua direção estratégica."

Para os EUA, o problema vai além dos déficits comerciais. Na semana passada, a Casa Branca divulgou um relatório em que acusa a China de "agressão econômica". No início do ano, o Pentágono já havia caracterizado o país como "concorrente estratégico".

'Guerra geopolítica'

"Se houver má gestão, a guerra comercial entre China e EUA pode avançar plenamente e se ampliar para uma guerra financeira, uma guerra econômica, uma guerra por recursos e uma guerra geopolítica", afirmou Ren Zeping, economista-chefe da Founder Securities, em texto divulgado em 5 de junho e bastante reproduzido desde então.

"Os EUA usarão o sistema hegemônico estabelecido desde a Segunda Guerra Mundial nas áreas de comércio, finanças, câmbio, militar e etc. para paralisar a ascensão da China", acrescentou Ren.

No mercado acionário, o Shanghai Composite Index está 20 por cento abaixo do pico atingido em janeiro. A queda gerou alertas sobre o risco de um colapso como o ocorrido em 2015 ? a última vez em que as autoridades econômicas da China foram criticadas tão abertamente.

--Com a colaboração de Miao Han.

To contact Bloomberg News staff for this story: Peter Martin em Pequim, pmartin138@bloomberg.net;Keith Zhai em Cingapura, qzhai4@bloomberg.net;Dandan Li em Pequim, dli395@bloomberg.net

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