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Exército da Venezuela lucra com água enquanto país seca

Patricia Laya e Fabiola Zerpa

25/06/2018 13h02

(Bloomberg) -- Para chegar ao posto de abastecimento de água de El Paraíso, em Caracas, ao nascer do sol, Rigoberto Sánchez acorda antes das 4 horas da manhã. Horas depois, seu carro-tanque está em uma fila que avança lentamente com uma dúzia de outros. Apenas duas das 10 bombas estão funcionando, e, se tiver sorte, Sánchez terá tempo para fazer algumas entregas. Se ele tiver muita sorte, os militares não o interceptarão.

"Eles sequestram nossos caminhões, simples assim", disse Sánchez, apoiado em uma grade enferrujada. "Quando isso acontece, você fica nas mãos deles e tem que dirigir o caminhão para onde eles quiserem."

As forças armadas da Venezuela passaram a supervisionar o desesperado e lucrativo comércio da água em um momento em que reservatórios estão vazios, canos quebrados inundam bairros e funcionários sobrecarregados vão embora. Sete importantes pontos de acesso na capital de 5,5 milhões de habitantes agora são dirigidos por soldados ou policiais, que também assumiram o controle total de todos os carros-pipa públicos e privados. Extraoficialmente, os soldados indicam aonde os motoristas devem entregar - e os obrigam a fazer as entregas em endereços favorecidos.

O regime autocrático do presidente Nicolás Maduro entregou indústrias lucrativas aos militares, de 160.000 membros, diante da aceleração do colapso econômico, da região do Arco Minero del Orinoco, rica em minérios, às principais vagas da produtora estatal de petróleo e a um controle cada vez mais precioso dos alimentos e da água. Maduro promoveu centenas de oficiais desde que se tornou presidente em 2013 - há cerca de 1.000 generais, almirantes e oficiais, ativos e na reserva, em cargos públicos, e oficiais militares ocupam 9 dos 32 cargos do gabinete.

Na semana passada, o presidente nomeou Evelyn Vásquez, funcionária da empresa estatal Hidrocapital, como chefe de um novo ministério da água. Segundo ele, esta medida ajudaria a alcançar os padrões de acesso e cuidado estabelecidos nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU. O país deveria ter alcançado esse marco até 2015, mas a crise não respeitou os cronogramas burocráticos.

"O setor de água foi completamente tomado por causa de um governo que acredita que os militares podem colocar as coisas em ordem", disse Norberto Bausson, que foi diretor da Hidrocapital na década de 1990. "Se, além dessa incompetência institucional, tivermos um ano seco, as consequências são gigantescas."

Assim, a necessidade tornou-se um luxo na Venezuela.

Um relatório não publicado da instituição de caridade Caritas, que atende às regiões mais pobres em quatro estados, concluiu que em abril apenas 27 por cento das famílias tiveram acesso contínuo à água potável dos suprimentos estatais. Cerca de 65 por cento tiveram acesso menos de três dias por semana. No estado de Miranda, nenhuma família pobre teve água com maior frequência.

Aqueles que queiram mais devem pagar. Carros-tanque privados, como o de Sánchez, vinham revendendo água por um valor muito mais elevado. Até que pessoal militar foi enviado para os pontos de água da capital, em maio, em um plano de fornecimento de emergência.

Sánchez passou a ter uma nova despesa: oficiais militares começaram a comandar os caminhões, de acordo com uma dúzia de fornecedores de água em Caracas. Os motoristas são obrigados a ir aonde quer que os policiais lhes mandem, sem expectativa de pagamento. Às vezes, eles são direcionados a edifícios do governo, a residências militares ou a residências particulares. Em outros casos, os soldados simplesmente bloqueiam o acesso a fontes e poços. Em um posto de abastecimento perto de um grande parque no leste de Caracas, um cadeado foi colocado na alavanca da água.

Kariandre Rincón, assessora de imprensa do Ministério da Defesa da Venezuela, não quis comentar sobre a recente invasão militar dos recursos hídricos e caminhões do país.

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