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Números decepcionam devotos da Netflix: Bloomberg Opinion

Shira Ovide

17/07/2018 12h54

(Bloomberg) -- A Netflix é uma daquelas empresas que funciona como uma religião: você acredita ou não. (O mesmo vale para Tesla e Amazon.) É assim que funciona com uma empresa avaliada em 167 vezes os resultados durante os últimos 12 meses.

A parte complicada é que quando há lacunas no sistema de crenças, toda a religião é testada. Foi o que aconteceu com a Netflix na segunda-feira, quando informou que havia adicionado cerca de 670.000 novos assinantes líquidos de streaming nos EUA no segundo trimestre -- cerca de metade do previsto pela empresa. Se somado o decepcionante crescimento da base de clientes fora dos EUA, os 5,15 milhões assinaturas líquidas do serviço de streaming ficaram mais de um milhão abaixo das previsões de abril da própria Netflix. As projeções de assinantes para o terceiro trimestre também ficaram abaixo das expectativas médias dos analistas de ações.

É vital para a Netflix o crescimento da base de assinantes, ao mesmo tempo um imperativo financeiro e uma prova para os devotos da empresa. Devido à estratégia de alto risco da empresa de esbanjar em programação para se tornar uma potência global do entretenimento, nada mais importa na Netflix além do ritmo de geração de novos clientes pagantes, e os investidores reagem em conformidade com isso. Como se podia esperar, as ações da Netflix caíram 13 por cento nas negociações após o pregão de segunda-feira, quando os resultados trimestrais foram divulgados.

A Netflix destacou que às vezes excede sua própria previsão, e às vezes fica abaixo. Afirmou que a valorização do dólar prejudicou a receita internacional divulgada. É verdade, mas essas explicações não bastam para justificar que a empresa tenha adicionado uma quantidade muito menor de novos assinantes do que previa há alguns meses. Será que os aumentos dos preços para a maioria dos clientes da Netflix nos EUA estão desencorajando novas assinaturas ou fazendo as pessoas desistirem? Será que os novos possíveis clientes estão menos interessados na mais nova safra de programação original da empresa? Será que isto é apenas um pequeno tropeço na sequência de crescimento praticamente ininterrupto da Netflix? A empresa não oferece uma explicação completa para o que está dando errado.

E a explicação é importante. No caso da Netflix, o crescimento é um destino incontestável, porque a empresa tem gastado na expectativa de que acabará tendo muito mais clientes pagantes do que hoje. A empresa gastou a soma impressionante de US$ 10,1 bilhões em custos de programação nos últimos 12 meses -- ou cerca de quatro vezes e meia o total gasto pela HBO em 2017 comprando ou produzindo filmes e programas de TV.

Os custos de marketing da programação da Netflix também quase dobraram, para US$ 1 bilhão, nos seis primeiros meses de 2018 em relação ao ano anterior porque a empresa ampliou os gastos para gerar mais atenção e espectadores para as centenas de seriados e filmes de entretenimento lançados a cada ano. Ao todo, a Netflix se comprometeu a gastar a soma impressionante -- essa palavra novamente -- de US$ 18 bilhões nos próximos anos com programação de entretenimento.

Os números são inacreditáveis e crescem muito mais rapidamente do que a receita obtida com os clientes atuais. Isso significa que a Netflix precisa continuar tomando empréstimos para cobrir os gastos e deve continuar se antecipando ao crescimento do número de assinantes para que em algum momento haja clientes pagantes suficientes para a empresa se autofinanciar. Para a Netflix, conta como disciplina o fato de a queima de caixa ter sido de "apenas" US$ 1,8 bilhão no período de 12 meses encerrado em 30 de junho, abaixo do pico de US$ 2,1 bilhões na mesma época de 2017.

Os devotos da Netflix acreditam que o gasto atual da empresa se justifica para criar um serviço de entretenimento imprescindível que seja pelo menos tão difundido quanto qualquer forma de entretenimento popular que já tenha surgido. A Netflix está gastando na expectativa de se tornar um item básico no orçamento de centenas de milhões de lares. O crescimento do número de assinantes não é a cereja do bolo da Netflix; sem crescimento, não há bolo.

As oportunidades de grandes recompensas inevitavelmente são associadas a riscos elevados, e a Netflix não é exceção. A única maneira de a Netflix se justificar para os investidores devotos é continuar provando para eles que é capaz de crescer rapidamente. Durante um trimestre, pelo menos, a Netflix não passou neste teste de fé.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.