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Por trás do espetacular colapso de um titã do private equity

Dinesh Nair, Matthew Martin e Tracy Alloway

30/07/2018 15h17

(Bloomberg) -- Dias antes de se unir aos titãs dos negócios internacionais em Davos, em janeiro, Arif Naqvi começou a cortejar outro círculo de amigos -- magnatas do Golfo Pérsico -- para uma última tentativa de salvar sua empresa de private equity de Dubai.

Mas a situação já estava perto de perder o controle. Perseguido por acusações de que a Abraaj havia administrado mal o dinheiro dos investidores, a estrela das finanças de Dubai logo não teria mais como pagar o aluguel.

Depois que Naqvi, 58, entregou o controle da Abraaj, em junho, revelou-se que durante anos as principais receitas não cobriram os custos operacionais. A Abraaj tomou empréstimos para preencher as lacunas e agora deve mais de US$ 1 bilhão aos credores. Quando os credores fecharam as torneiras, a empresa entrou em colapso, deixando um rastro de prejuízos, ações judiciais e reputações destruídas.

A dependência da Abraaj de diversos níveis de alavancagem criou um modelo de negócio "altamente instável" que é incomum na indústria de private equity, disseram os liquidadores nomeados pelo tribunal que estão desmantelando a empresa, em relatório com data de 11 de julho visto pela Bloomberg.

Depois de analisar os documentos nos quais puderam colocar as mãos -- já que alguns desapareceram --, investigadores da PricewaterhouseCoopers disseram que o uso de empréstimos pela Abraaj para cobrir despesas operacionais a havia deixado "sensível à volatilidade e a possíveis crises de liquidez". Agora eles estão vendendo ativos da Abraaj para pagar credores e investigando acusações de "má administração, mistura de fundos e apropriação indébita de ativos".

Naqvi preferiu não comentar e a empresa defendeu o uso de alavancagem. Os empréstimos eram necessários porque a maioria de seus clientes, especialmente no início, eram empresas familiares que nem sempre efetuavam os pagamentos no prazo, segundo comunicado da Abraaj enviado por e-mail.

"Olhando para trás, o ritmo de crescimento deveria ter sido mais comedido", diz o comunicado. "A equipe de back-office não estava acompanhando o ritmo em termos de sofisticação e melhores práticas." As operações de back-office englobam, por exemplo, manutenção de registros e contabilidade.

O colapso espetacular da Abraaj foi um duro revés para a reputação de Dubai como centro financeiro global. Sacudiu a confiança dos investidores, entre os quais Bill Gates, a International Finance Corp. e agências governamentais dos EUA e do Reino Unido, gerou calotes em empréstimos de pelo menos 10 fontes e desencadeou ações judiciais nos Emirados Árabes Unidos e na Turquia.

A cronologia do colapso, extraída de conversas com cerca de uma dúzia de pessoas com conhecimento direto sobre a empresa, mostra como a situação saiu rapidamente de controle para Naqvi, o empresário paquistanês que ergueu a Abraaj do zero nos últimos 16 anos, mas a viu ruir em menos de 10 meses.

A Abraaj gerenciava recursos a partir de 18 escritórios espalhados por mercados emergentes da América Latina, da África e da Ásia -- uma rede que vários investidores americanos já tentaram comprar a preço de liquidação.