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Profissionais de tecnologia trocam Vale do Silício pelo Japão

Pavel Alpeyev

21/08/2018 10h54

(Bloomberg) -- O engenheiro de software Carlos Pérez Gutiérrez estava em uma posição invejável em que podia escolher entre ofertas de emprego. A Lyft, empresa de caronas compartilhadas, queria que ele assumisse o escritório de São Francisco. A Booking.com ofereceu-se para cobrir as despesas de mudança para Amsterdã, incluindo o custo de colocar seu cachorro em quarentena.

Mas o jovem de 30 anos acabou viajando para muito mais longe do seu México natal, para um país onde poucos falam inglês e muito menos espanhol, para trabalhar em uma empresa cujo nome a maioria das pessoas de seu país não reconhece: uma companhia japonesa chamada Line. E Pérez diz que aceitou menos dinheiro para isso. O motivo: um caso de amor com os quadrinhos, os animes e os videogames do Japão.

"Meus pais dizem que eu jogava videogames da Nintendo antes de começar a falar", disse ele. "Eu sempre quis ir ao Japão."

O Japão corporativo tem uma reputação de longas horas de trabalho, salários baixos e nenhuma opção de ações para funcionários comuns, como acontece no Vale do Silício, mas o país está passando por uma espécie de renascimento que facilita o recrutamento de talentos globais. O turismo está crescendo e, nos últimos anos, as cidades japonesas aparecem constantemente nos rankings das melhores do mundo para morar. Para algumas empresas de tecnologia, o prestígio da cultura pop japonesa também é uma vantagem quando se trata de contratar engenheiros, que, vamos combinar, tendem a ser um pouco nerds.

"Vemos que estão chegando no Japão mais imigrantes qualificados do que antes, especialmente no espaço de tecnologia", disse Marc Burrage, diretor administrativo da empresa de recrutamento Hays, em Tóquio. "Além disso, as barreiras caíram porque o governo reconheceu que as empresas não estão conseguindo suficiente pessoal qualificado em TI."

Cultura empresarial

É verdade que uma sociedade envelhecida e uma força de trabalho que está encolhendo forçaram a repensar a imigração no Japão, mas mesmo depois que o governo instituiu um sistema de pontos como o do Canadá para acelerar a residência permanente de trabalhadores qualificados, os números ainda são minúsculos. Após cinco anos e meio, o programa atraiu apenas cerca de 6.000 trabalhadores de TI, de acordo com o Ministério da Justiça.

A culpa é das empresas japonesas, muitas das quais continuam sendo obstinadamente monolíngues e desenvolveram culturas de trabalho que não se abrem a pessoas de origens diferentes, segundo Naoko Ishihara, pesquisadora em Tóquio da Recruit Holdings, a maior empresa de recursos humanos do país.

"Mesmo em empresas que se consideram globais, os executivos não poderiam fazer uma reunião em inglês", disse ela. "As empresas japonesas estão 30 anos atrasadas em termos de diversidade."Mesmo assim, para as empresas que tentam atrair trabalhadores do exterior, a popularidade do Japão ajuda.

A Ascent Robotics, uma startup de tecnologia de Tóquio que está contratando estrangeiros, foi fundada por um canadense, Fred Almeida, que trabalhou no Japão durante anos antes de abrir a companhia em 2016. A empresa está desenvolvendo inteligência artificial para veículos sem motorista e robôs, campos onde a demanda por trabalhadores está em alta e eles quase sempre podem ir para onde quiserem. Até agora, a empresa está recebendo uma média de 500 pedidos por mês do exterior, de acordo com o diretor de investimentos, James Westwood.

"As pessoas já querem estar aqui, é só dar uma oportunidade para eles", disse ele. Ex-diretor administrativo do Goldman Sachs Group em Hong Kong, Westwood mudou-se para Tóquio para assumir o cargo na Ascent em junho. Ele é um de 49 estrangeiros na empresa. Há apenas 11 japoneses.

--Com a colaboração de Jason Clenfield e Yuki Furukawa.