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Opinião: Crise financeira da Argentina não deveria surpreender

Editores

31/08/2018 12h28

(Bloomberg) -- O colapso da moeda argentina ressalta dois fatos sobre as finanças globais que são bem conhecidos, mas facilmente esquecidos. Em primeiro lugar, o esforço para normalizar a política monetária dos EUA após uma década de estímulo monetário extraordinário colocou muitas outras economias, especialmente aquelas em risco por razões internas, sob maior pressão financeira. Em segundo lugar, uma vez que uma crise de confiança começa, pode ser impossível controlá-la.

Poucos diriam que o recente aperto monetário nos EUA foi precipitado. Com a economia em pleno emprego e crescendo bem (mais de 4% em termos anuais no segundo trimestre), as taxas de juros continuam baixas e o balanço do banco central ainda está repleto de títulos comprados no enorme programa de compra de títulos do Fed (banco central dos EUA). Mesmo assim, um aperto suave elevou o dólar, o que tornou mais difícil para países como a Argentina vender ou pagar dívidas denominadas em dólar.

Some isso à vulnerabilidade subjacente, a avaliações equivocadas e à incerteza política, e o cenário está preparado para um colapso econômico que se retroalimenta.

Na Argentina, o ciclo pode parecer desconcertante. Um governo popular e favorável aos negócios já havia chegado a um acordo com o Fundo Monetário Internacional, garantido um financiamento oficial aparentemente adequado (a maior linha de crédito da história do FMI) e adotado um programa de responsabilidade fiscal. Uma correção do rumo foi necessária e estava em andamento.

Mas sem sucesso. As pressões sobre o peso elevaram a inflação e semearam dúvidas sobre a posição financeira do país --levantando perguntas sobre a necessidade de mais austeridade fiscal e, por sua vez, gerando um risco de derrota para o governo do presidente Mauricio Macri nas eleições do ano que vem. Essas dúvidas colocam ainda mais pressão sobre o peso, apertando o ciclo de colapso da confiança.

A resposta do governo na quinta-feira foi elevar as taxas de juros para 60%. Longe de conter o ciclo, isso atiçou-o.

Como sempre, é fácil ser sábio depois dos acontecimentos, mas parece ser impossível ter a sabedoria antes dos acontecimentos. No entanto, vale a pena enfatizar essa lição.

A sustentabilidade financeira não precisa ser testada contra um caso central de normalidade, mas sim contra um círculo vicioso de estresse crescente e queda da confiança. A estabilidade exige um grau de sobriedade financeira --especialmente quando se trata de contrair empréstimos em moeda estrangeira-- que pode parecer excessivo e até mesmo absurdamente cauteloso em tempos bons.

As dificuldades da Argentina, especialmente se disseminarem o pânico de modo mais amplo pelas economias de mercados emergentes, levantarão questões sobre até que ponto o Fed deveria considerar as condições em outros países ao tentar orientar a demanda nos EUA, sobre a arquitetura financeira internacional e o lugar do FMI nela e sobre o papel adequado do dólar nas finanças internacionais.

Todas essas são boas perguntas --mas até mesmo as respostas mais inteligentes não serão tão úteis quanto lembrar que a confiança financeira sempre é mais frágil do que parece, e que as piores hipóteses têm o irritante hábito de se tornar realidade.