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País de startups? A França de Macron ainda enfrenta obstáculos

Marie Mawad, Angelina Rascouet e Helene Fouquet

25/09/2018 12h39

(Bloomberg) -- Embora o presidente Emmanuel Macron fale muito sobre transformar a França em um "país de startups", o empreendedor do setor de tecnologia Christophe Sapet diz que continua tendo que lidar com alguns dos obstáculos que ele enfrentou quando estava começando, há 35 anos.

"Nós começamos na França mais ou menos na mesma época em que nossos rivais estavam começando nos EUA, mas pouco depois eles estavam captando 100 vezes mais dinheiro dos investidores e vendendo em todo o país", disse Sapet. "Enquanto isso, nós estávamos atolados, traduzindo para 20 idiomas europeus."

Sapet se refere à Infogrames, a fabricante de videogames que ele ajudou a fundar em 1983 quando a Electronic Arts, que hoje é uma gigante, era recém-nascida. Com seu empreendimento mais recente - a fabricante de carros sem motorista Navya - ele enfrenta obstáculos semelhantes para obter financiamento e um mercado europeu fragmentado, o que ressalta os problemas que sempre dificultam que startups da França se tornem campeãs globais.

Hoje, enquanto Paris recebe empreendedores no France Digitale Day, a pergunta de que por que o país não consegue produzir empresas de tecnologia que dominem o mundo vai incomodar. Vários fatores - desde uma cultura e mentalidade de expansão a financiamento, opções de saída simples, bolsa favorável à tecnologia e regulamentações harmonizadas em toda a Europa - deverão convergir para que o "país das startups" de Macron não seja só um desejo.

Progressos

Distintos regimes regulatórios e idiomas e um capital inadequado continuam paralisando as startups francesas. Não que o ecossistema não tenha progredido. Os antecessores de Macron tentaram aproveitar as fortes habilidades de engenharia e o histórico de inovação do país. Com incentivos fiscais e subsídios de instituições como a investidora estatal Bpifrance, eles conseguiram gerar capital de risco e chamar a atenção para novatos bem-sucedidos.

A França diminuirá impostos, também para quem vier do exterior, disse nesta terça-feira o ministro de Finanças, Bruno Le Maire. Também nos próximos meses, Macron apresentará a investidores estrangeiros argumentos de que a França terá em 2019 um conjunto grande o suficiente de "unicórnios", ou seja, startups de capital fechado com valores superiores a US$ 1 bilhão, para que eles invistam, segundo um funcionário francês a par dos planos.

'Extremamente marginal'

No entanto, apesar do encorajamento, o país tem tido dificuldades para acelerar o ritmo, especialmente com a expansão no exterior. A avaliação da empresa de transporte compartilhado Blablacar foi reduzida por um investidor neste ano, e a Sigfox, uma rede para objetos conectados, adia constantemente uma possível listagem no mercado acionário.

Rodadas de financiamento acima da marca de 100 milhões de euros ainda são "extremamente marginais" na França, concluiu a EY em relatório neste mês. A única no primeiro semestre foi a da fabricante de videogames Voodoo, em um acordo com o Goldman Sachs. Quatro transações foram superiores a 50 milhões de euros, em comparação com 248 de menos de 5 milhões de euros. Por causa de dados desse tipo, a França ganhou a reputação de ter criado uma "floresta de bonsais", mas nenhum gigante.

"Não existe uma receita mágica para estimular as startups da França, é simplesmente uma questão de tempo", disse Sapet. "Enquanto isso, o tamanho do mercado dos EUA e a liderança em tecnologia desse país fazem com que não haja forma de ultrapassá-lo."

--Com a colaboração de Ania Nussbaum.

Repórteres da matéria original: Marie Mawad em Paris, mmawad1@bloomberg.net;Angelina Rascouet em Londres, arascouet1@bloomberg.net;Helene Fouquet em Paris, hfouquet1@bloomberg.net

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