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Líderes em moedas digitais clamam por regras e legitimidade

Alastair Marsh

23/10/2018 11h29

(Bloomberg) -- Após o crash das moedas digitais, quem se gabava de atuar fora do sistema agora pede ajuda das autoridades governamentais para estabelecer legitimidade.

Os órgãos reguladores em geral ignoraram os ativos digitais quando a Bitcoin foi introduzida, há uma década, mas o salto de 1.400% no ano passado chamou atenção deles. As reações nas diferentes jurisdições variaram de namoro com um segmento promissor a hostilidade declarada. Só que neste ano algumas moedas digitais chegaram a perder 90% do valor.

Empreendedores digitais de São Francisco a Singapura entendem que esse mercado, avaliado em US$ 200 bilhões, precisa ser repaginado, abandonando a imagem de submundo sem lei e se tornando uma classe de ativos regulamentada para investidores institucionais, da mesma forma que ações e títulos de renda fixa.

Para se tornar ativo comum acessível a fundos de pensão e gestoras de recursos, é preciso haver regulamentação –e muita gente no segmento está fazendo lobby por isso.

"A força mais poderosa para reverter o sentimento negativo seria a regulamentação do mercado", disse Daniel Santos, que após trabalhar na área de banco de investimento da Standard Chartered fundou uma agência de classificação de risco de ativos digitais sediada em Singapura.

"Se o mercado de criptomoedas quiser se estabelecer como classe de ativos alternativos com credibilidade, precisará de um conjunto de regras para remover atividade fraudulenta e incentivar crescimento estável, o que deve atrair os bolsos recheados dos investidores institucionais."

'Irrealista e imatura'

A Digital Asset Rating Agency, fundada por Santos, pretende tranquilizar gestores de fundos preocupados em aplicar nesses ativos ao atribuir notas aos modelos de negócios, gestão e compliance desses emissores.

A possibilidade de uma versão da S&P ou Moody's dar selo de aprovação a ativos digitais mostra a evolução das moedas digitais desde os dias de anarquia dos pioneiros do segmento. Mas a época de ideologia ficou no passado, na opinião de Ryan Zagone, da Ripple Labs, em São Francisco, que pede mais proteção ao consumidor, combate a lavagem de dinheiro e gestão de risco no segmento.

A empresa de transferência de valores em que ele atua como diretor de relações regulatórias tem uma participação de 60% na moeda digital XRP e tem feito lobby junto a congressistas dos EUA.

"A regulamentação é de fato uma traição às origens da Bitcoin, que foi erguida com base em anonimato e distância da supervisão governamental", disse Zagone. "Essa filosofia é irrealista e imatura."

Em Londres, quem também clama por regulamentação é Obi Nwosu, dono da Coinfloor, uma bolsa de troca de Bitcoins. Ele está prestes a demitir funcionários e vem pedindo para a Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido regulamentar sua Coinfloor e o segmento como um todo desde 2013.

"Agentes institucionais trazem grandes volumes, além de liquidez e credibilidade", disse Nwosu.

No mês passado, a promotoria geral de Nova York alertou que o segmento não adotou medidas rigorosas para detectar transações suspeitas. Já o Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação para apurar suspeitas de manipulação de mercado.

A Suíça se mostrou mais receptiva e incentiva a criação de um "Vale das Cripto" no cantão de Zug.

Na Ásia, autoridades reguladoras em Hong Kong consideram experiências com diferentes abordagens para moedas digitais. O Japão recebeu bem esses ativos, mas a China baniu bolsas e ofertas iniciais de moedas (initial coin offerings ou ICOs). Cingapura tem uma postura intermediária e o governo se mostrou disposto a ajudar empresas de moedas digitais a abrir contas bancárias por lá, mas não pretende afrouxar regulamentos para atrair mais startups.

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