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Construtoras do Brasil retomam conversas com credores: Fonte

Julia Leite e Aline Oyamada

13/11/2018 19h19

(Bloomberg) -- Depois de quatro anos, dezenas de prisões e um punhado de reestruturações, os detentores de títulos dos gigantes da construção civil do Brasil ainda estão sofrendo as consequências do escândalo de corrupção que praticamente parou a indústria na América Latina.

A unidade de construção da Odebrecht, que foi forçada a conversar com bancos no início deste ano, em meio a um fluxo de caixa cada vez menor e uma escassez de novos projetos, está novamente buscando ajuda para lidar com dívidas que não pode pagar, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que pediu para não ser identificada porque a informação é privada. A empresa está em negociações para renegociar os termos de US$ 3 bilhões em títulos internacionais, depois de não honrar um pagamento de juros no mês passado, disse a pessoa.

O jornal Valor Econômico informou sobre as negociações da dívida nesta terça-feira e disse que a QGOG Constellation, uma unidade da Queiroz Galvão, também estava entrando em discussões com os detentores de bônus depois de não honrar um pagamento de US$ 30 milhões na semana passada.

Os problemas das dívidas surgiram há quatro anos e continuam até hoje, depois que a polícia fez buscas nos escritórios de algumas das maiores empresas de construção do país no âmbito da operação Lava Jato. O caso, a maior investigação desse tipo no mundo, estava centrado em pagamento de propinas em contratos ligados à Petrobras. Ao envolver os principais executivos e políticos, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os grandes projetos de infraestrutura em toda a América Latina ficaram paralisados, ??à medida que os contratos estão sendo reexaminados.

A Odebrecht preferiu não comentar se está em negociações de reestruturação de sua dívida. A empresa repetiu um comunicado enviado anteriormente, após não honrar um pagamento de cupom de US$ 11 milhões no mês passado, dizendo que usaria um período de carência de 30 dias para "analisar soluções para sua posição financeira de curto e longo prazo no ambiente de mercado atualmente desafiador".

A QGOG declinou de comentar a reportagem do Valor.

Esta não é a primeira vez este ano que as empresas de construção tiveram de negociar um alívio com seus credores. Em fevereiro, pessoas familiarizadas com o assunto disseram que a QGOG estava em conversas informais para uma reestruturação.

A Odebrecht, por sua vez, conseguiu linha de crédito de milhões de dólares dos bancos para pagar suas notas no exterior em maio. A unidade de construção provavelmente iniciará conversas formais com os detentores de bônus em uma ou duas semanas, de acordo com a pessoa.

"Não consigo vê-los fazendo o pagamento do cupom até o final do período de carência, a menos que recebam apoio do controlador", disse Rafael Elias, chefe de pesquisa de crédito para a América Latina na Exotix, sobre a Odebrecht. "Eles não terão escolha a não ser reestruturar a dívida."

Elias diz que, embora seja muito cedo para saber de que forma a reestruturação ocorrerá, ela pode ser semelhante à feita no negócio de óleo e gás em 2017 - uma troca por títulos com vencimentos variados. Ele diz que o valor de recuperação provavelmente será baixo, já que não vê a empresa gerando fluxo de caixa suficiente para pagar sua dívida.

A Fitch rebaixou a unidade de construção da Odebrecht para C e disse que a falta de pagamento indicou um "processo de default" que provavelmente precederia uma potencial troca de dívida. A construtora tinha R$ 1,8 bi (US$ 470 mi) em caixa no final de junho, segundo a Fitch, e cerca de US$ 60,8 milhões em pagamentos de cupons com vencimento em dezembro.

A empresa precisa fechar acordos de leniência na América Latina, parar de queimar caixa, resgatar recebíveis vencidos, estabilizar e melhorar a qualidade de seu backlog e reconstruir sua reputação dentro da fraca demanda do mercado, disse a agência de classificação de riscos.

A Fitch cortou a QGOG para default em junho.

Repórteres da matéria original: Julia Leite em São Paulo, jleite3@bloomberg.net;Aline Oyamada em São Paulo, aoyamada3@bloomberg.net