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Presidente do Citi na AL diz que venda do varejo valeu a pena

Cristiane Lucchesi e Felipe Marques

11/12/2018 07h00

(Bloomberg) -- A presença física do Citigroup na América Latina diminuiu drasticamente nos últimos dois anos, quando o banco vendeu os negócios de varejo no Brasil, na Argentina e na Colômbia e a área de gestão de fundos de investimento no México. Isso não significa que Jane Fraser, responsável pela região, gaste menos tempo viajando.

Ao responder a pergunta sobre onde ela mora, Fraser brincou: "Miami, nos finais de semana."

Durante o resto do tempo Fraser se dedica a visitar os 23 países onde o Citigroup faz negócios na América Latina. Ela diz que a decisão do banco de redirecionar seus investimentos está valendo a pena. O retorno sobre o patrimônio comum tangível, uma medida de rentabilidade, saltou para um nível perto de 25 porcento em relação a pouco mais de 10 porcento anteriormente, disse ela.

"Estamos colocando nossos recursos, nosso capital, nosso talento, nosso foco de investimento nos negócios nos quais estamos mais bem posicionados e temos vantagens competitivas, e estamos gerando retornos muito maiores", disse Fraser, 51 anos, em entrevista no escritório do Citigroup em São Paulo.

O plano para o ano que vem é investir mais no varejo no México, onde o Citi é o segundo maior banco do país e tem escala necessária para competir, disse ela. O Citigroup também buscará impulsionar os bancos corporativos e de investimento na Argentina, Colômbia e Brasil, onde "estamos mais otimistas com o que ouvimos sobre o novo governo", disse Fraser, que dirige desde 2015 os negócios latino-americanos da empresa sediada em Nova York.

O impulso no México vem apesar das críticas de alguns analistas que dizem que o negócio deveria ter sido vendido junto com a operação de gestão de recursos de terceiros, que o Citigroup transferiu este ano para a BlackRock.

"Mais vendas de ativos são ao menos possíveis para o México", disse Mike Mayo, do Wells Fargo, em uma nota dirigida aos clientes neste mês. "O Citi deveria fazer isso."

Alguns investidores concordam que o banco se espalhou demais nos mercados emergentes em todo o mundo e não tem retornos suficientes com isso. As ações da empresa caíram 23 porcento neste ano, o quarto pior desempenho no índice de 24 empresas do KBW Bank.

Mas há pelo menos um bom motivo para ficar com o México: lucros crescentes. Os ganhos com o negócio de varejo no país dobraram para US$ 334 milhões no terceiro trimestre em relação ao ano anterior, de acordo com o banco.

O banco "acredita nos fundamentos do México e em sua demografia", disse Fraser, acrescentando que o setor financeiro do país ainda tem pequena penetração.

"A digitalização está mudando radicalmente os bancos de varejo, e assim estamos investindo nessa transformação", disse Fraser. "Nós estamos ajudando o novo governo a pensar em como podemos garantir que o sistema financeiro sirva a todas as partes da comunidade de maneira igual e completa."

O Citigroup também pretende crescer no negócio que Fraser qualificou como "profundamente não-sexy, mas altamente lucrativo" chamado de "transaction services", que inclue operações de tesouraria e gerenciamento de caixa para corporações, câmbio e administração de risco. Os investimentos em tecnologia são parte desse impulso, disse ela.

Vender várias operações de varejo na região não significa que os empréstimos tenham diminuído, de acordo com Fraser.

Na Argentina, o início do mandato do presidente Mauricio Macri em 2015 trouxe um fluxo de investimentos ao país de empresas estrangeiras e locais, particularmente nos setores de energia, agricultura, fintechs e tecnologia, de acordo com Fraser. O Citigroup expandiu seus empréstimos em pelo menos US$ 3,5 bilhões em resposta, no mercado local e internacional, segundo ela.

No Brasil, onde o Citigroup também manteve seus negócios de private banking, o banco vem usando os recursos da venda de sua unidade de varejo para expandir.

"Nos próximos anos, muito do crescimento no Brasil virá de parcerias público-privadas nas áreas de energia e infraestrutura", disse ela. "Esperamos ver muito mais crescimento".

Mais de um terço dos responsáveis pelas operações em cada país do Citigroup na América Latina são mulheres, em lugares como Honduras, El Salvador, Venezuela e Equador. Por causa de sua alta posição na empresa, Fraser percebe que ela precisa "liderar pelo exemplo", disse ela.

"Eu sou uma mãe que trabalha, tenho filhos adolescentes, tenho de lidar com meu marido como qualquer outra mulher em casa", disse ela. "Tudo é normal, é possível, não é maluco".

Mas diversidade e inclusão não tratam apenas de gênero, disse ela.

"Uma organização precisa ser capaz de refletir diferentes perspectivas, diferentes formações, backgrounds, indústrias, diferentes geografias - porque achamos que assim podemos atrair os melhores talentos do mercado", disse ela. "Você tem de ser um banco com alma."

--Com a colaboração de Jenny Surane.