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Bancos centrais usam métodos inusitados para chamar a atenção

Jeanna Smialek

29/01/2019 11h33

(Bloomberg) -- Os bancos centrais enfrentam um desafio inerente a um mundo em que as nuances estão fora de moda e as conversas sobre políticas acontecem em 280 caracteres ou menos.

A atividade dos bancos centrais varia desde uma leve especificidade até uma incrível complexidade e, para os diretores dessas instituições, é arriscado que a população não faça ideia do que eles propõem - nem do porquê. As políticas para estabilizar a inflação funcionam melhor quando as pessoas acreditam nelas, porque dependem das expectativas em relação ao rumo dos preços. Além disso, uma reação popular contra taxas de juros mais altas pode causar problemas políticos.

A solução? Cachorrinhos, música reggae, desenhos animados, pescadores que dançam. O Fed e seus pares internacionais, do Banco da Jamaica ao da Noruega, estão recorrendo às redes sociais e buscando novas maneiras de se explicar até mesmo para os mais leigos.

Alguns desses esforços podem acabar sendo ignorados (o Banco Central Europeu tem 1.600 seguidores no Instagram, menos que seu número de funcionários, 2.500), mas este é um bom momento para tentar. Várias das maiores autoridades monetárias do mundo estão caminhando para uma política mais rígida e, por isso, poderiam se tornar bodes expiatórios se as economias perderem o brilho. Diante da disseminação mundial do populismo, instituições estabelecidas - especialmente aquelas com líderes não eleitos - precisam fortalecer a confiança pública.

"Nosso desafio é falar com uma linguagem clara, em vez de usar uma linguagem científica e altamente técnica que só meia dúzia de pessoas realmente entende", disse o governador do Banco da Reserva da Nova Zelândia, Adrian Orr, em sua primeira conferência de imprensa, em maio do ano passado.

Além das palavras

É um problema generalizado. O Banco da Inglaterra examinou suas próprias publicações em 2016 e concluiu que elas exigiam um leitor com nível universitário, sendo que o banco acredita que um leitor do oitavo ou nono ano seria um ponto de partida melhor. O banco central das Filipinas realizou testes semelhantes de legibilidade e decidiu que suas declarações "podem não estar voltadas para um público mais amplo" - uma das razões pelas quais passou a transmitir suas reuniões ao vivo no ano passado.

Ir além das palavras pode ser parte da solução. O banco de Orr começou a publicar uma "Declaração de política monetária em imagens" para explicar sua posição. Um desenho mostrava uma flecha que se aproximava de seu alvo; em outro, uma placa de "lombada" significava incerteza.

O banco central da Jamaica acrescentou melodia às imagens, postando clipes musicais no Twitter. "A inflação não é um inimigo se nós a controlarmos", diz uma das músicas em ritmo de reggae. "Se subir demais, o povo reclamará. Se cair demais, a economia não crescerá."

Os clipes fizeram sucesso, e alguns chegaram a centenas de milhares de visualizações. Os executivos do banco central da Noruega poderiam ser perdoados por não entenderem o motivo de tamanha comoção - afinal, eles já tinham lançado uma música monetária. Em 2017, o Norges Bank publicou um vídeo em que pescadores trajando capas de chuva amarelas cantavam sobre o bacalhau. Era uma apresentação da nova cédula de 200 coroas, que exibe a imagem desse peixe.

Grande parte da comunicação recente dos bancos centrais passou a adotar esse tom leve. Parece ser uma tentativa de tornar compreensíveis, e até mesmo modernas, instituições que têm fama de ser torres de marfim.

--Com a colaboração de Lorenzo Totaro, Jill Ward, Michael McDonald, Michelle Jamrisko e Matthew Brockett.