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Empresa turca ajudou Maduro a movimentar US$ 900 mi em ouro

Bloomberg News

08/02/2019 17h16

(Bloomberg) -- Dois meses depois de o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, visitar seu par Recep Tayyip Erdogan em Ancara, surgiu uma misteriosa companhia chamada Sardes.

A empresa começou a fazer negócios de repente, em janeiro de 2018, quando importou cerca de US$ 41 milhões em ouro da Venezuela, a primeira transação desse tipo entre os dois países em registros que remontam a 50 anos. No mês seguinte, o volume mais do que dobrou, quando a Sardes transportou quase US$ 100 milhões para a Turquia.

Em novembro, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva autorizando sanções ao ouro venezuelano -- depois de mandar um enviado alertar a Turquia sobre as operações, a Sardes já tinha transportado US$ 900 milhões do metal precioso para fora do país. Nada mal para uma empresa com apenas US$ 1 milhão em capital, de acordo com fatos relevantes apresentados em Istambul.

Não é a primeira vez que a Turquia se posiciona como uma alternativa para os países que enfrentam sanções dos EUA, o que pode minar os esforços de Washington para isolar governos considerados hostis ou corruptos. Ancara testou muitas vezes os limites da tolerância dos EUA e a aliança entre os dois países, membros fundamentais da OTAN, está agora essencialmente quebrada, de acordo com dois altos funcionários dos EUA.

Novas alianças

A Turquia, que é há muito tempo uma das parceiras mais valiosas dos EUA em uma região que atravessa a Europa e o Oriente Médio, tem encontrado cada vez mais interesses comuns com países autoritários como Rússia, China, Irã e Venezuela. Quando o líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se declarou presidente legítimo da Venezuela no mês passado, os EUA e muitos outros países ocidentais se apressaram a declarar apoio a ele. A Turquia se alinhou com aqueles que apoiam Maduro.

Não está claro o que sustenta o apoio da Turquia a Maduro, além de uma oposição geral à intromissão dos EUA e às iniciativas para derrubar governos nominalmente democráticos. Erdogan enfrentou uma tentativa de golpe em 2016 e se apresenta como um campeão dos líderes eleitos em todos os lugares, mesmo onde as votações não foram amplamente consideradas nem livres nem justas. Os laços econômicos entre os dois países são um fator de pouco peso: a Venezuela não está entre os 20 principais parceiros comerciais da Turquia, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Mas isso não significa que Erdogan não possa usar a economia de US$ 850 bilhões da Turquia, a maior do Oriente Médio, para ajudar amigos necessitados. O corredor do ouro da Sardes parece ter sido fechado em novembro, mas há outros caminhos. Um porta-voz da Sardes não respondeu a um pedido de comentário.

Erdogan foi a Caracas em dezembro para apresentar o líder venezuelano a Ahmet Ahlatci, presidente do conselho de uma das maiores refinarias de ouro da Turquia. No mês seguinte, Tareck El Aissami, um aliado próximo de Maduro, retribuiu o gesto com uma visita a uma refinaria de Ahlatci na cidade de Çorum, na região central da Turquia. A mídia pró-governo da Turquia informou que o ouro venezuelano seria processado lá.

Isso nunca se materializou porque Ahlatci estava receoso de infringir as sanções dos EUA, de acordo com uma pessoa com conhecimento direto da visita. Mas El Aissami estudou a tecnologia de refino para tentar replicá-la na Venezuela, disse a pessoa, que pediu para não ser identificada devido à sensibilidade do assunto.

Ahlatci não retornou as ligações da Bloomberg. Seu filho, Ahmet Metin, disse em entrevista por telefone que a empresa "não deseja comentar".

--Com a colaboração de Nick Wadhams, Saleha Mohsin e Margaret Talev.

To contact Bloomberg News staff for this story: Onur Ant em Istambul, oant@bloomberg.net