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Movimento antivacina abre caminho para a volta do sarampo

Ari Altstedter e Riley Griffin

13/02/2019 12h59

(Bloomberg) -- O crescimento do movimento antivacina colocou em risco os esforços para eliminar o sarampo e está por trás de um salto nos casos da doença no mundo todo ? das Filipinas ao Estado de Washington, nos EUA.

O número de casos da doença viral aumentou aproximadamente 50 por cento para 2,3 milhões globalmente no ano passado, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), que incluiu a "hesitação vacinal" entre as 10 maiores ameaças à saúde global neste ano. O contágio se intensificou em locais como Israel, Grécia, Madagascar, Ucrânia e Venezuela.

A volta do sarampo não pode ser atribuída a uma causa única, mas a relutância dos pais em vacinar os filhos se destaca globalmente. Preocupações com os efeitos colaterais de algumas vacinas ? apesar das evidências contra uma teoria de 1998 segundo a qual o autismo era causado pela vacina contra sarampo, caxumba e rubéola ? atrapalham esforços para impedir que 1,5 milhão de crianças morram anualmente devido a doenças que podem ser prevenidas.

"O movimento antivacina gerou muita informação equivocada", afirmou o comissário de Saúde do Estado de Nova York, Howard Zucker. "Temos uma internet poderosa inclinada a compartilhar esse conteúdo. Como comissário de saúde, pediatra e pai, é de cortar o coração."

Um dos planos decenais da OMS almeja a eliminação dos casos de sarampo e rubéola em cinco regiões até 2020, mas seu progresso está aquém do esperado.

Os surtos mais recentes revelam uma vulnerabilidade ao sarampo ? transmitido por tosse, espirro ou contato físico ? mesmo em países dos quais havia praticamente sumido. O número de pessoas desprotegidas em determinadas áreas dos EUA é alto a ponto de permitir a disseminação rápida de diversas doenças contagiosas, de acordo com especialistas.

"Veremos subsequentemente a manifestação de outras doenças que podem ser prevenidas por vacinas", disse Katrina Kretsinger, líder da equipe da OMS em Genebra responsável por sarampo e rubéola. "Podem ocorrer surtos de sarampo e então é provável que ocorram surtos de difteria."

A difteria é uma doença bacteriana ? geralmente prevenida por uma combinação de vacinas contra tétano e coqueluche ? que se mostra fatal em 5 a 10 por cento dos casos, segundo a OMS.

Recusando vacinas

Nas Filipinas, o último surto de sarampo matou 70 pessoas nas seis primeiras semanas do ano, de acordo com o Departamento de Saúde.

Em Nova York, foram confirmados mais de 200 casos desde outubro, levando a uma campanha em favor da imunização encabeçada por pais, professores e rabinos da comunidade ortodoxa judaica, para a qual o sarampo foi trazido por pessoas vindas de Israel, segundo Zucker.

O número de pais que se recusam a vacinar os filhos vem aumentando nos EUA, Austrália e Europa e ganhando força em alguns países menos desenvolvidos. Nas Filipinas, a desconfiança aumentou após autoridades terem atribuído a morte de crianças a uma vacina contra dengue introduzida pelo governo anterior a partir de abril de 2016, mesmo sem apresentarem qualquer prova.

Também no Brasil, o risco percebido é citado como principal motivo para os pais hesitarem em vacinar as crianças, ultrapassando motivos citados no passado, como falta de conhecimento ou crença religiosa, segundo estudo divulgado em 2018 por pesquisadores da OMS e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Antes da introdução da vacina, em 1963, quase todas as crianças dos EUA eram infectadas antes de completar 15 anos. Anualmente, aproximadamente 4 milhões de americanos contraíam a doença e 500 faleciam, de acordo com dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em Atlanta.

O CDC calcula que 90 por cento das pessoas que se aproximam de alguém infectado pegam a doença, a menos que tenham sido vacinadas ou tenham imunidade natural.Há quase uma década, a taxa de imunização contra sarampo está estacionada em 85 por cento, não chegando ao patamar de 95 por cento necessário para impedir que a doença se espalhe.

"Em muitos países, não só no Ocidente, os pais perderam de vista o que significa ter esses diversos tipos de doença", disse Kretsinger, da OMS. "Há um grau de complacência porque essas doenças não estão tão visíveis quanto no passado. Não podemos tirar o pé do acelerador agora."

--Com a colaboração de John Lauerman e Andreo Calonzo.

Repórteres da matéria original: Ari Altstedter em Mumbai, aaltstedter@bloomberg.net;Riley Griffin em N York, rgriffin42@bloomberg.net