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'Pior' lançamento do setor farmacêutico incitou alta de opioides

Janelle Lawrence e Jef Feeley

13/02/2019 16h46

(Bloomberg) -- O fundador da Insys Therapeutics, John Kapoor, estava tão determinado a recuperar os milhões que gastou para lançar a empresa que liderou a desastrosa abordagem da Insys de empurrar seu viciante remédio opioide a pacientes que não precisavam dele, segundo o ex-CEO da empresa, Michael Babich.

Devido à maneira com que Kapoor ignorava seus subordinados, "ninguém queria retrucar, porque quando ele se convencia de algo, a decisão estava tomada", disse Michael Babich, em Boston, ao júri do julgamento do processo por negócios ilícitos contra Kapoor, na terça-feira. As exigências dele contribuíram para uma mudança na estratégia de marketing após o lançamento atrapalhado do analgésico Subsys, em março de 2012, disse Babich.

Kapoor fez ataques verbais aos seus subordinados, classificando aquilo de "pior [palavrão] de lançamento que ele havia visto na história do setor farmacêutico", segundo Babich, que trabalhou com o chefe por 14 anos. Kapoor procurou corrigir o rumo, estabelecendo um sistema de bônus para os representantes de vendas que os estimulava a convencer os médicos a receitarem o medicamento, disse Babich aos jurados.

O sistema era baseado na "filosofia do fazer por merecer", afirmou Babich no depoimento. "Quem vende muito, ganha muito."

Aparentemente funcionou. As prescrições trimestrais da Subsys nos EUA dispararam para quase 15.000 em três anos e o preço das ações da Insys atingiram um pico de US$ 44,92 em 2015, contra menos de US$ 5 dois anos antes. Foi o suficiente para deixar Kapoor bilionário. Desde então, o preço das ações da Insys caiu 90 por cento.

Babich é uma das principais testemunhas do governo no processo contra Kapoor e outros executivos, que são acusados de conspirar para subornar médicos com falsos honorários de palestras e de enganar as seguradoras para que cobrissem as prescrições da Subsys.

Babich e o ex-diretor de vendas da Insys, Alex Burlakoff, se declararam culpados de acusações ligadas à estratégia de marketing da Subsys e fecharam acordos para prestar depoimentos contra Kapoor e os demais. Nenhum deles foi condenado.

Outras testemunhas afirmaram que altos funcionários da Insys montaram o programa de palestrantes para recompensar aqueles que mais receitavam medicamentos da Subsys, que eram remunerados independentemente de se seus colegas médicos compareciam aos eventos ou não. Segundo os regulamentos federais, é preciso que haja pelo menos dois médicos em eventos desse tipo para que eles sejam considerados legais.

O Subsys foi aprovado para pacientes com câncer com dor "irruptiva", mas os jurados já haviam sido informados por outras testemunhas que representantes da Insys pressionavam os médicos a receitá-lo para pessoas com artrite, depressão e dores nas costas.

Babich, que foi trabalhar para Kapoor como um de seus gerentes financeiros pessoais em 2001, começou a conhecer bem o empreendedor da área de saúde. Kapoor havia investido US$ 60 milhões do próprio bolso para fazer a Insys decolar.

Após prestar seu depoimento na terça-feira, Babich deixou o estrado sem olhar para Kapoor, nem para os outros réus.

Repórteres da matéria original: Janelle Lawrence em Boston, jlawrence62@bloomberg.net;Jef Feeley em Wilmington, Delaware, jfeeley@bloomberg.net