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Na cidade dos espiões do Brexit há escutas por todos os lados

Ian Wishart

14/02/2019 16h26

(Bloomberg) -- Quando o britânico que chefia a negociação do Brexit foi ouvido apresentando uma visão surpreendente sobre a estratégia do governo, em um bar de Bruxelas, na noite de segunda-feira, a surpresa de muitos diplomatas foi que isso não tivesse acontecido antes.

A capital belga, onde ficam as sedes da União Europeia e da Otan, trabalha ao som de trechos de conversas em cafeterias movimentadas enquanto autoridades governamentais entregam documentos secretos a jornalistas nas esquinas. Tendo 5.400 diplomatas, 40.000 funcionários da UE e quase 1.000 jornalistas residentes permanentes de mais de 30 países, a cidade onde o Brexit está sendo negociado é terreno fértil em escutas, fofocas e subterfúgios.

No lugar há também centenas de espiões russos e chineses, alguns fingindo ser jornalistas credenciados, segundo as autoridades, que pediram para não serem identificadas por discutirem questões de segurança. Diplomatas europeus são alertados a evitar frequentar certos bares porque é sabido que aparelhos de escuta podem captar suas conversas a partir de outras mesas ou janelas.

Densidade da espionagem

Quem visita escritórios de representação do Reino Unido é obrigado a deixar o telefone na recepção. Funcionários que trabalham com informações confidenciais nos altos escalões das instituições da UE têm o costume de fechar as persianas para o caso de haver drones filmando através de suas janelas.

"Bruxelas superou Viena e agora há uma densidade maior dos chamados serviços de inteligência de fora da UE em Bruxelas do que aqui", disse Peter Gridling, chefe de contrainteligência da Áustria, um centro de espionagem durante a Guerra Fria, a jornalistas, no ano passado.

Nada tão audacioso foi usado para flagrar Olly Robbins, o servidor público normalmente ultradiscreto que lidera as negociações do Reino Unido sobre o Brexit em nome da primeira-ministra Theresa May. Ele simplesmente foi escutado conversando enquanto tomava cerveja, tarde da noite, em um bar tranquilo no hotel Sofitel, em Bruxelas, por um jornalista da ITV que por acaso estava hospedado lá.

Os comentários relatados de Robbins podem destruir o frágil plano de May para conseguir a aprovação de seu acordo para o Brexit pelo Parlamento britânico. A primeira-ministra rechaçou perguntas sobre o assunto, na quarta-feira, dizendo que eram respaldadas "no que um indivíduo disse a outro segundo o que foi escutado por um terceiro em um bar".

Inteligência, traição

Em Bruxelas, os diplomatas europeus que trabalham no Brexit admitem que existe um certo nível de desconfiança até mesmo dentro do grupo de 27 países que negociam com o Reino Unido. Alguns foram observados compartilhando uma bebida e, provavelmente, informações de inteligência sobre as negociações, com colegas britânicos, disse um diplomata de um governo do Leste Europeu, pedindo anonimato devido à sensibilidade do assunto.

Após o vazamento de um documento confidencial do Brexit para um jornal, no ano passado, outro diplomata, de um país do norte europeu, disse que não conseguia olhar para os colegas nas reuniões seguintes e ficava se perguntando quem os havia traído.

Quando as negociações do Brexit começaram, em 2016, as autoridades britânicas receberam um alerta para que fossem mais cautelosas e evitassem conversar em lugares com maior probabilidade de ser alvos de espionagem e escutas, disse um diplomata. Eles mostram preocupação particular com a Rússia e a China, mas também estão alertas para não serem alvos de países europeus mais amigáveis que queiram estar um passo à frente em relação ao Brexit.