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Restrições à chinesa Huawei expõem atraso da Europa em 5G

Thomas Seal e Stefan Nicola

18/02/2019 15h40

(Bloomberg) -- Quando a primeira-ministra britânica, Theresa May, visitou a China em fevereiro do ano passado em busca de acordos comerciais que suavizassem o impacto que viria com a saída da União Europeia, a Huawei Technologies assumiu um compromisso bilionário que ajudaria a manter o Reino Unido "na linha de frente da era digital".

Um ano depois, autoridades do Reino Unido e de outras nações europeias consideram restrições à gigante de tecnologia. Para operadoras de telefonia, as restrições podem atrasar a implementação de redes móveis de quinta geração, necessárias para conectar veículos autônomos e até fábricas automatizadas.

O lobby das operadoras expõe uma fraqueza: a Europa não está na linha de frente da tecnologia 5G. E isso mesmo antes de o governo do presidente americano, Donald Trump, ter começado a pressionar aliados a bloquear a Huawei, argumentando que o governo chinês pode usar seus equipamentos para espionagem, o que a empresa nega.

O Reino Unido avalia se é melhor proibir os equipamentos da Huawei de sua rede 5G ou continuar administrando a situação por meio de diálogo e supervisão. É improvável que ocorra uma proibição total, segundo um representante do governo que pediu anonimato. O comandante do serviço de inteligência britânico declarou na sexta-feira que barrar a Huawei pode não ser o correto para o Reino Unido.

Embora a Europa tenha liderado a implementação de tecnologias móveis no passado, China, Coreia do Sul, Japão e (em menor grau) os EUA estão adiante agora.

Apesar dos elogios dos executivos de telecomunicação da Europa à tecnologia 5G ? que promete 10 vezes mais velocidade que a 4G, com custo menor para as operadoras ?, a expectativa é que eles façam investimentos em ritmo relativamente lento, por receio de que o retorno demore.

As operadoras europeias são menos lucrativas, de modo geral, e agências reguladoras vetaram fusões que dariam mais escala a essas empresas. O espectro necessário para 5G ainda não foi totalmente designado. Os governos do continente devem levantar bilhões de euros em leilões de espectro no próximo ano.

A Huawei está profundamente envolvida nas redes de telecomunicação da Europa, de forma que as restrições à companhia podem ser mais disruptivas do que em outros locais. Nos EUA, o setor em geral evitou a Huawei devido à pressão do governo. Por sua vez, o governo chinês pode impor um ritmo mais rápido de implementação da tecnologia 5G para apoiar a Huawei e também a ZTE, segundo analistas da New Street Research.

A Huawei era praticamente desconhecida na Europa há uma década e logo virou fornecedora de um terço dos equipamentos de telecomunicação no continente, tornando-se provedora crítica de antenas, comutadores, roteadores e outros sistemas, além de realizar testes com operadoras. A companhia foi ajudada por agências de segurança, que se abriram à fornecedora, mas monitoram de perto seus equipamentos.

Essa aceitação cautelosa agora está em xeque, à medida que as autoridades se dão conta do grau de dificuldade de policiar a tecnologia 5G. Nas redes 4G, os dados geralmente passam por uma central. Na tecnologia 5G, os dados são processados e circulam entre múltiplos pontos, em um esquema mais espalhado que pode atrapalhar a identificação de vulnerabilidades e ataques.

Para evitar o veto à Huawei, executivos de telecomunicação sugerem ajustes de software e monitoramento mais rigoroso e até retirar os equipamentos da empresa dos segmentos mais sensíveis das redes.

Se as propostas fracassarem e a Huawei for impedida de trabalhar com 5G por lá, a Deutsche Telekom prevê um atraso de dois anos em seus planos, de acordo com um estudo interno elaborado há poucas semanas. Um representante de outra grande operadora europeia, que pediu anonimato, afirmou que barrar a Huawei atrasaria o lançamento da rede 5G em 18 meses.

Já as rivais europeias Ericsson e Nokia estão um ano atrás da Huawei no desenvolvimento de produtos 5G, segundo Guy Peddy, analista da Macquarie.

Nokia e Ericsson afirmam que os produtos da Huawei não têm vantagens e que já estão trabalhando com equipamentos 5G. O presidente da Ericsson, Borje Ekholm, escreveu em um blog que a Europa não está avançando tão rápido quanto outras regiões por causa da falta de espectro, dos valores caros cobrados por espectro e de regulamentações onerosas. Eric Mangan, porta-voz da Nokia, avisou que a empresa finlandesa é capaz de fazer upgrade de equipamentos 4G de qualquer fornecedor para 5G.

O pior pesadelo das operadoras de telefonia é a possibilidade de remoção forçada dos sistemas 4G da Huawei que já utilizam. Embora alguns analistas considerem esse cenário improvável, a Deutsche Telekom alertou para esse risco em um documento interno, segundo o qual a proibição retroativa custaria bilhões e bilhões de euros.

--Com a colaboração de Angelina Rascouet e Niclas Rolander.

Repórteres da matéria original: Thomas Seal em Londres, tseal@bloomberg.net;Stefan Nicola em Berlim, snicola2@bloomberg.net