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BHP não é capaz de socorrer mercado de minério após Brumadinho

David Stringer, Matthew Burgess e Thomas Biesheuvel

19/02/2019 11h32

(Bloomberg) -- A BHP, a maior mineradora do mundo, não tem capacidade para ampliar as remessas destinadas ao mercado de minério de ferro em meio a interrupções da Vale decorrentes do desastre de Brumadinho.

O mercado internacional de minério de ferro ficou virado do avesso pela tragédia porque a Vale foi obrigada a paralisar operações e o governo brasileiro anunciou a proibição de certos tipos de barragens usadas para armazenar rejeitos de mineração. Havia uma expectativa de que produtoras concorrentes como BHP e Rio Tinto preencheriam a lacuna, mas elas têm pouco espaço de resposta porque se concentraram nos últimos anos na maximização dos lucros, e não em aumentar os volumes.

A BHP administra as operações de minério de ferro na Austrália a pleno vapor e não projeta mudanças como resultado do incidente de janeiro, disse o CEO Andrew Mackenzie a jornalistas, em conferência, na terça-feira.

"Não temos capacidade adicional para colocar neste mercado", disse Mackenzie. "Temos sido muito claros como empresa de que maximizamos a produção a partir do que já temos instalado, não estamos segurando nada." A BHP projeta uma produção de até 283 milhões de toneladas neste ano até julho, incluindo material para terceiros.

A Vale sinalizou uma perda de oferta de até 70 milhões de toneladas, mas a mineradora afirmou que conseguirá compensar parte desse total. As perdas de cerca de 50 milhões de toneladas sustentariam os preços em cerca de US$ 85 por tonelada e uma perda de 75 milhões de toneladas elevaria os preços a US$ 100 a tonelada, segundo a Wood Mackenzie. O mercado marítimo internacional totaliza cerca de 1,6 bilhão de toneladas.

A BHP e suas principais concorrentes, Rio Tinto e Fortescue Metals Group, têm pouca capacidade de elevar significativamente as remessas, informou a Macquarie Wealth Management em nota na sexta-feira, elevando sua projeção para o preço do minério de ferro em 2019 para US$ 77 por tonelada.

A Kumba Iron Ore, da Anglo American, que produz um material de alta qualidade na África do Sul que concorre com os de empresas como Vale e BHP, anunciou nesta terça-feira que projeta uma média de preços de US$ 70 a US$ 75 por tonelada em 2019, bem acima de seu preço de equilíbrio para 2018, de US$ 41.

Mackenzie, da BHP, disse esperar que os problemas que afetam a produção brasileira sejam resolvidos com o tempo. A maior parte das toneladas perdidas retornará ao mercado em algum momento, o que reduz qualquer incentivo para investir recursos em produção nova, disse.

"Não vemos motivo para nenhum grande investimento em minério de ferro", disse Mackenzie.

A BHP, a terceira maior exportadora global de minério de ferro, atrás apenas da Vale e da Rio Tinto, "veria com bons olhos um órgão internacional comum e independente para supervisionar a integridade da construção e da operação de todas as barragens", informou Mackenzie no texto de um discurso aos investidores, na terça-feira. A produtora pretende se reunir neste mês com órgãos internacionais para acelerar o trabalho de melhoria da segurança do setor, disse ele, sem dar mais detalhes.

A mina de minério de ferro da Samarco, uma joint venture da Vale e da BHP no Brasil, sofreu um incidente fatal similar em 2015. É cedo para afirmar se o incidente mais recente gerará regulações mais rigorosas capazes de atrasar ou interromper a possível retomada da operação, disse Mackenzie aos jornalistas.

O lucro subjacente da BHP no período de seis meses até o fim de 2018 caiu 8 por cento, para US$ 3,7 bilhões, valor inferior à média das estimativas de seis analistas compiladas pela Bloomberg, de US$ 4,37 bilhões, informou a empresa anteriormente em comunicado.

Os resultados foram prejudicados por interrupções da produção como o descarrilamento de um trem carregado com minério de ferro na Austrália Ocidental e um incêndio na operação de cobre Spence, no Chile. Os preços mais baixos do cobre e os programas de manutenção programada também afetaram o resultado, informou a BHP.

--Com a colaboração de Krystal Chia e Felix Njini.

Repórteres da matéria original: David Stringer em Melbourne, dstringer3@bloomberg.net;Matthew Burgess em Sydney, mburgess46@bloomberg.net;Thomas Biesheuvel em Londres, tbiesheuvel@bloomberg.net